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Sábado

'Eu não traio, eu nunca estou atrás de ninguém, eu sou dez; ganho a grana para ela, para minha filha, pro shopping'

Mara Gama

São Paulo (Brasil)

— Eu sei o caminho. Morei no Taboão. Conhece?
— Sei que é para aqueles lados.
— Adoro o Taboão. Morava no condomínio do lado do Shopping.
— Ah, é prático Shopping, tudo na mão, né?.
— Dona ... não lembro seu nome daqui do aplicativo
— Pepa.
— Eu Dácio, muito prazer. Então. Minha vida era uma maravilha. Fui ter ideia de casar...
— Ah, acontece. É uma ideia que passa na cabeça de todo mundo, mais dia menos dia.
— Hahaha, a senhora tem razão. Mas estragou minha vida. Vou separar.
— Onde você mora agora, Dácio?
— Zona Norte. Santana.
— Não é bom lá?
— Muito bom. Muito bonito. Mas quero voltar pro Taboão. A mulher não entende meu trabalho.
— Sei.
— No Taboão eu morava só. Um dia como hoje, sábado. Chegava em casa do trabalho, pegava minha moto – que ela proibiu e tive que vender- e ia pro centrinho lá de Taboão. Chegava no bar, pedia uma porção de bacon, cerveja gelada. Perfeito. Na paz. Domingo, mesma coisa. Acordava tarde e ia num quiosque. Pedia meu chopp, um prato de isca de churrasco. Satisfação para ninguém. Vida tranquila. Agora é um inferno.
— Sei. Você passeia com sua mulher? Vai ver é o caso de passear mais...
— Quase todo fim de semana. A família dela tem casa na praia e tem sítio. Ela vai com eles na sexta, já leva minhas roupas. Quando eu largo no sábado vou encontrar.
— É ruim?
— A gente já fica com a família dela o tempo todo. E ela quer que eu pare de trabalhar no sábado. Eu digo para ela: você é contratada, mas eu tenho que ganhar o dia a dia. Não tem jeito. Quer que eu pare de trabalhar no sábado. Não dá.
— Olha. Família pode pesar. Vai passear só com ela. Cinema, esse chopp aí que você gosta.
— A gente passeia. Quando não viaja, vamos muito em shopping. Levamos nossa menina, de seis anos. Nunca vi ninguém gostar tanto de shopping como minha menina e eu. E depois do shopping é churrasco. Os irmãos da minha esposa são churrasqueiros. Ou tem churrasco na casa de um ou na do outro ou na do outro ainda. Vou te falar. Os caras são bons nisso.
— Sei. E mesmo assim, é ruim?
— Pepa, posso chamar só Pepa?
— Pode.
— Então, Pepa, é que ela quer por que quer minha folga do sábado. E eu tenho que ganhar para pagar as contas. Só separando.
— Vai separar por isso?
— Vou. Preciso trabalhar para pagar as contas, o shopping.
— Sei. Vou te contar uma coisa, se você está preocupado com as contas, uma notícia: separar é bem caro.
— É verdade. Senhora tem razão.
— Vai passear com ela, conversa.
— Não dá. E olha que eu não traio, eu nunca estou atrás de ninguém, eu sou dez. Ganho a grana para ela, para minha filha, pro shopping. Ela me rastreia onde eu estiver, eu rastreio ela.
— Uau, tudo controlado?
— Tudo. Sabe por que eu rastreio?
— Porque você quer rastrear?
— Por causa daquele taxista que morreu. Aquele que foi morto num sábado, uns três meses atrás.
— Não sabia essa história não. Que coisa.
— Então. E mesmo eu sendo um marido assim, que não esconde nada dela, ela não respeita meu trabalho.
— Olha, Dácio, francamente, acho que a solução é separar mesmo. Vai ser melhor pros dois.
— Só estou um pouco dividido. De um lado, o Taboão. Do outro, os churrascos. Os irmãos dela são feras mesmo.

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