Aya Nakamura, cantora da periferia, é a artista mais ouvida na França

Com ritmo dançante e linguagem “urbana”, jovem nascida no Mali se tornou a artista feminina mais ouvida na França

Marcos Lúcio Fernandes

Paris (França)

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Com ritmo dançante e linguagem “urbana”, Aya Nakamura, jovem nascida no Mali, de 23 anos, se tornou a artista feminina mais ouvida na França, com base nos dados dos serviços de streaming (que permitem acesso a uma biblioteca musical online). Ela cresceu na região metropolitana de Paris, em Seine-Saint-Denis, e reivindica em suas letras seu lado de “garota da periferia”.

A carreira musical de Aya Nakamura começou em 2014, com títulos misturando o ritmo Zouk e uma versão francesa e pop de R’n’B, com claras inspirações em cantoras americanas como Rihanna, Beyoncé ou Nicki Minaj. A publicação de seus primeiros clipes no YouTube e no Facebook abriram as portas para seu primeiro álbum, Journal Intime, lançado em 2017.

Mas foi a canção “Djadja”, que saiu em abril de 2018, que a levou a todas as playlists e se tornou uma das preferidas dos jogadores da seleção francesa durante a Copa do Mundo de 2018, da qual eles saíram vitoriosos. “Djadja” se tornou hit na Holanda, na Romênia, no Portugal e nos Estados Unidos. A revista especializada em música The Fader afirmou que seu segundo álbum, Nakamura, lançado esse ano, “muda magnificamente as regras francesas”.

Gírias e autenticidade

Para o site FranceInfo, que tentou decriptar as razões do sucesso meteórico de Aya Nakamura, as letras “misturando gírias e expressões africanas, espanholas e inglesas” seduziram seu público jovem. “Eu canto exatamente como falo com minhas amigas”, afirma a cantora. Suas músicas contam histórias banais de amores, rupturas, traições e fofocas. No meio disso tudo, Nakamura defende uma imagem de mulher “segura de si”.

Mas ela lembra que não foi fácil “ser uma mulher negra” na indústria musical. Na entrevista à Fader, ela revelou ter tentado “clarear” a pele ou “colocar uma base mais clara”. Recentemente, uma foto sua publicada no Instagram, sem nenhuma maquiagem, provocou diversos insultos racistas e sexistas.

“O que alguns consideram vulgar, para mim é apenas franqueza”, afirmou Aya Nakamura ao jornal Le Monde. “Eu assumo minha maneira de falar. E, após meu primeiro álbum, me questionei. Percebi que o que agradava meu público era justamente quando eu era franca e quando eu me mostrava [sem pudor].”

Antirracista e feminista?

Aya Nakamura também denunciou ao jornal francês sua dificuldade de encontrar um lugar dentro de uma sociedade “branca”. “Mesmo nos reality shows, não tem mulheres negras. Nas reportagens, vemos poucas famílias africanas dando testemunho. Se você é estrangeiro e assiste TV na França, pode pensar que não há negros aqui”, diz.

A artista contou que, quando começou, ouvia dos diretores artísticos que, na França, uma menina bonita “tem a pele clara”. De personalidade forte, Nakamura é reivindicada não somente pelos militantes negros, mas também pelas feministas, mas ela recusa o dever de “dar um exemplo”. Ela denuncia a dificuldade de ser vista como uma “mulher negra forte e impulsiva” e, ao mesmo tempo, “selvagem e histérica”. “Uma mulher negra é tão cheia de nuances quanto as outras”, afirmou ao Le Monde.

Reprodução / Facebook
Aya Nakamura, jovem nascida no Mali se tornou a artista feminina mais ouvida na França

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