Selfie ou As Ruínas do Muro

É em uma transição de protagonismo, na qual as hegemonias apenas mudam de roupa, mantendo-se as mesmas do ponto de vista estrutural, que continuamos produzindo, trabalhando, consolidando nossos signos e símbolos de resistência

Paloma Franca Amorim

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Em meio às ostensivas cotidianas de um sistema capitalista que avançava em alta velocidade no sentido da mercantilização daquilo que, a priori, parecia ser o único bem imercantilizável, a nossa alma, eu e Julinha dividíamos a cozinha de casa a fim de dar continuidade à prosa que na noite anterior só fora interrompida por causa das altas horas e do obrigatório despertar às seis da manhã.  

Nossa casa era o que hoje a contemporaneidade chamaria de co-living. A gente, na época, chamava de república mesmo, ou casa de estudantes, ou Pokebola (um nome afetivo quando queríamos nos aproximar dos outros significados de um sobreloja alugado na Teodoro Sampaio por quatro pessoas amigas que, por necessidade, viviam juntas).

Julinha falou uma coisa que me fez rir muito naquela noite: em Minas, sua região de origem, conhecia pobre que tentava se fazer de rico, mas conhecer rico que tentava se fazer de pobre pra ela era a primeira vez. Esse comentário veio a propósito de nossas aventuras no curso de artes cênicas da USP, um espaço onde aparentemente todo mundo não tinha dinheiro. Mas tinha. Porque no final das contas quem ficava pra trás nas festas grandiosas ou nos relatos de visitas aos festivais teatrais de Praga éramos nós, os de fora, aqueles dos sotaques engraçadinhos, das gírias urbanas, migrantes, periféricos.

Eu nunca havia pensado nisso. Foi a Julinha mesmo que começou a abrir meus olhos no início do segundo ano. A percepção se ampliou portanto para curtos episódios em que se tornava evidente um discurso de justificativa ao dinheiro que rondava a vida daquelas pessoas. Pelos corredores, estavam sempre reclamando da falta de trabalho ou pela pouca grana. Se ficávamos sabendo que haviam viajado para mais uma de suas jornadas europeias de verão faziam cara de tristeza dizendo terem sido obrigados pela avó empresária.

Uma vez eu, por ingenuidade ou por justeza mesmo, paguei uma tapioca a uma moça que era filha de um dos jornalistas mais renomados do Brasil depois que ela disse estar passando mal de tanto fumar cigarros nas discussões de assembleias. Comprei-lhe o lanche com o dinheiro que eu usaria para almoçar. Nos despedimos, ela perguntou se eu não participaria da plenária de nosso departamento. Nessa época eu já trabalhava e tinha que dar aula, disse isso e ela me olhou ladina com um ar de crítica, falou rindo, até amorosamente, que eu era pelega. Segui para o ponto do ônibus com fome e envergonhada por estar distante da prática política de minha universidade. Isso faz uns cinco ou seis anos.

Outro dia ela estava lá em Berlim, tirando selfie com as ruínas do muro.

O contexto das artes na USP parece, agora numa observação mais distanciada, uma justa parábola do que eu falava no início tragicômico desse texto: a mercantilização da alma chegou e é a prática artística/midiática que vai tornar esse processo naturalizado. A subjetividade hegemônica, burguesa, racista, tem cada vez mais se aproximado ao fim da linha e outras frentes alternativas de produção comportamental/cultural, pretas, pobres, de resistência, se mobilizam para ocupar espaços. A reação a isso se dá muitas vezes de forma violenta, destrutiva, escancaradamente elitista. Por outro lado, enxergo um caminho muito mais sutil que é tão tóxico quanto o primeiro: a cooptação dos discursos historicamente marginalizados sob uma roupagem de "estilo de vida".

No mercado musical talvez o exemplo fique mais evidente. Em São Paulo, música marginal para as elites intelectuais (que não são necessariamente elites econômicas) é a Lira Paulistana que contou com a liderança do Nêgo Dito, Itamar Assumpção, uma das exceções negras e periféricas reforçando a tese do movimento alicerçado em geral por vozes de uma classe média do sudeste branca e acadêmica. O que se falou até muito pouco tempo atrás sobre a prática musical das periferias, essa sim materialmente à margem, foi que não se constituía nem mesmo como expressão cultural.

A criminalização do rap, do funk, do samba, gêneros esses de origem negra e periférica, se desfaz a partir do momento em que num rompante neocolonizatório da indústria cultural o branco de classe média começa a "emprestar" sua voz e imagem à criação daquele autor que o mercado manteve invisibilizado por razões políticas programaticamente atreladas ao racismo e à exploração econômica.

É nessa falsa transição de protagonismo, na qual as hegemonias apenas mudam de roupa, mantendo-se as mesmas do ponto de vista estrutural, que continuamos produzindo, trabalhando, consolidando nossos signos e símbolos de resistência.

Se houve "desfolclorização" da cultura negra e indígena no Brasil isso se dá por movimentos de embate das próprias comunidades e não pela benevolência do branco, munido de seus contatos e alianças residuais de uma aristocracia tardia a culminar em hipsters liberais bem apessoados que aos poucos substituem suas empregadas domésticas por máquinas de lavar e passar autolimpantes, não por serem abolicionistas, não por desejarem um mundo diferente. Não, querem o mesmo mundo, mas sem culpa, sem a consciência que os faz envergonharem-se de toda a engenharia histórica que até agora financiou seus desejos, a relevância de suas vidas e do imaginário romântico que tencionam perpetuar.      

Saudades da Julinha.  

Carol Nehring
'Foi a Julinha mesmo que começou a abrir meus olhos no início do segundo ano'

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