A festa da carne é feminista e sapatona

Em tempos em que a violência contra a população LGBT+ é oficialmente consentida e estimulada pelo Estado, incendiar nossos armários na rua parece ser a reação-estopim de um levante político que deve avançar social e culturalmente

Foi no mínimo apertado para o tempo dar conta de verão, carnaval, 8 de março e chuvas torrenciais. Eu tava que não me aguentava. Na roda do 8 de março que fizemos com o Samba de Dandara eu fui tomada por uma aura intensa demais. Mandei mensagem para as Sambadas uma hora antes da roda começar, falei que estava com um negócio diferente dentro de mim, uma sensação atípica de nervosismo, um medo. Logo em seguida a Carol mandou falar que a Mido esqueceu do violão. Respirei fundo, depois comecei a rir porque me vi agradecida por ter objetivamente aparecido um problema, ou melhor, por ter que resolver junto um problema coletivo ao invés de ficar nutrindo esses pequenos terrores pessoais que, não sei se por timidez ou um lodo qualquer na alma, se atracam em mim de quando em quando.

Cheguei ao bar da dona Tati e conseguimos pensar numa solução. A Mido surgiu meia hora depois, risonha, com uma blusa florida linda do bloco que ela apita, o Filhas da Lua. Eu queimei com cigarro sem querer o vestido da Camilinha logo depois de elogiá-lo, o que fez a gente dar risada das expressões possíveis da inveja. O violão veio num Uber pago com pedaços de cachê e de boa vontade. Enquanto o motorista atravessava a cidade a gente fazia graça, comemorava num chiste o aniversário das Sambadas.

Sambadas nasceram no 8 de março do ano de 2015.

Fiz o exercício que algumas mães fazem ao celebrar os anos de seus filhos: onde estávamos há quatro anos? Estávamos a caminho de um bar para realizar uma roda de samba, alegres, belas e felizes, quando pela primeira vez apareceu na América do Sul a primeira dor de cabeça do grupo, o primeiro B.O, a primeira estafa coletiva. Pode ter sido uma corda arrebentada, uma palheta rachada, um coração partido. Sambadas são isso, sete conflitos, sete mulheres fortes, sete espíritos, sete furacões em andamento no meu estômago.

Eu gosto. Me dá vontade de sorrir quando penso nelas. Deve ser amor.  

No carnaval deixei a mudança de casa de lado e me lancei aos bloquinhos, coisa que não fazia há anos. A Talita me viu no Siriricando e até se emocionou.

Depois do cortejo, um tanto chorosa e embriagada, conversei com a Shirlei sobre a importância de ter um bloco lésbico nas ruas do centro de São Paulo. Lembrei do Rebuceteio, em Belém, que acompanho à distância e sempre com empolgação.

Fui ao ensaio do Siriricando no vão do MASP numa noite antes do desfile. Aos poucos me aproximei das integrantes e transitei daquele estado que sem dúvida aguça minha curiosidade, o lado de fora, o testemunho distanciado, para a aproximação, o lado de dentro, o desenho de uma intimidade/amizade que ao ser disparado no ponto de partida torna-se incontornável. Se antes o bloco me parecia um agregado de mulheres lésbicas e bissexuais com identidades difusas, depois todas passaram a manifestar suas singularidades, tons de voz, humor, personalidade. Conviver nesse carnaval com as mulheres do Siriricando foi prazeroso, divertido e uma experiência política necessária que me remeteu de imediato ao ofício com as Sambadas e às primeiras estruturas de coletividade e ocupação de rua que vivi em Belém, uma cidade em que - como diria a Daiane - a gente tá sempre com o pé fora de casa.

Em tempos em que a violência contra a população LGBT+ é oficialmente consentida e estimulada pelo Estado, incendiar nossos armários na rua parece ser a reação-estopim de um levante político que deve avançar social e culturalmente. A recusa da conduta liberal de privatização dos afetos, da sexualidade, ensejado por uma política de domesticação das liberdades individuais, é o grito primeiro de uma atuação cidadã que extravasa a particularidade e cria contextos de organização comunitária.

Ao longo de tantas décadas a hierarquia da letra G dentro da sigla constitui o apagamento sistemático das mulheres nos debates de gênero, blocos como o Siriricando - dentre os quais posso citar aqui também o Siga Bem Caminhoneira e o Desculpa Qualquer Coisa - existem pela necessidade da festa e de espaços afirmativos e seguros para mulheres lésbicas e bissexuais (entenda-se mulheres nesse texto como a expressão de gênero que abarca pessoas transvestigêneres e pessoas cis).

Para além do que já se produziu na história da cultura brasileira articulando as mobilizações de carnaval aos pleitos sociais, vide a Estação Primeira de Mangueira campeã das escolas de samba do Rio de Janeiro em 2019, o gesto artesanal dos pequenos blocos de rua evidencia alguns elementos importantíssimos na construção da alegoria política: a formação de base, o direito das mulheres à independência sociocultural e a conexão direta desses corpos - fronts de alegria, desejo, luta e muita, muita, muita purpurina - com o ambiente público constituindo uma pedagogia da rua onde a rua é método e finalidade. 

RFLLA
Gesto artesanal dos pequenos blocos de rua evidencia elementos importantíssimos na construção da alegoria política

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