Itália e Brasil levam história do primeiro grande delator da máfia para Festival de Cannes

Chefe do clã Porta Nuova, da Cosa Nostra, Buscetta fugiu para o Brasil duas vezes para escapar da guerra deflagrada pelos Corleone pelo controle da máfia e foi extraditado para a Itália nas duas ocasiões

Redação

São Paulo (Brasil)

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A história de um dos mais célebres mafiosos italianos concorrerá à Palma de Ouro no Festival de Cannes, que começa nesta terça-feira (14/05), na França.

“O Traidor”, de Marco Bellocchio, narra a trajetória de Tommaso Buscetta (1928-2000), que teve sua vida diretamente ligada ao Brasil e entrou para a história como o primeiro grande delator da Cosa Nostra, a máfia siciliana.

Chefe do clã Porta Nuova, Buscetta fugiu para o Brasil duas vezes para escapar da guerra deflagrada pelos Corleone pelo controle da máfia e foi extraditado para a Itália nas duas ocasiões. Na segunda, passou a colaborar com a Justiça e deu informações inéditas sobre o funcionamento da Costa Nostra.

Em 1985, foi mandado para os Estados Unidos, onde viveria até sua morte, em 2000, sob proteção do FBI. “Estamos falando de um personagem muito polêmico: tem gente que gosta, tem gente que detesta, que o acha um grande traidor. Mas o filme não é a favor nem contra, simplesmente conta a história desse homem”, diz, em entrevista à ANSA, Fabiano Gullane, da produtora brasileira Gullane.

Com orçamento de 8 milhões de euros, longa é uma coprodução entre Itália, Brasil, Alemanha e França e será exibido pela primeira vez em Cannes. As gravações foram concluídas em dezembro, e a produção entrou em uma corrida contra o tempo para terminar o filme a tempo do festival.

“A gente sempre teve uma grande expectativa de que esse filme fosse convidado para um dos grandes festivais. Pensávamos em Veneza e Cannes, e nosso grande desafio para Cannes era a questão do prazo. Conseguir montar e pós-produzir o filme nesses quatro meses foi um grande desafio”, acrescenta Gullane.

A produtora foi indicada a Bellocchio por Marco Muller, diretor artístico do Festival de Veneza, e reuniu uma equipe de cerca de 80 pessoas para as filmagens no Brasil.

“Filmamos por duas semanas no Rio de Janeiro, em dezembro passado. A equipe foi embora quase no Natal”, contou a produtora-executiva Daniela Aun.

Entre as locações estão uma casa no bairro de Santa Teresa e o Museu Aeroespacial (Musal), da Força Aérea Brasileira (FAB). “Para você ter uma ideia, no começo a gente teria só uma semana de filmagem aqui no Brasil e, ao longo dos meses, durante a produção lá na Itália, eles começaram a perceber que queriam fazer mais coisas por aqui”, acrescentou.

Expectativa

O filme é estrelado por Pierfrancesco Favino, que interpreta Buscetta, e Maria Fernanda Cândido, que dá vida a Maria Cristina de Almeida Guimarães, terceira esposa do mafioso e a quem é atribuída a decisão do italiano de colaborar com a Justiça.

Fabiano Gullane chegou a sugerir Maria Fernanda diretamente para Bellocchio, mas achou melhor abrir um teste que reuniu cerca de 10 “grandes atrizes brasileiras”. “Quando o Bellocchio assistiu aos testes, me mandaram mensagens dizendo ‘Fabiano, você tinha razão, a personagem é para a Maria Fernanda mesmo’”, relembrou o produtor.

Com a exibição em Cannes, ele espera atrair atenção de compradores e lançar o filme em “30 ou 40 países ao redor do mundo”, além de obter uma boa recepção da crítica e do público. Mas os prêmios também estão na mira.

“Com todo o respeito aos demais competidores, a gente acha que esse filme merece algum tipo de prêmio. Apostaria muito no de melhor diretor para Bellocchio. Ver esse cara trabalhando é uma oportunidade ímpar, ele é um artesão do cinema. Ele não sossega enquanto não chega naquilo que está enxergando na cabeça dele. E quando você vê o resultado, entende o porquê daquela agonia toda. Favino também faz um trabalho primoroso como ator”, contou Gullane.

“Nossa expectativa é que o filme seja bem recebido, que ele seja visto, do lado do produtor brasileiro, que seja bem falado para podermos ter um bom lançamento no Brasil”, reforça Aun.

Já o produtor delegado André Ristum, que cresceu na Itália e chegou a ser assistente de Bellocchio, “ter o Brasil selecionado em uma competição como Cannes é um momento muito importante para nós e para qualquer pessoa que trabalha com cinema”.

“É o maior filme de Bellocchio, de tamanho, de envergadura de produção. É um épico de máfia e Bellocchio, com 79 anos de idade, teve coragem de fazer esse projeto”, comentou.
 “O Traidor” está previsto para estrear nos cinemas brasileiros em agosto e deve se aproveitar dos debates no país em torno das delações premiadas.

“Acho interessante, ainda mais no momento pelo qual o Brasil passou nos últimos anos, falar de um personagem tão polêmico. Ele, entre aspas, fez tão bem à nação e, ao mesmo tempo, delatou tantos amigos, tantas pessoas com quem trabalhava. Eu diria que é no mínimo curioso, pelo momento em que a gente está vivendo, em que as pessoas negociam acordos delatando outras”, disse a produtora-executiva.

Divulgação
Pierfrancesco Favino e Maria Fernanda Cândido estão no filme 'O Traidor', de Marco Bellocchio

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