Ludmilla Balduíno: A pessoa não é tóxica, a situação é que é

Todos nós somos tóxicos, inclusive as plantas; até mesmo alguns minerais, que nem seres vivos são

Ludmilla Balduino

Goiânia (Brasil)

Acabo de sair de vários relacionamentos tóxicos. A única maneira que encontrei para sair disso foi ela mesma, a saída. Fui embora.

Costumamos julgar as outras pessoas como tóxicas, responsáveis pelo nível de toxicidade no relacionamento. Isso gera mágoa, um sentimento também tóxico, que causa sofrimento e desconforto desnecessário. Magoados, somos impelidos a acreditar que o outro é o responsável por eu me sentir assim. Isso é um equívoco. 

Pessoas tóxicas existem. Quem escolhe se vai se relacionar com uma pessoa que dá sinais claros de que é tóxica é você. O problema é que muitas dessas escolhas são feitas no inconsciente. Ou seja, você escolhe se relacionar com uma pessoa tóxica e nem prestou atenção de que a escolha é sua.

Toda pessoa pode ser passível de ser tóxica. Temos todos as nossas toxicidades, e se uma delas afeta demais alguém, a mesma dosagem dessa toxina pode não afetar em nada a outra pessoa. Aliás, pode até fazer bem.

Chega de teoria. Deixa eu explicar na prática como funciona: o relacionamento tóxico começa com alguém disparando um pouquinho de veneno, já sentindo um certo prazer em saber que ele será sorvido rapidamente. O outro toma o veneno, deleita-se nesse prazer e, logo em seguida, sente-se aflito na terrível dor de ser envenenado. É aí que o envenenado revida, lançando mais um pouco de veneno. E assim sucessivamente. 

Pode ser que um deles, ou ambos, não tenham consciência de que estão enviando veneno, mas acreditam no contrário, de que estão enviando um antídoto. É aí que começam as trocas de venenos, de farpas, de agrotóxicos, de fumaça de cigarro, de sujeira e de doenças psicológicas.

Todos nós somos tóxicos, inclusive as plantas. Até mesmo alguns minerais, que nem seres vivos são. Então imagine o nível de toxicidade que um ser humano, cheio de querer racionalizar as coisas, carrega. Mas a diferença entre nós, humanos, e as plantas e os minerais é que, diferente desses, só vai depender de nós mesmos até que ponto estamos dispostos a suportar a toxicidade de alguém. Seja pedra ou gente.

A escolha é nossa. Muitas vezes, o meu inconsciente escolheu. Não é a escolha certa nem errada, é só a escolha mais adequada para o momento. Não há culpa, entretanto.

Eu não suportei os meus relacionamentos tóxicos. Não digo isso com aquele sentimento de que perdi uma batalha. Pode ser que, naqueles contextos tóxicos das relações que abandonei, o sentimento geral é de que eu tenha perdido mesmo uma batalha. Para mim, foi só uma saída. Poderia ter escolhido outra, na tentativa de corrigir os equívocos na comunicação, na busca pela cura, pelo amor, pela felicidade. E essa tentativa poderia ser interpretada como "lá vem ela me fazer mal de novo". Quem disse que eu tenho o antídoto para os outros? E quem disse que eu tenho o veneno?

Cada um é o veneno e o antídoto de si mesmo. 

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