Quem matou Thiago foi a precarização do trabalho

No fundo, quem retira o SAMU e os paramédicos das ruas são os Rappis e os Ubers da vida, ainda que seus explorados dependam dos primeiros; essa relação não é um mero detalhe, é um fundamento

Sábado, dia 06 de julho, uma das noites mais frias nos últimos anos em São Paulo.

Foi nessa noite fria que Thiago, um motoboy que prestava serviço para o Rappi, morreu vitimado por AVC, ao entregar uma garrafa de vinho num prédio em Perdizes.

Por mais que eufemismos sejam utilizados, a precarização do trabalho foi a causa mortis. Os serviços uberizados de entrega de alimentos usam somente um critério tanto para os clientes, como para os seus funcionários: a rapidez.

O mesmo critério é utilizado tanto para quem digita um celular e faz um pedido, como para quem tem que enfrentar asfaltos esburacados, trânsito caótico, frio, chuva, a violência da cidade. Tudo se resume a um produto dentro de uma caixa e um saquinho plástico amarrado.

Legiões de jovens correm a cidade em motos, bikes, a pé, tentando superar o tempo do seu tempo para fazer mais entregas.

Rappi, UberEats, Glovo, etc, etc, monitoram remotamente essa massa de gente que entrega comida pra poder comer, em algum momento, um quinto do que levam.

Um trecho da reportagem da Folha que relata a morte de Thiago é um sintoma inequívoco do malabarismo retórico utilizado pelos funcionários do neoliberalismo:

"A história do entregador engrossa a estatística decorrente dos obstáculos aos quais estão submetidos os paulistanos que necessitam de atendimento público de saúde na maior cidade do Brasil. É também um retrato das relações atuais de trabalho."

Reprodução
No fundo, quem matou Ricardo foi o mesmo sistema que impediu que a ajuda chegasse

É patente a denúncia da péssima qualidade dos serviços de emergência. O parágrafo destaca a omissão do serviço público e coloca o "retrato das relações atuais de trabalho" como um complemento, um detalhe. Não há uma relação entre as partes?

A relação entre o público e o privado se pasteuriza e a intenção é criticar parcialmente o primeiro e relativizar a responsabilidade do segundo. O Leviatã sempre visto como um mal em si.

A demora do SAMU, produto da precarização dos serviços de saúde na cidade, não está intimamente ligada aos mesmos interesses privados que colocaram Thiago em cima de uma moto, numa noite gelada, tentando superar os seus limites físicos e psicológicos, para entregar um produto em nome de um patrão invisível, que não lhe proporciona a mínima condição e proteção de trabalho?

O self made man precarizado é um agente direto, e na maioria das vezes inconsciente, do sequestro do Estado operado por quem acumula poder e dinheiro. O acumulador que invariavelmente reclama da opressão do Estado, é aquele que o toma pra si.

No fundo, quem retira o SAMU e os paramédicos das ruas são os Rappis e os Ubers da vida, ainda que seus explorados dependam dos primeiros. Essa relação não é um mero detalhe, é um fundamento.

O motoboy Thiago foi embora na noite fria de SP. No seu lugar, centenas de motos, bikes e corpos alimentam a fome do outro nesse momento.

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