Massacre de Tlateloco, 50 anos: nem esquecimento, nem perdão

Uma crônica da marcha que lembrou os 50 anos do massacre que tirou a vida de centenas de estudantes na Cidade do México

Fernanda Lobo | Brasil de Fato

O começo é o fim

Ainda escutando a banda tocando “El derecho de vivir en paz”, canção de Victor Jara, lançada em 1971, deixei para trás a multidão e virei à esquerda em uma rua peatonal no centro da Cidade do México. Mais alguns passos adiante e, já na próxima quadra,  era possível pensar que nada estava acontecendo a poucos metros dali. Isso é próprio das cidades, a conformação espacial, organizada em quadras e ruas, não permite enxergar além do exato lugar onde se está. Pode-se ignorar completamente o que acontece muito perto, a algumas quadras.  

Nesta rua em que eu caminhava após sair da marcha de comemoração dos 50 anos do massacre de Tlatelolco (vale lembrar a origem etimológica da palavra “comemorar”, que, do latim, é “trazer à memória junto, em coletivo”), a vida retomava sua forma mais prosaica e havia gente comendo pão nas padarias, donos de pequenos comércios desejando vender mercadorias, taquerías com seu cheiro cotidiano de comida e molhos condimentados. Mas eu ainda via uma multidão infinita dentro de mim. Com um sentido de visão às avessas, dessas que você vê de dentro pra fora. 

1968

Foi justamente para controlar as manifestações políticas que vinham acontecendo e sendo reprimidas em todo o ano de 1968 em todo o México, que, em 2 de outubro, se deu um fim de tarde e começo de noite cruel para a Cidade do México, um dia que nunca mais se esqueceria. Antes, em setembro, uma multidão de estudantes havia sido violentamente reprimida com a ocupação do campus da Universidade Nacional Autônoma do México pelo exército e havia acontecido a Marcha do Silêncio, que protestava silenciosamente contra a violência do Estado, e teria levado de 300 a 500 mil pessoas às ruas sob o lema: “El silencio, más elocuente que las bayonetas” [O silêncio diz mais que as espingardas].

Em 2 de outubro de 1968, centenas de estudantes1, foram brutalmente assassinados pelo Exército a mando do então presidente Gustavo Díaz Ordaz Bolaños, a apenas 10 dias do início dos jogos olímpicos que tiveram sede na capital. Tomada pelos anseios libertários que sopravam de muitos lugares no mundo no ano de 1968, a marcha dos estudantes que lutavam ativamente a favor das liberdades civis e dos direitos humanos influenciados pela obra de Frantz Fanon e Herbert Marcuse, se concentrou na Praça das Três Culturas, em Tlatelolco. A praça leva este nome por conter construções de três etapas históricas do México: as ruínas pré-colombinas de Tlatelolco; a construção da igreja de Santiago, da época vice-reinal, construída com as pedras de Tlatelolco e os condomínios residenciais do século XX2.

Martin Luther King havia sido assassinado em abril deste mesmo ano de 1968 em Memphis, nos Estados Unidos, 4 anos após receber o prêmio Nobel da Paz, aos 39 anos. Segundo um processo civil levado a cabo anos depois, o assassinato foi tributado à máfia e ao governo norte-americano. Nos anos 1950, os EUA eram um país em plena Guerra fria, uma superpotência econômica, que vendia-se como exemplo de democracia e igualdade e… bem, se afundava em racismo. Os negros norte-americanos não podiam votar, seu trabalho era amplamente explorado e sofriam agressões constantes por parte dos brancos. Em dezembro de 1955, em Montgomery, a costureira negra de 52 anos, Rosa Parks, resolveu que não cederia seu assento num ônibus para um passageiro branco. Por esse ato de subversão, Parks foi presa e Martin Luther King, que era pastor da cidade, conclamou um boicote dos negros aos ônibus, o que o fez ficar conhecido no país e assumir a liderança do movimento negro norte-americano. Este assassinato teve importante papel das rebeliões de 1968.

50 años – 2 de octubre no se olvida [2 de outubro não se esquece]

Eram quatro horas da tarde quando cheguei à estação Tlatelolco de metrô com Tamy, uma amiga brasileira. Ali, encontramos duas amigas suas: Karla, mexicana, e Paola, colombiana. Havia já uma multidão de jovens quando descemos do trem. Eram muitos gritos de resistência e, pelo barulho intenso da multidão, eu apenas podia pescar palavras e expressões, como “América Latina”, “sangre”, “estudiantes”, “lucha”. Caminhamos atravessando a quadra de esportes do conjunto residencial Tlatelolco até a avenida Ricardo Flores Magón, que termina no Centro Cultural Universitário Tlatelolco, que, por sua vez, é estendido até Zona Arqueológica. Uma multidão dividida em subgrupos (sindicatos, estudantes de medicina, arquitetura, literatura, camponeses, professores, anarquistas) organizava-se para sair em marcha.

