Tempos de isolamento. Para bem e para mal

Se o termo semelhante for entendido no sentido religioso profundo (todo ser humano é meu, seu, nosso, semelhante) é inescapável perceber que não estamos, como sociedade, como país, fazendo o necessário

No festival de horrores em que o mundo está jogado, cada um de nós está chamado à responsabilidade de proteger a sua família e, para usar uma palavra de ressonância religiosa, aos nossos semelhantes.

Ficar em casa, tomar os cuidados elementares de higiene, lavar as mãos repetidamente, evitar saídas desnecessárias. Tudo isso é necessário para tentar deter a evolução exponencial (vale a pena resgatar os velhos livros de matemática ou dar uma googlada para entender o que isso significa) é essencial.

Tenho certeza de que a maior parte dos eventuais leitores o está fazendo. No mínimo pelo cuidado com a sua família. Mas é fundamental neste momento compreender que, em termos sociais, isso não é o bastante.

Se o termo semelhante for entendido no sentido religioso profundo (todo ser humano é meu, seu, nosso, semelhante) é inescapável perceber que não estamos, como sociedade, como país, fazendo o necessário.

Estamos fazendo o contrário. Estamos permitindo que a ignorância continue triunfando. Que os que apostam na divisão e no ódio sigam em sua marcha suicida e homicida.

Roberto Parizotti
Ruas de SP vazias: tempos de isolamento

A palhaçada (existe outra palavra?) daquela coletiva de imprensa com o staff presidencial usando máscaras sem saber como usar e contrariando a própria orientação (só devem usar máscaras os que estão contaminados) é a prova contundente do navio à deriva. 

Até Trump (sim, ele mesmo) mudou radicalmente sua posição negacionista e está liberando recursos de renda mínima para todos os americanos. Bolsonaro está permitindo que as empresas demitam ou reduzam o salário dos trabalhadores.

Descobrimos que os cientistas são necessários sim. Que a ciência é feita pelas universidades públicas. E que o SUS é que poderá minimizar os efeitos da pandemia. Mas os recursos “emergenciais” nem de longe compensam a asfixia a que ele continua submetido.

Nenhuma palavra sobre o que deve fazer a população que vive em favelas, que não tem acesso a água, que não tem plano de saúde. Nenhuma palavra sobre a população de rua. Sobre os precarizados entregadores de comida. Sobre os indígenas contaminados pelas invasões de suas terras. Sobre ninguém que não seja a classe média que, em tese, tem condições de atender às recomendações. E que pode bater panela de suas sacadas.

O austericídio está se revelando, dramaticamente, como aquilo que sempre foi: genocídio dos pobres.

*Professor Titular do IAU USP São Carlos

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