A estigmatização da esquerda revolucionária em ‘Uma Batalha Após a Outra’
Um dos favoritos ao Oscar, filme de diretor que se diz ‘não político’ caricaturiza luta contra o capitalismo e acaba sendo útil ao próprio sistema
O Oscar de 2026 passou a ter um favorito mais claro quando o diretor norte-americano, Paul Thomas Anderson, diretor de Uma Batalha Após a Outra, disse que ser político, mas cineasta minutos após seu filme ser o grande vencedor do BAFTA 2026 (considerado o Oscar britânico), com seis estatuetas. Essa declaração supostamente apolítica teria sido parte da campanha para a obra ser a grande vencedora da noite no próximo domingo (15/03), quando a Academia de cinema de Hollywood divulga os seus premiados.
Algumas revistas especializadas enaltecem a declaração como boa jogada na campanha e apontam de Uma Batalha Após a Outra chega às vésperas do Oscar como favorito justamente por se destacar na reta final da campanha. Porém, a frase em si dita por Anderson é mais uma contradição em um filme cuja proposta e repercussão já são bastante contraditórias.
Baseado no romance Vineland, de Thomas Pynchon, o filme começa contando a história de uma célula ligada a uma organização revolucionária anticapitalista nos Estados Unidos, que é desarticulada quando uma das suas líderes é capturada.
Independente de quão boa ou não se possa considerar a atuação de Teyana Taylor como essa guerrilheira presa (a artista concorre ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante), o fato é que através da sua personagem que se começa a perceber a dinâmica de caricaturização da luta revolucionária.
O filme a reduz a uma figura guiada quase que simplesmente por seu apetite sexual e fetiches, a ponto de ter ciúmes da própria filha e ser pega justamente porque usou sua organização como válvula de escape para esses sentimentos – ao mesmo tempo em que se livra da cadeia por ter um estranho caso clandestino com um oficial militar racista, interpretado por Sean Penn (também candidato a Melhor Ator Coadjuvante).
A partir de então, o personagem principal da trama (e daí até o final do filme), passa a ser o vivido por Leonardo diCaprio (indicado a Melhor Ator), seu companheiro que passa a cuidar da filha após ambos adotarem identidades falsas e se mudarem para outro estado norte-americano.
Após um salto temporal, o personagem de DiCaprio se transforma em outro estereótipo da esquerda: um adulto de meia idade preguiçoso, que fuma maconha o dia inteiro e não é capaz sequer de lembrar um código de importância vital para sua sobrevivência e da filha devido ao uso excessivo da erva.
Ele passa a ser ao mesmo tempo o protagonista, o alívio cômico e o macguffin de uma trama que, finalmente, se centra na dúvida sobre a paternidade da filha, interpretada por Chase Infiniti, que pode ser filha do ex-guerrilheiro que a cuidou por anos ou do militar racista que passou a persegui-la por ela ameaçar seu status dentro de uma confraria de figurões de extrema direita – o desfecho é bastante previsível.
Talvez para ser equilibrado, o filme também caracteriza o personagem de Sean Penn e a organização neonazista da qual ele quer se tornar membro.

Leonardo DiCaprio protagoniza ‘Uma Batalha Após a Outra’
Divulgação
Mas é consideravelmente mais incisivo com o núcleo revolucionário do filme, retratado como um grupo de pessoas ingênuas e inconsequentes. Muito diferente do que costumam ser os integrantes de organizações revolucionárias – seja nos Estados Unidos, Brasil e na maioria dos países – que se caracterizam por ser, até por necessidade, extremamente disciplinados, organizados e que muitas vezes caem pelo excesso dessas virtudes.
Outro problema do filme é o seu vazio ideológico, mas nesse caso há equilíbrio entre direita e esquerda. A organização ultraconservadora é bastante bem definida em seus princípios e objetivos, em uma cena de cinco minutos, mas que deixa as coisas muito claras por esse lado.
Já sobre os revolucionários, só há deduções: eles atacam um centro de detenção de imigrantes, planejam um atentado ao edifício de uma grande corporação, mas não há um manifesto ou sequer uma cena que demonstre o cerne de sua crítica ao capitalismo ou ao que quer que seja.
Embora o excesso de explicação seja algo artisticamente questionável, o que se produz em Uma Batalha Após a Outra é um vácuo, que serve a transformar a organização revolucionária em um grupo caricato de rebeldes sem causa. Ademais, essa ausência acaba se tornando omissão a uma crítica profunda sobre as estruturas capitalistas.
Tudo isso acaba sendo bastante servil à ideia de que o sistema capitalista pode ter falhas, mas que o suposto “verdadeiro problema” são os efeitos colaterais gerados pelos que, por um lado, o defendem de forma intolerante, ou por outro, o combatem meio que por fetiche, ou por esporte, sem uma real intenção de mudar para melhor a vida das pessoas.
Contraponto
Embora as sagas fictícias de super-heróis sejam merecidamente questionáveis por seu conteúdo político, há uma inusitada exceção em uma série do universo de Star Wars, que serve como contraponto excelente para Uma Batalha Após a Outra.
No universo de Star Wars há o período do Império Galático e durante esse império surge a Aliança Rebelde, que é basicamente um grupo guerrilheiro que luta para derrubar esse império. Esse período e essa luta são abordados de forma soberba na série Andor, na qual os rebeldes têm causa, organização, disciplina e até excessos, mas dessa vez justificados.
A série não é boa assim por acaso: quem já leu sobre como funcionaram organizações de resistência às ditaduras sul-americanas da Operação Condor, ou sobre a luta pela independência da Argélia, vai encontrar muitas semelhanças que provavelmente surgiram de estudos feitos pelos roteiristas – uma das subtramas da segunda temporada está muito claramente inspirada em A Batalha de Argel.
