Chamava atenção a completa ausência de partidos políticos. Iam todos identificados de acordo com o grupo a que pertenciam, boa parte com carimbos na pele. Tive a impressão de que a organização extrema da marcha, com cordões de limitação (como os que vemos nos blocos de carnaval), carimbos, camisetas específicas de cada subgrupo tinham a ver com o trauma dos desaparecimentos. Recentemente, um amigo da UNAM comentou que o costume dos chilangos (mexicanos nascidos na Cidade do México) de sempre avisar aos amigos que já chegaram a suas casas ao fim de um encontro, festa, reunião, tem a ver com o trauma dos desaparecimentos. Esse ritual de se avisar é infalível, principalmente para as mulheres. 

Ao chegarmos à avenida Ricardo Flores Magón, Tamy apontou para um grafite em um muro. Era o desenho de uma cadela que usava óculos de mergulho. “É a Frida, a perra rescatista [cachorra do resgate]”. Depois, me explicou que, no terremoto que destruiu uma parte da Cidade do México em 19 de setembro do ano passado, essa fêmea de labrador ficou famosa por haver resgatado muitas pessoas com vida do meio dos escombros. Ainda enternecida pela imagem da cachorrinha Frida, pisquei os olhos e vi vindo uma multidão gritando a plenos pulmões. Era um sindicato de trabalhadores. Corriam e gritavam muito alto e com muita energia: “No has muerto, no has muerto, no has muerto, camarada. Tu muerte, tu muerte, tu muerte será vengada” [Não está morto, camarada, sua morte será vingada]. Nos cartazes, muitas mensagens evocavam a importância da memória do sangue derramado em Tlatelolco e deixavam claro que não haveria nem perdão, nem esquecimento: “ni perdón, ni olvido”.  

Quanto mais me aproximava da Praça das Três Culturas, mais percebia que a multidão era infinita. Como queria fazer alguns registros fotográficos, abandonei o grupo que me acompanhava e me meti sozinha na multidão em direção a uma ponte que está sobre a Avenida 5 de Mayo a fim de ter uma visão “aérea” da manifestação. Já perto da escadaria que dava para a ponte, por alguns segundos, tudo calou e a imagem de uma mulher muito velha segurando um facão simbólico cheio de tinta vermelha, que representava sangue, me paralisou. Seu rosto cheio de rugas e a expressão fechada diziam “não”. Ela estava no meio de um grupo de trabalhadores rurais, cujos corpos  tinham como extensão um facão, instrumento de seu trabalho em terras roubadas deles mesmos. E diziam “não” com rostos expressivos, talhados pelo sol. 

Multidão carrega a memória dos mortos de Tlateloco. (Foto: Fernanda Lobo)

Chegando lá em cima com muitas outras pessoas que também queriam fazer seus registros, quase não pude acreditar. Se perdiam de vista todas aquelas pessoas, mesmo de tão alto. Era muita gente e o sol fazia brilhar tantas cores e as cores mesmo é que pareciam gritar: “La lucha sigue! La lucha sigue, sigue!” [A luta continua!] .

Eu, que não havia dormido na noite anterior, aterrorizada pela possibilidade de um candidato fascista, que defende a tortura e despreza os direitos humanos, ganhar as eleições que se aproximam no Brasil, sentia entrar dentro de mim muitos momentos da História, assim como a construção daquela praça que tem tantos momentos da história sobrepostos. A sensação de que a luta continua no México; continua nos EUA, onde mataram Martin Luther King; continua na França, continua no Vietnã e continuará no Brasil. Tirei algumas fotos e desci. Soltei meu corpo, retesado há tantos dias, fechei os olhos, deixei a multidão me empurrar um pouco. Sorri no meio de tantos desconhecidos, mas que, ali, formavam um só corpo com o meu. Senti o sol calentar minhas bochechas, num momento de grande amor por tantas mulheres e homens guerreiros.

