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Ai, Adriana, eu teria feito tudo tão diferente. Espero que isso não soe arrogante, mas jamais daria o braço a torcer expondo minhas fragilidades para alguém que me fez mal, jamais

Paloma Franca Amorim

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Sim, pobre Adriana, com seu nome imperioso, acreditou que teria forças na hora em que viu o amor morrer em seus braços. Agora zanza por aí, meio perdida, na avenida Paulista, com um manancial de lágrimas brotando-lhe dos olhos, inundando a bochecha quente, em febre, por causa do meio dia. Pobre Adriana que tenta sentar na calçada de entrada do shopping center para chorar em paz. Abaixa a cabeça e vê pernas e sapatos passando ao largo do caminho possível no ângulo semiagudo de seu campo de visão. Dói. Dói. Dói, Adriana minha. Dói demais, parece que teu coração é feito de areia e saiu flanando por aí, como um panfleto que alguém nem leu, ou está escorrendo pela barra das calças com a densidade de um pedaço de merda. Os passantes não te enxergam, Adriana, e isso parece bom. Por sob os óculos escuros muito escuros a vista vai ficando embaçada, qual fosse o para-brisa de uma máquina em fúria no meio da neblina acesa do inverno. Mas é verão. É verão, o dia está lindo, o azul celeste parece um altar de domingo, e o que Adriana pensa é que agora está sozinha e que não quer ficar sozinha. Porque para pessoas como Adriana não tem nada mais torturante do que a solidão. Pessoas como Adriana são verdadeiros blocos de carnaval ou o próprio conceito climático de uma alta temperatura: tornam-se felizes conforme se ampliam para além de si e encontram os corpos alheios, supurando a letargia, escorrendo como partículas de suor da testa de casais e suas bandeiras, mãos dadas com um desconhecido, carta amorosa aos rivais de enredo. Comprova-se, daí, que a solidão é um castigo desses que nem mesmo deus gosta de infligir à murmurante população terrestre. Deus pode ser tudo, injusto e reclamão, mas ninguém pode negar que, todo-poderoso, sabe esquivar-se com destreza da crueldade. O problema da Adriana é de ordem humana, faz parte do erro e do erro de nos sermos como somos. O ex-namorado apareceu com a nova menina ali no local de trabalho. É, Adriana, você se sentiu humilhada. Pediu pra ele não fazer isso e ele fez. E já estava todo mundo desconfiando que tua cabeça não andava muito boa, pelos atrasos em excessos e o eventual cheiro de álcool mesclado ao perfume dos teus poros, as orelhas roxas exaltadas por um lápis de olho mal passado, trêmulo do traço de uma mão cansada, de um braço pesado, pendurado a um corpo que não dormiu. Insônia perene, angústia evidente nas unhas roídas ao sabugo com o descascado do esmalte café. Tantas confusões, tantos rodeios, a investidura em planos malfadados de casos previsivelmente insustentáveis. Você está magoada, Adriana. Está se sentindo traída. Tão triste que até se esqueceu daquele sonho vibrante com o mar e o epitélio azul de seus tentáculos te afastando dessa vida de encrenca para o fundo das águas mais escuras, sem que isso fosse um afogamento, pelo contrário: ali na garganta abissal do oceano eras capaz - inclusive - de respirar melhor.

Abre a janela, Adriana, deixa o sol entrar e devorar a casa com sua luz imperial. Levanta do chão antes que o segurança do shopping center venha te exigir isso, uma vez que é grave ferida no regimento interno da cidade permitir que seres humanos se demorem nas calçadas quando precisam repousar ou dar vazão aos sofrimentos acumulados.

Ai, Adriana, eu teria feito tudo tão diferente. Espero que isso não soe arrogante, mas jamais daria o braço a torcer expondo minhas fragilidades para alguém que me fez mal, jamais. Jamais entraria em parafuso. Também não colocaria açúcar no chá, isso estraga o seu sabor natural. E procuraria ver se esse ombro está só inflamado mesmo ou se tem algo a mais nesse tec tec e nessa dor que se anunciam toda vez que você faz movimentos mais bruscos. Mas tem jeito não, né Adriana? Eu não sou você. A única coisa que temos em comum é o nome e, como se sabe, ter o mesmo nome de alguém não é índice de harmonização astrológica ou qualquer prescrição do destino que o valha, apenas trato do acaso, coincidência banal, nada além, nada além. Me tira fora dessa.


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Adriana agora zanza por aí, meio perdida, na avenida Paulista, com um manancial de lágrimas brotando-lhe dos olhos

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