Por que deveríamos fazer as pazes com Zygmunt Bauman

Bauman brilhantemente abre os caminhos deste mundo, ilumina a estrada, para que a gente caminhe com segurança, mesmo à noite

Ludmilla Balduino

Goiânia (Brasil)

Wikimedia Commons
Bauman mostra que, nessa modernidade líquida, a individualidade sobressai, está cada vez mais evidente

O polonês Zygmunt Bauman é, para mim, um dos maiores analistas sociais da nossa época. Conseguiu traduzir fielmente “tudo isso que está aí” usando apenas um termo: líquido.

Segundo ele, vivemos tempos líquidos, fluidos, em que as relações de poder já não são tão concretas, tão visíveis. Em que nós também já não somos seres concretos, definidos, estáticos; e sim multifacetados.

Bauman obteve êxito ao cumprir seu papel como sociólogo: segundo ele, a sociologia tem a função de despertar a autoconsciência, a compreensão e a responsabilidade individuais, a fim de promover a autonomia e a liberdade. (E, se você acha que sociologia não é isso, hoje, nesta época líquida, volte uma casa).

Ou seja: Bauman brilhantemente abre os caminhos deste mundo, ilumina a estrada, para que a gente caminhe com segurança, mesmo à noite.

Mas isso daí é só teoria. Na prática, o que vejo é um pouco diferente. Vejo muita gente da esquerda lendo Bauman e desistindo da vida. Entrando em parafuso e achando que “o mundo não tem mais jeito”.

E também já vi gente da direita amando Bauman como eles também amam Olavo de Carvalho. Explico: em um desses dias de outono, em São Paulo, ia eu e meu “Modernidade Líquida” descendo a Cardeal Arcoverde, num ônibus desses que o Dória tirou de linha, e um rapaz branco senta-se ao meu lado para puxar assunto. Queria falar sobre o livro.

Papo vai, papo vem, o rapaz revela-se de ultradireita, neoliberal, um “amante da liberdade”. O problema é que ele confunde liberdade econômica com liberdade.

Liberdade é outra coisa. A liberdade é tão livre que qualquer adjetivo que acrescentemos ao termo perde a razão de estar ali. Bauman fala sobre liberdade, a essência da liberdade, o tempo todo. Diz que vivemos esses tempos líquidos, em que estamos mais livres do que nunca. Claro, em certa medida. Porque esse mundo também é limitado. Mesmo assim é bonito de se pensar que, aqui, dentro dessa caverna espaçosa, atingimos um estado líquido, estamos fluindo.

Bauman dá a chave para a gente compreender que a ação precisa ser efetivada aqui, nestes tempos líquidos. Que não adianta pensar em coisas sólidas, concretas, porque isso já não cabe mais na nossa época.

Somos seres cambiantes. Estamos estudando Comunicação Não-Violenta. Tem amigo meu que desistiu do trabalho promissor na firma para fazer curso de como respirar e está amando estudar o corpo. Isso é maravilhoso. Aquela velha visão de tomar o poder para o bem geral do povo já não se encaixa para quem ainda insiste em se definir como esquerda.

Porque esse tipo de pensamento está cada vez mais demodê. Não há mais espaço para guerras de poder. Porque até o poder tornou-se fluido. E se não prestarmos atenção nisso, não teremos mais poder para fazer nada. Nem ao menos para falar ou para respirar.

Isso não quer dizer que devemos largar nossas bandeiras da esquerda para seguir o fluxo. Mas é o seguinte: se a bandeira está pesando, será importante rever a necessidade de carregá-la por aí. Será preciso saber se somos fortes e destemidos o suficiente para seguir empunhando as bandeiras. E que encontremos cada vez mais bandeiras para levantar: dos nossos mártires (Marielle Franco - que já faz aniversário de um ano de morte nesta quinta, 14), dos nossos santos, dos nossos amigos, das nossas matriarcas, dos nossos mestres do passado, da nossa família, dos nossos lugares preferidos, e a nossa própria. E elas não precisam ser pesadas, chamativas. A bagagem não é material: carregamos bibliotecas inteiras nos nossos devices.

Dos seres do Carnaval, um dos que mais aprecio são os porta-estandartes e as porta-bandeiras. Porque não é fácil segurar aquilo, dançar, cantar e caminhar ao mesmo tempo. Chega uma hora que pesa. Mas o mais gostoso do Carnaval, quando é na rua, é que as pessoas se revezam na hora de carregar o estandarte. E mais gostoso ainda é quando a gente encontra um bloquinho que nem tem estandarte. Não precisamos de estandarte para que haja o Carnaval.

Bauman mostra que, nessa modernidade líquida, a individualidade sobressai, está cada vez mais evidente. É lindo ver um cortejo com tantas bandeiras diferentes. Cada um à sua maneira. E todos juntos. O “ninguém solta a mão de ninguém” nunca foi tão bonito, tão importante e tão sábio. Já somos tudo aquilo que gostaríamos de ser.

Portanto, que façamos as pazes com Bauman. Que evitemos os rótulos: seja o industrial ou seja o ideológico. Chegamos ao ponto da vida em que não nos bastamos como comunistas. Nem como socialistas. Nem como maoístas. Nem como neoliberais. Nem como coxinhas. Nem como petralhas.

Quando outros teóricos, como o vermelhíssimo Vladimir Safatle, dizem que a esquerda precisa se reinventar, isso é mais do que urgente. É um assunto que até já passou, não cabe mais. Porque enquanto estamos pensando aqui em reinvenções, a água continua passando. O mundo está girando, tudo está fluindo. Tem hora que sinto como se fôssemos pedras no caminho.

Deixar fluir, com responsabilidade e liberdade, pode ser o mais interessante a se fazer em meio à essa correnteza braba, com lama e enxurrada que mata e destrói. Bauman fez uma análise brilhante do momento atual e nos faz entender que o poder está dentro de cada um de nós.

Infelizmente tudo isso que escrevi também pode ser uma imposição (assim como Bauman gasta capítulos inteiros questionando noções de comunidade, de estado-nação, e até de carnaval). Mas, se você leu até aqui, te agradeço. E já que você chegou até aqui, leia o box cinza logo abaixo, por favor. Tem uma bandeira nele. E sigamos.

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