A idiota; por Paloma Franca Amorim

Apesar das mil distâncias que se impõem entre minha vida brasiliana e a Rússia do Príncipe Míchkin houve uma imediata projeção

Paloma Franca Amorim

São Paulo (Brasil)

Herdei do meu amigo e primeiro editor do jornal, o Edir, esse gosto pelo Dostoievski. Era ainda menina quando comecei a ler os primeiros títulos. Lembro-me da vez em que ele me presenteou com "Os Demônios", no aeroporto, quando eu voltava para São Paulo depois de mais uma temporada em Belém, entristecida, havia brigado com a Aninha, meu coração partido de amor, o luto pela mãe morta.Não consegui terminar de ler. Assim como "Crime e Castigo" decidi abandonar nas últimas vinte páginas, uma vergonha.

Meu predileto é "O Idiota", porque apesar das mil distâncias que se impõem entre minha vida brasiliana e a Rússia do Príncipe Míchkin houve uma imediata projeção, eu podia me compreender a partir do comportamento da personagem, podia me reconhecer ali em um reflexo meio torto de um espelho ora límpido, ora aos cacos.

Quando descobri Míchkin pensei: eu também sou como ele, eu também sou idiota.

Na obra há um jogo de ambiguidade na concepção de idiotia, o termo é associado a uma espécie de ingenuidade ou inocência exacerbada ou à condição da epilepsia. Idiota podia ser a nomenclatura científica de um epiléptico na época, posto que o acúmulo de crises convulsivas era capaz de levar o paciente ao retardo mental ou à insanidade.

O Príncipe Míchkin faz episódios de epilepsia e gera horror, ojeriza e espanto em seus convivas, todos absolutamente empenhados em construir acesso a sua fortuna. Todos interesseiros, todos aproveitadores materiais ou emocionais. Sua índole é descortinada em lances ao acaso de Míchkin que, em nome de sua boa fé - essa confundida com idiotia - , busca ajudar as pessoas, doa-se para tentar convencionar algum equilíbrio nas relações estabelecidas. Míchkin parece não ver as ratazanas que lhe querem roer os ossos. Essa é uma das interpretações possíveis.

Na minha opinião ele vê. Ele vê e ignora. Prefere ser fiel a uma ética generosa, aberta ao mundo, ainda que isso lhe custe a própria vida.

Durante muito tempo fugi de parecer boba me aproximando das pessoas com carinhos, afetos, boas palavras. Do lugar de onde eu venho ninguém chega na casa de ninguém sem levar alguma graça, algum agrado. Sempre soube que as pessoas me achavam imbecil por acreditar demais nas pessoas, levei tombos escabrosos e escutei de queridos companheiros o velho e ruidoso "eu bem que avisei". Decidi me fechar mas isso só me afastou de quem eu era, depois de muita reflexão voltei a agir do meu modo, com amor e cuidado, sem muitos critérios mesmo, sem olhar muito a quem.

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'Herdei do meu amigo e primeiro editor do jornal, o Edir, esse gosto pelo Dostoievski'

Não há como trair um aspecto ético que cresceu comigo e participou de minha educação, é quase como se eu também tivesse uma doença congênita. Sim, uma doença, uma falta de saúde. Ser saudável nos nossos tempos é ser egoísta, desconfiado, invejoso, ter rancor.

Guardo pra mim então uma certeza, talvez arrogante, de que vale mais a vida quando não se a encarcera na disputa e no amargor.

A literatura uma vez mais me ensina a entender, ou talvez sentir com mais perplexidade, o mundo.

Dostoievski me conta, através de uma escrita produtivamente inquieta e dura muitas vezes, que pessoas generosas, amigas, cuidadosas não têm lugar ao sol nesse território dos interesses políticos, sociais, financeiros e, por fim, afetivos da paramodernidade (lembremos que a Rússia do século XIX não se encaixa em conceitos ocidentais de cultura).

Também me conta Dostoievski, ainda hoje, nessa manhã invernal em que volto ao livro, passados dez anos da primeira leitura, que eu prossigo uma idiota.

Finalmente, Dostoievski arremata, como se me fizesse uma promessa de segredo: não conte a ninguém, mas todo idiota é um príncipe - no sentido da nobreza e não do poder, não confundir, por obséquio.

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