O túnel

Caminhamos pela 5 de Mayo em direção ao Zócalo (praça principal do centro da cidade). Os gritos eram intensos e entusiasmados. As pessoas corriam e dançavam. Crianças, famílias, senhores, senhoras se espraiavam por todos os cantos da avenida e se penduravam nas grades que delimitam um viaduto. Mulheres vendiam milho assado com pimenta, homens levavam carrinhos de frutas com pimenta, sal e limão no meio do fluxo de pessoas. A multidão, de tempos em tempos, contava junta de 1 até 43 e, então, ao final da contagem, gritava “Justicia!”, pronunciando o “a” final da palavra de maneira comprida e dolorida, em alusão aos 43 estudantes de Ayotzinapa, que as autoridades fizeram desaparecer em Iguala, em 2014.

Alguém puxava um grito que dizia “2 de octubre”, ao que a multidão sempre respondia vivamente que essa data “no se olvida!” Íamos em direção a um viaduto relativamente comprido. Entre registros de vídeos e fotos, peguei meu celular e a primeira coisa que vi foi que um segundo instituto de pesquisa confirmava a informação do dia anterior que não havia me deixado dormir: era real o aumento de intenção de votos no candidato fascista nas eleições para o Brasil. Me encolhi de novo. Minhas vísceras se encolheram e eu sentei no meio fio. Era um túnel escuro por onde teríamos que passar. Me levantei e resolvi continuar caminhando, embora meu corpo assustado não estivesse respondendo. Apenas agradecia por minha vida convergir com aquela marcha ensolarada nesse momento.

Encontrei, então, uma conhecida, amiga de uma amiga, feminista boliviana, que perguntou se eu queria caminhar com seu grupo. Juntei-me a eles e entramos no túnel. Havia alguém acendendo tochas de fogo lá dentro, o que me deixou com muito medo. Mas a minha sensação de pânico, ali, no escuro aos gritos de “Y luche, luche, luche, no deje de luchar, por un canto de obrero, obrero y popular” [Lute, lute, lute, não deixe de lutar, por um canto operário e popular] e “¿Por qué, por qué, por qué nos asesinan? Si somos el futuro de América Latina!” [Por que nos assassinam? Se somos o futuro da América Latina!] se transformou na maior emoção, coragem e esperança que eu jamais senti. Ou não era nem emoção, nem coragem, nem esperança. Eram só os sons dos tambores que começaram a soar e marcar o ritmo de tudo aquilo que estava disperso e confuso em mim. Mulheres dançavam como em um transe, sorrindo. E meu corpo se encheu de energia; comecei a dançar e pular. A sensação era de que tudo passava pelo meu corpo: a raiva intensa dos ricos fascistas que têm mãos sujas de sangue desde sempre, o amor profundo pelos meus amigos e amigas bichas, sapatonas, negras, negros, trabalhadores explorados. Tudo se movimentava em mim. Havia água no chão do túnel e o reflexo brilhante da multidão dançando nas poças de água refletiam, como espelhos, a vida, a luta, a resistência, a dissidência coletiva dentro de mim. Meu corpo dizia que venceremos, as pessoas sorriam largamente umas para as outras. “Por que nos assassinam?”

A luz

Saí do túnel e não podia acreditar no sol que ainda iluminava e esquentava por volta de 18h30 da noite. Depois de andar um pouco, encontrei novamente, ao acaso, minhas amigas com quem havia ido. Vi a cúpula amarela e alaranjada do Teatro Municipal erguendo-se acima da multidão em contraste com as imagens mais imediatas de casas sem reboco, com tecidos estampados de flores pendurados nas janelas. Provei um Tepache, uma bebida de abacaxi fermentado, com muito gelo. Respirei, sorri. Sei que, se nos matarem, mesmo depois que nos matarem, alguém vai se vingar movimentando corpos dissidentes, mesmo nos túneis mais escuros da História. 

Me lembrei de Tommie Smith e John Carlos, atletas afroamericanos que ganharam ouro e bronze, respectivamente, na corridas de 200 metros nos Jogos Olímpicos de 1968, realizados na Cidade do México exatamente 14 dias depois do massacre de Tlateloco. No pódio, abaixaram a cabeça, fecharam os olhos e ergueram o punho com uma luva preta quando começava a soar o hino nacional estadunidense durante a entrega das medalhas. O gesto representa a saudação do Poder Negro. Carlos levava a blusa aberta como símbolo de solidariedade a todos os operários dos Estados Unidos e um colar, que, segundo ele, “era pelas pessoas que foram linchadas ou assassinadas, mas que ninguém fizera uma oração por elas, pelos que foram enforcados e pelos que foram jogados nas águas no meio do caminho”. Os atletas foram, posteriormente, severamente punidos em seu país em virtude do gesto de inaceitável teor político no evento pretensamente apolítico, mesmo que em 1936 um gesto de saudação nazista não tenha sido repreendido pelo Comitê Olímpico Internacional. Eram seus corpos em um movimento silencioso de cabeça e braços em cima de um pódio olímpico realizando uma afronta estrondosa ao governo do país mais poderoso do mundo.

