Kutti Revathi: a renovação da linguagem do feminismo tâmil

Incitada publicamente a ser queimada viva, autora toma para si a política do corpo e busca quebrar hegemonia masculina na poesia indiana

Roberto Almeida

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Kutti Revathi abriu um sorriso enorme quando perguntada se a poesia seria capaz de transformar a situação das mulheres na Índia. Com seus olhos grandes e uma fala mansa, a poeta tâmil apresentou sua missão de combater a violência com versos. “Mudamos o significado político das palavras, usamos novas metáforas e enfrentamos o status quo. As coisas estão mudando aos poucos”, disse, comedida.

Peitos

Peitos
são bolhas que ascendem dos pântanos.

Eles gentilmente cresceram e desabrocharam
tudo a seu tempo, à beira do Tempo,
e eu acalentei-os com admiração.

Nunca eloquentes para os outros
eles estão sempre comigo
cantando
sobre a quietude da mágoa
sobre o amor
sobre o êxtase.

Eles nunca se esqueceram
de incitar o solo fértil
das mudanças de minhas estações.

Em horas de penitência
eles sofrem e se esforçam;
e nos impulsos e recolhimentos da luxúria
como uma música que ascende
eles permanecem eretos.

Da pressão de um abraço
eles destilam amor; do choque
do parto
leite, que verte do sangue.

Como duas lágrimas,
que não podem ser enxugadas
quando o amor é libertado,
eles preenchem, e eles transbordam.

Há motivos para o otimismo. Seus poemas reverberaram e, hoje, Kutti pode considerar-se um pilar de resistência para uma proposta feminista na Índia, onde falar do corpo da mulher e escrever sobre erotismo era uma prerrogativa masculina. Em 2002, a publicação de Mulaigal [Peitos, em tradução livre abaixo], atraiu uma chuva de cartas destroçando seu trabalho.

Entidades literárias, dominadas por homens, atacaram-na sem perdão. Um grupo, composto por homens e mulheres, uniu-se para afirmar que ela e outras amigas poetas deveriam ser mergulhadas em querosene e queimadas vivas como exemplo. Sinal de que incomodaram profundamente as estruturas do pensamento local.

A proposta poética de Kutti, assim como de outras poetas tâmeis da geração de feministas do fim do século 20, explora uma redefinição da política do corpo em relação à classe social e ao sistema de castas. É como, através das palavras, fazer emergir uma cadeia complexa de poderes e subjugação.

“O corpo de toda mulher é visto como um objeto sexual para que homens vasculhem, explorem e façam proveito. Esse padrão de conduta é mantido por homens das castas mais altas, e as mulheres das castas mais baixas são perseguidas fisicamente. O alvo da violência é sempre as mulheres, e é sempre muito sexual”, disse a autora a Opera Mundi.

“A política do corpo é muito diferente no meu país em comparação com os países do ocidente. Não há como relacionar as visões ocidentais de feminismo com as proposições do feminismo de onde venho”, ela continua.

“Isso acontece porque o sistema de castas é muito complexo e opressivo. Como manifestação do hinduísmo, esse sistema é construído de um jeito que oprime as mulheres Dalit [as intocáveis] e outras minorias. Os corpos femininos são ensinados a serem vistos como uma construção do hinduísmo, e a opressão e a violência justificam o sistema”, conclui.

Caminho e publicação

Filha de família pobre, nascida em Thiruverambur, no sul da Índia, Kutti foi influenciada pelo pai, um apaixonado pela poesia Tâmil tradicional - especialmente a do poeta Pramil, nascido no Sri Lanka e um ícone da poesia tâmil no século 20. “Eu perguntava sobre o significado de cada palavra”, ela lembra.

Divulgação
Mais tarde, com a situação econômica transformada - o pai conseguiu um emprego na indústria - Kutti foi à universidade para estudar medicina, e recebeu da corrente Siddha, em direta conexão com a ioga, a noção de corpo que atravessa seus poemas. Uma percepção, grosso modo, que a levou à busca por Deus dentro do templo corporal.

[A poetisa Kutti Revathi]

A guinada à literatura aconteceu por seu interesse em cinema e arte moderna, que a levaram a enquadrar ideais políticos globais. Assim, viu com clareza o que considera uma dominação moral a partir de duas categorias que operam em conjunto: a dominação masculina e a dominação das castas. Sua primeira coleção de poemas foi publicada em 2001. Boa parte sobre o corpo e sobre amor, com doses erotismo.

“Tem sido bastante difícil fazer o público, a mídia e o mundo literário prestar atenção em poesia feita por mulheres. Essas pessoas não têm o costume de ouvir poesia e pensam que poetas são idiotas. Eu escrevo poesia há mais de 15 anos e faço um esforço permanente para ser respeitada e ser reconhecida pelo público e pela mídia. Isso não acontece apenas comigo, mas com todas as poetas no país”, desabafa Kutti.

“Eu acho que somente as mulheres Tâmeis como nós têm poder e asserção política quando tratamos de poesia e literatura. Mas não temos qualquer prioridade porque balançamos os pilares do sistema com o que fazemos”, ela completa.

Hoje publicada em Tâmil e com tradução para o inglês (Wild Girls, Wicked Words, Sangam House, 231 pp.), Kutti espera que sua obra abra caminhos. “A linguagem ajuda a todas as mulheres a perceberem como seus corpos estão presos, a engenhosidade do sistema dos homens. As mulheres precisam entender a política da linguagem”, sublinha.

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O ativismo tornou-se parte de sua vida quase automaticamente. Kutti revela uma satisfação imensa em ver sua poesia ganhar corpo e chegar a outras partes do mundo. A poeta tem programada a publicação de uma ficção e uma antologia de poesia feminina tâmil, ambos para 2015.

“Acho que hoje em dia qualquer pessoa, seja ela ou ele um artista, um cientista ou um técnico deveria ter um papel plural na sociedade. Se você se prender a um único papel, você mutila sua própria consciência social. Eu me vejo como uma pessoa que usa a poesia como ativismo, e que isso preenche o propósito das minhas palavras”, afirma.

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