'Curinga' está longe de ser o que dizem por aí

Enquanto a crítica de cinema da Time classificou o filme como 'agressivo e possivelmente irresponsável', o Guardian, diário britânico de esquerda, o qualificou de 'gloriosamente ousado'

Antônio Augusto

Rio de Janeiro (Brasil)

A extrema-direita dos EUA, hegemônica na direita deste país, tem repudiado o filme “Curinga”.

No Brasil, o filme ganhou o título de “Coringa”, um erro de grafia.

Diante da condenação reacionária, o cineasta Michael Moore (de “Tiros em Columbine”, “Fahrenheit, 11 de setembro”, “Sicko”, entre outros) defendeu de maneira laudatória o filme:

"Eu sugiro o oposto: o maior perigo para a sociedade é não ver este filme”.

E foi além: “É um filme em uma Gotham dos anos 70, o quartel general de todo o mal: os ricos que nos governam, os bancos e corporações a quem servimos, a mídia que nos alimenta com sua dieta diária de notícias e pensam que devemos absorver isso. Mas o filme não é sobre Trump. É sobre a América que nos deu Trump: a América que sente que não precisa ajudar os migrantes. A América onde os ricos ficam ainda mais ricos. É uma obra-prima do cinema".


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Enquanto a crítica de cinema da Time, Stephanie Zacharek, classificou o filme como “agressivo e possivelmente irresponsável”; o Guardian, diário britânico de esquerda, o qualificou de “gloriosamente ousado”.

Sem dúvida, “Curinga” tem elementos críticos: põe em cena a discussão sobre manipulação midiática, cortes generalizados de verbas para programas sociais, a desumanidade com pessoas portadoras de sofrimento mental, o subemprego, os problemas habitacionais, o caos urbano; tudo sugerido como consequência de um sistema social cuja única finalidade é tornar ainda mais bilionários os super-bilionários.

Dito assim, parece que “Curinga” (dirigido por Todd Phillips) seja um filme extremamente progressista, de preocupações revolucionárias.

Mas não é bem assim que a banda toca.

Diante da enorme crise social dos Estados Unidos, agravada pelo extremista governo Trump, neofascista e sempre excludente, isso não poderia deixar de chegar, mesmo que superficial e alegoricamente ao cinema, como ocorre no filme de Todd Phillips.

Mas a crítica social aparece bem diluída.

Reprodução
'Eu sugiro o oposto: o maior perigo para a sociedade é não ver este filme'

É preciso ser louco para "contestar" o sistema?

Em primeiro lugar, porque o suposto grande “contestador”, o protagonista, personagem-título, apresenta problemas mentais, e comete atos anti-sociais, inclusive assassinatos.

O psicologismo assume o posto de comando.

Os valores da doentia sociedade americana estão tão entranhados que é como se a revolta contra ela só se tornasse possível através da... loucura.

“Curinga” é monótono em muitas passagens, fiel à valorizada promoção tediosa do sistema super-star de Hollywood. Haja sucessão infindável de trejeitos do ator que faz o papel título, Joaquin Phoenix.

O filme ganharia agilidade com uma meia hora a menos, mas isso não seria compatível com o cinemão hollywoodiano.

O sistema super-star se dá ao luxo de não pôr Robert De Niro como protagonista; até os coadjuvantes são super-stars.

Superprodução multimilionária da Warner Brothers, com recursos manjados de roteiro, como as histórias paralelas, que vão da moça enamorada do protagonista, ao psicologismo da infância traumática do “Curinga”, tudo apoiado na referência da Gotham City da cultura de massa.

O primeiro “tête-a-tête” do Curinga e da “namorada” é tão previsível que, imediatamente, antes desta cena, pensei na cadeira do cinema: agora vai aparecer a moça.

O filme ganhou o “Leão de Ouro” em Veneza, e, a exemplo de dois filmes nos anos imediatamente anteriores também vencedores deste festival, “Roma” (Alfonso Cuaró) e “A forma da água” (Guillermo del Toro), contemplados depois com o Oscar, tudo indica que o esquemão vá se repetir com muitas estatuetas para “Curinga” na comercialíssima premiação da Academia de Hollywood.

Ou seja, se uma superprodução da Warner Brothers, inflada de efeitos especiais, é apresentada como contestação ao governo Trump, estamos mal: o ritmo da batalha se dá num contexto de “está [quase] tudo dominado”.

Não por acaso, “Bacurau”, e “Marighella”, que ainda vai estrear, trazem o logotipo da Globo Filmes.

A propósito, no Rio, a exibição de todos estes filmes citados se dá, em grande parte, nos cinemas do antigo grupo Estação (hoje mais um ramo acessório das Organizações Globo), ou nos cinemas do... Espaço Itaú.

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