Ludmilla Balduíno: E se a sua família fosse do tamanho da humanidade inteira?

E aí, será que você está cuidando da sua família direitinho?

Ludmilla Balduino

Goiânia (Brasil)

Se tem uma coisa maravilhosa que aprendi quando mergulhei de cabeça no interior de Goiás, é: Família é a humanidade inteira.

Explico: Carregamos - dentro de cada um de nós e independente das nossas experiências, independente se somos privilegiados ou não -, todas as dores, amores, felicidades, tristezas, melancolias, e quaisquer outros sentimentos que existem na humanidade.

A gente sente tudo igual. As razões para que os sentimentos venham à tona é que são diferentes.

Tem gente que sofre porque acabou de perder um parente querido. Tem gente que sofre porque não conseguiu aproveitar a promoção da sua loja de roupas preferida. Tem gente que sofre porque perdeu o voo. Tem gente que sofre porque está com fome. Tem gente que sofre porque está com fome, celular descarregado, e a padaria da esquina já fechou. Tem gente que sofre porque está com fome, não tem um centavo e nem perspectiva de conseguir comer nas próximas horas.

E assim é também com as alegrias que temos. Temos momentos alegres, mas as razões para estarmos alegres mudam de acordo com tantas, inúmeras, infinitas variáveis, que torna-se algo individual.

Ou seja: somos seres com sentimentos iguais. O que muda é a motivação para sentir. Cada um sabe ser alegre e ser triste. E cada um sabe onde está o gatilho para sentir alegria e sentir tristeza. Claro que a cultura também influencia bastante. Compartilhamos sentimentos, reagimos de maneira padronizada em determinadas situações. O afeto pode ser semelhante, muitas vezes, mas a reação ao afeto muda de indivíduo para indivíduo.

Tem gente que fica triste lendo notícias sobre Bolsonaro e esse desgoverno todo. Tem gente que se entristece e se afeta tanto pela tristeza que fica doente.

Tá, e o que isso tem a ver com família?

Nossas famílias são micro representações do que acontece na humanidade: indivíduos que constroem suas histórias pessoais e desenvolvem sentimentos a partir dessas histórias.

A gente costuma dizer que família a gente escolhe. Não é bem assim. Se a gente pudesse, não escolheria o tio bolsominion para ser nosso tio. Melhor ter um tio alegre, gente boa, contador de piadas, que não seja machista e seja aberto para o diálogo, né? Tipo o último Uber que você pegou (que está mais tentando ser legal para ser bem avaliado do que por “puro desinteresse” - esteja atento, porque essa coisa de desinteresse nem existe. Estamos sempre interessados em algo, seja o que for).

É maravilhoso quando temos a consciência de poder escolher quem fará parte do nosso núcleo familiar. As pessoas mais íntimas, as que podemos confiar, aquele número que é menor do que a soma dos dedos de nossas mãos, essas sim podemos escolher. Essas sim caminham junto.

O resto é família.

E família é coisa boa. Família a gente ama. Mesmo quando tem briga. A gente fica triste nas brigas, mas é porque ama. Porque faz parte da gente. Somos parte disso, também. Mesmo estando longe. Mesmo não escolhendo essas pessoas.

Tem de manter isso aí, viu? Cuidar de todo mundo como se fosse da família. Porque não é nem “como se fosse”. É, apenas. Temos dois parentes em comum, lembra? Adão e Eva, Lucy e algum heterotop da época… Não importa no que você acredita. A real é que temos a mesma origem. Somos seres originários desse planeta. E estamos todos juntos nessa.

Cuidar bem de todo mundo faz um bem danado. Quando cuidamos dos outros, é sinal de que estamos muito bem cuidados por nós mesmos. E é sinal de auto-respeito, também. Afinal, quem é o outro senão um espelho de mim mesmo? E quem sou eu, senão um espelho dos outros?

Quando olhamos para o espelho com atenção, a gente vê muita beleza. Porque essa beleza está na gente, também. E também vemos muita feiura. Porque a feiura também faz parte da nossa humanidade. Essa feiura toda inspira medo. Com medo, evitamos encarar nossas feiuras.

Mas, se a gente deixa o medo sair e o amor preencher aquele vazio que o medo deixou, tudo muda. O peito expande. O ar preenche os pulmões. A voz fica firme e direta. A comunicação acontece. As conexões amorosas acontecem. A gente não deixa passar. A gente tem coragem para sair, para ajudar, para se unir, para fazer o bem, para procriar, para espalhar beleza por onde passamos. Coragem para fazer.

Seria ótimo que nos amássemos mais. Tá faltando humanidade e valores familiares nesse planeta. E é num sentido bem diferente da tal família tradicional brasileira, modelo ultrapassado e individualista que nada tem a ver com o sentido real de família, que acabei de explicar e precisamos urgentemente resgatar.

Que tenhamos grandes famílias, repletas de indivíduos cuja diversidade seja como a de uma floresta tropical. Cooperando para que tudo fique mais verde, para que todos comam e prosperem. Mesmo que alguns caiam depois de velhos, mesmo que alguns não cresçam o suficiente.

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