Parentes de passado

Tanto se tem comentado sobre a família, sobre as estruturas tradicionais que nos moldam animais de celeiro, e eu mais penso com amor é nos bandos que nos resgatam a humanidade

Paloma Franca Amorim

Contávamos o resumo do dia inteiro que estava só pela metade no horário das ligações telefônicas reclamadas ao fim do mês pelos pais indignados com o fato de dois adolescentes terem tantas coisas para falar ainda que todos os dias fossem dias em que se encontrassem na escola de teatro, na rua, nos ônibus.

Foi com ele que aprendi a andar na cidade, porque eu era cria de apartamento e ele vivia numa casa em um conjunto habitacional na periferia. Tínhamos isso, pegávamos ônibus quaisquer para experimentar seus itinerários, dois exploradores das ruas mal asfaltadas de nosso lugar de origem, esse que deixamos depois de adultos, quase carregados por uma ventania forte, das irredutíveis, que decidem por nós, na liberdade de sua natureza, os rumos que chamaremos de destino.

Temos orgulho de dizer que somos amigos há dezoito anos. Às vezes andamos de mãos dadas em público para as pessoas pensarem que somos namorados e desistirem de qualquer eventual amolação porque não parecemos necessariamente um homem e uma mulher, mas muitos homens e muitas mulheres, muito parecidos e diferentes, que quando se encontram formam um mundo onde os corpos não querem dizer uma coisa só.

Ele veio passar comigo o final do ano. Hoje no parque Trianon conversamos sobre a solidão e de repente estávamos novamente na Praça da República belemense, com dezessete e quinze anos, imaginando como seria o futuro. E ali, naqueles dias de saborosa juventude, por mais que tão criativos, éramos incapazes de prever tudo que aconteceria ao largo das expectativas, das intenções e dos planejamentos. Falei isso e ele me viu chorar. Deu o mesmo abraço que eu senti naquele fim de tarde, uma inofensiva proteção embalada pela inocência, quando lançamos as cinzas de minha mãe no rio Guamá. Os dois calados em meio às árvores observando o pó se desfazer no horizonte. Apenas nos testemunhávamos. Eu o ouvia falar pela voz dos olhos sempre tão vermelhos desde que, idiota que é, tomou um ácido e ficou enquadrando durante muitos minutos o sol das dez da manhã, de modo que se tornou vítima aos dezesseis anos de uma queimadura grave nas retinas até hoje anunciada cronicamente como uma conjuntivite alérgica, segundo a atualização segura que me concedeu, extraída de um oftalmologista carioca de confiança.

O cheiro da maria joana quase não se sente misturado ao tabaco que dividiu comigo, orientando-me a largar de uma vez por todas o cigarro industrial ao qual fora iniciado ainda na infância. Todos nós da turma percebíamos porque chegava para almoçar em nossas casas com a farda cheirando a fumaça preta. Mas o que mais deixava minha mãe irritada era o fato de se atrasar e não comer no mesmo horário que nós e sim sozinho, no meio da tarde, uma comida requentada. Ela queria que sentássemos à mesa juntos, todos os filhos. Ele era um pouco filho dela, eu sou um pouco filha da mãe dele.

Algumas pessoas dizem que viemos à existência feito almas gêmeas, eu acho também, às vezes acho de outra maneira. Acho às vezes que a gente é o pedaço um do outro que estava faltando, ou partes miúdas de uma comunidade enorme de pessoas que se amam e se respeitam. E cada vez que a gente se encontra nesse mundo de distâncias em que nos metemos é como se todas as vidas que estão atreladas as nossas também pudessem matar a saudade. Nossos amigos, nossos irmãos, nossos parentes de passado.

Tanto se tem comentado sobre a família, sobre as estruturas tradicionais que nos moldam animais de celeiro, e eu mais penso com amor é nos bandos que nos resgatam a humanidade. Somos um conjunto arbitrário de amigos apaixonados, viajamos juntos para além do Bojador, passando além da dor, de canoa, sobre a ossatura de nossos mortos, alimentados pelas histórias que fomos capazes de experienciar nos primeiros turnos de vida. E essa é a nossa frágil aliança indestrutível, a única nobreza que importa.

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