Ainda um pouco aérea porque estava muito impressionada com a marcha e abalada pela pesquisa de intenção de votos no Brasil, caminhava com as camaradas, que convidaram a ir saindo para comer algo e tomar uma cerveja. Eu aceitei. Nos detivemos com a aproximação de uma fanfarra que, ao pôr-do-sol, tocava a canção de Victor Jara que cito no começo. Esta canção homenageia o ativista vietnamita Ho Chi Min, que armou uma grande resistência ao imperialismo norte-americano e a outras tentativas de dominação. Jara, aos 41 anos, foi torturado e assassinado no estádio Chile de Santiago, convertido em campo de concentração pelas tropas do ditador Augusto Pinochet, dias após o assassinato de Allende e o golpe militar, em 1973. “Sólo cinco minutos, la vida es eterna…” [Apenas cinco minutos, a vida é eterna], era uma de suas grandes frases. Aí, foi, então, que viramos na próxima esquina e a cidade retomou seu ritmo usual. 

Talismã

O escritor chileno Roberto Bolaño termina seu livro "Amuleto", no qual narra o Massacre de Tlatelolco, da seguinte maneira, na voz de uma personagem que fica no banheiro da universidade enquanto os estudantes seguem em marcha (tradução minha).

“Assim, os meninos fantasmas cruzaram o vale e se precipitaram no abismo. Um trânsito breve. E seu canto fantasma, ou o eco de seu canto fantasma, que é o mesmo que dizer o eco de nada, seguiu marchando ao mesmo passo que eles, que era o passo do valor e da generosidade em meus ouvidos. Uma canção que mal se ouvia, um canto de guerra e de amor, porque os meninos, sem dúvida, dirigiam-se à guerra, mas faziam isso lembrando as atitudes teatrais e soberanas do amor. 

Mas que tipo de amor eles puderam conhecer?, pensei quando o vale ficou vazio e apenas seu canto seguia ressoando em meus ouvidos. O amor de seus pais, o amor de seus cachorros e de seus gatos, o amor de seus brinquedos, mas, sobretudo, o amor que tiveram entre eles, o desejo e o prazer. E, por mais que o canto que escutei, falasse da guerra e das façanhas heróicas de uma geração inteira de jovens latino-americanos sacrificados, eu soube que, por cima de tudo, falava do valor e dos espelhos, do desejo e do prazer. E esse canto é nosso amuleto”.

Agora, em silêncio, ressoa uma multidão em mim, em nós, gritando e dançando pelo direito de viver em paz. E esse é o verdadeiro sentido do amor, em que um sempre remete ao outro, em uma rede que “fará triunfar o direito de viver em paz”.

1 não se sabe o número exato de mortos, muitos arquivos de imagens teriam desaparecido em um incêndio na cineteca nacional em 1986.

2 Segundo a Wikipedia: "Tlatelolco foi uma tribo que deu o nome à sua cidade asteca (do mesmo nome) na Cidade do México, anexa à Praça das Três Culturas, a famosa praça onde ocorreu o massacre de Tlatelolco. Embora originalmente dispusesse de autonomia, foi entretanto absorvida pela capital asteca, Tenochtitlan e, desde então, passou a funcionar como mercado. Segundo o conquistador Bernal Díaz del Castillo, era maior que a cidade espanhola de Sevilha e maior que qualquer outra zona de mercado com que os espanhóis já se tinham cruzado durante a conquista do México - mesmo maior que Veneza e Constantinopla, com cerca de 20.000 a 40.000 mercadores. Quando do cerco de Technotitlan, pelas tropas comandadas por Hernán Cortés, estes conquistaram a metrópole e arrasaram-na bairro por bairro. Enquanto as restantes cidades astecas depunham as suas armas e reconheciam a soberania espanhola, os Tlatelolcas resistiram aliando-se aos astecas Tenochcas. Estes, por sua vez, e comandados por Cuauhtémoc, ficaram confinados a Tlatelolco onde, no seu último período de existência, foram derrotados e dizimados pelos conquistadores. Aí morreram, a 13 de Agosto de 1521, cerca de 40.000 homens, mulheres e crianças astecas

*Fernanda Lobo é pós-graduanda em literatura latino-americana na FFLCH-USP, professora de literatura e editora. Atualmente em intercâmbio na Universidade Nacional Autônoma do México, na Cidade do México.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira

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