Naiara Jinknss

Astigmatismo

Ninguém ganha, ninguém perde e as coisas permanecem absolutamente iguais; há sempre alguma perversidade ou histeria na observação poética dos acontecimentos

Estar no último andar daquele prédio no Arouche me fez lembrar das tantas vezes que olhei o horizonte da mureta do Monsenhor Azevedo, onde eu morei a maior parte da minha vida em Belém.

Na escola, dizia que o Monsenhor era um edifício, mas mais parecia um enorme navio. Talvez eu tivesse vergonha de assumir que sua magnânima extensão lateral, localizada ali bem junto da Importadora e do Presídio São José, se dava para abarcar os oito pequenos apartamentos por andar onde costumavam viver numerosas famílias, dividindo anglicanamente três cômodos apertados.

Talvez eu já gostasse de me enganar naquela época, ou já movimentasse nas entranhas esse pequeno prazer de poeta que é mentir para dizer a verdade.

Para mim, éramos nós e os vizinhos, todos tripulação, amotinados, navegando parados os rios de nossa cidade. Canais, esquinas, ruas cuja direção se modificava de cinco em cinco anos provavelmente por insólita tentativa de reordenação do fluxo de carros e de gente em um lugar onde a superfície urbana inchava e inchava, para frente e para os lados, como uma língua em estado de intoxicação, putrefata numa boca azeda, tornando-se para sempre a pedra que interdita o grito.

Belém se expandiu, virou uma grande metrópole. Eu era menina. Vi chegar em minha terra aquele gélido vento sudeste carregando no progresso o futuro, nossa carniça.

De todas as fotos do último maio a que eu mais gosto é aquela em que estamos no Ver-o-Peso, eu e o pessoal, comemorando uma roda de conversa sobre literatura que a Carol Magno organizara na Casa Velha. Depois do evento fomos ao Veropa para almoçar aquele peixinho frito com arroz, feijão, farinha, macarrão - pratada levinha para o estômago de um paraense. Depois sentamos em uma barraquinha de frente para o rio e lá ficamos a tarde toda, até início da noite, contando as ampolas de cerveja para saber quanto nos sobraria de dinheiro depois de encerrada a aventura.

Foto: Naiara Jinknss

Naquela época Érika não era mãe porque a Jurema ainda não tinha chegado ao mundo.

Eu me consumia em ciúmes do Felipe toda vez que ele parava de me dar atenção, quase como se a agulha que trago dentro do coração, passados tantos séculos de adormecimento, voltasse a se mover lentamente, tétrica, para me torturar.

Meu olhar, nesse dia, procurava o sol por entre o boné do dono da barraca, a massa sonora de tecnomelody no ar e a densidade do calor se apertando por entre nossos corpos. Eu não queria perder a hora de sua partida - aquele momento em que o sol cai no rio devagarinho e, não fosse o cão latindo para o homem que vende fitas K7, quase poderíamos ouvi-lo pedir socorro.

Eu estava feliz.

Às vezes eu, que sou triste, sei que estou feliz.

Vi anteontem uma foto da Naiara Jinknss que mostra o Veropa completamente inundado pelas chuvas. Minha primeira reação foi ficar alegremente surpresa com a força das águas. Sempre me comove o fato de a natureza ter uma inteligência impulsiva sobre as fatias de concreto armado das quais a modernidade se utiliza para poder negar-se humana.

Depois li que um homem morreu eletrocutado.

Lembrei do que a Dani me falou sobre os debates estéticos dos quais participei na última semana: uma guerra onde livrar-se morta ou ferida dá no mesmo.

Ninguém ganha, ninguém perde e as coisas permanecem absolutamente iguais.

Há sempre alguma perversidade ou histeria na observação poética dos acontecimentos.

As fotos da Naiara, no entanto, me dão a sensação de registro memorial e histórico sem enrijecimentos, oportunismo ou brutalização do olhar. Tem uma beleza ali que não decifro e por isso mesmo gosto tanto.

O que me mantém produzindo arte é justamente perceber que as pessoas também recorrem a atitudes simbólicas para reconstruir cidades devastadas.

Tiramos uma foto eu e Dani ali no último andar do prédio do Arouche, final de domingo, tarde laranja, abraçadas. Às vezes, eu que sou triste, sei que estou feliz. Bom que alguém tinha uma câmera razoável para capturar a imagem. Também não me bato com isso. Às vezes, na falta de uma câmera, a gente fotografa com o próprio astigmatismo mesmo. Não faz mal. A foto dura menos, mas também fica bonita.

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