Kuduro, a voz da periferia de Angola

Como o funk carioca ou o rap paulista, o kuduro é feito por jovens de classes baixas com meios técnicos simples e baratos

Natalia Viana

A explosão do kuduro – que se popularizou na Europa a partir de Portugal e chegou ao Brasil há alguns anos – faz dele um fenômeno cultural sem precedentes em Angola.

Como o funk carioca ou o rap paulista, o kuduro é feito por jovens de classes baixas com meios técnicos simples e baratos. “Não precisa de muitos artefatos para se produzir”, diz Dog Murras, um dos mais famosos DJs do ritmo. “Nos bairros, os jovens têm somente um computador, e costumam usar recursos baratos de produção musical, tal como Fruit Loops [programa de edição de som baixado de graça na internet]. Deixando a imaginação fluir, vão fazendo maravilhas”.

Vídeo mostra ritmo kuduro ao som de DJ Dog Murras:


Sua origem tem muito a ver com o contexto nacional. Até 2002, o país vivia em guerra civil entre o Movimento Popular de Libertação de Angola, ligado à ex-União Soviética, e à União Nacional para a Independência Total de Angola, apoiada pelos Estados Unidos e pela África do Sul. A guerra empobreceu a população e deixou cerca de um milhão de mortos e 4,5 milhões de refugiados. Hoje, Angola ocupa a 157ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (Organização das Nações Unidas) com mais de 60% da população vivendo abaixo da linha de pobreza.

Sem indústria própria, o país importa quase tudo o que consome, inclusive culturalmente, segundo a pesquisadora Marissa Moorman, da Universidade de Indiana. “O uso de sons eletrônicos vindos de teclados e de mixers tem tanto a ver com o alto custo de instrumentos acústicos tradicionais e o seu sumiço desde a independência em 1975 quanto com a influência de ritmos estrangeiros, como o rap americano”. Para ela, o ritmo é uma reapropriação pelas classes populares marcadas pela guerra civil do espaço cultural geralmente restrito.

“Os últimos anos de guerra civil levou ao deslocamento massivo de áreas rurais para urbanas, em especial para Luanda. Essas pessoas só tinham aquilo que podiam carregar – e o próprio corpo. No kuduro, dançarinos sem pernas ou braços – por causa das inúmeras minas terrestres e outras tragédias da guerra  – transformavam sua incapacidade em vantagens na hora da performance”, diz ela.  “Em vez de fugir da realidade ou apagar a história e a memória da guerra, o kuduro relembra esse mundo através da dança. O ritmo articula o trauma da guerra e a destruição da nação”.

Em meados da década de 90, o ritmo foi se popularizando graças às caseiras fitas cassetes e à ajuda do comércio informal que predomina nos guetos de Luanda. “No início não foi através das rádios, mas dos chamados "candongueiros" (lotações) que fazem o transporte entre os bairros e a cidade”, diz Jorge António, diretor do documentário “Kuduro, Fogo no Musseque”, sobre as origens do ritmo.
Assim, no boca a boca, o ritmo foi ganhando espaço e se espalhando. Hoje em dia, há milhares de bandas nos musseques (guetos) angolanos, cada uma com seu estilo. “O Kuduro acaba por marcar pelas variantes que encerra. Aliás, é essa facilidade que permite que todos os dias surjam kuduristas”, completa Jorge Antônio.

Ritmo dos guetos

Mesmo assim, ainda há muito preconceito por parte da elite angolana. A fala do gueto, o chamado “calão”, tem se espalhado com a influência do kuduro, popularizando palavras como mwadyé (rapaz) e mangopé (angolano). Críticos acusam as letras de baixa qualidade e até de incitarem o ato sexual e trabalharem a favor da aids. Além disso, o kuduro é frequentemente associado à violência de gangues que existem em Luanda.

Para Jorge Antonio, nada é mais errado: “É na chamada zona dos mousseques que se concentra grande parte da população desfavorecida. E é aí que proliferam as gangues que, como em todo o mundo, se degladiam. Se é ao ritmo do kuduro ou do samba, depende do momento”.

Para o escritor angolano José Eduardo Agualusa, as classes mais altas têm “receio” da liberdade criativa do kuduro. “Um dos aspectos mais interessantes tem a ver com a forma como se vem afirmando, não apenas à margem do poder, mas em muitos casos, contra o poder instituído. O poder - e os seus diferentes representantes, inclusive os culturais desse mesmo poder - estão perplexos e assustados. Talvez nunca antes em toda a história de Angola um outro fenômeno cultural tenha conseguido ganhar tanta expressão. Ignorar isto é pura estupidez - ou então medo, apenas medo”.

A pesquisadora Marissa Moorman conta uma história que ilustra o efeito político do kuduro. Segundo ela, quando o Dj Dog Murras começou a fazer sua música, trazendo sempre nos CDs e nas roupas símbolos nacionais de Angola, como bonés, calças e camisas com a bandeira do país, virou uma febre nacional. “No final de 2005, o governo emitiu um comunicado pedindo à população para não “profanar” a bandeira e outros símbolos nacionais angolanos”.

Mas, para Dog Murras, é esse mesmo o papel do músico de kuduro. Com letras que denunciam a situação social (Angola do petróleo, do diamante e muita madeira/ Angola do paludismo, febre tifóide e muita diarreia / Angola dos talé bosses comem sozinho e muita ambição/ Angola que é da gasosa, corrupção tapa visão”- até a exortação da participação política dos jovens), Murras é o principal representante da vertente política do kuduro, e o ícone de uma geração. Para ele, muito além da diversão, o kuduro tem uma importante missão política.

“O papel mais abrangente é a transmissão de um conceito de “angolanidade”. O kuduro vem criar uma sensação de orgulho nacional, por ser o estilo que, a seu modo, chegou e conquistou um lugar ao sol, sem brigar com ninguém, espelhando o modus vivendi das pessoas simples e menos abastadas, realçando o que existe de melhor em criatividade, da união entre dança e ritmo. A cara dessa nova juventude é criativa, é pacifica, e é desta forma que se constrói uma nação”, diz Murras.

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