Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Após sua estreia mundial no Festival de Berlim, A natureza das coisas invisíveis rodou o país e o mundo angariando prêmios em diversos festivais e chegou aos cinemas na última quinta-feira, 27 de novembro. Escrito e dirigido por Rafaela Camelo, que concedeu entrevista ao portal Opera Mundi, o longa traz o ponto de vista de duas crianças sobre temas tidos como tabus na infância, como a morte, a transição de gênero ou o transplante de órgãos. É o primeiro longa da diretora, que vem construindo uma filmografia cada vez mais consistente e potente. Nesta obra, aprofunda alguns temas que vinha tratando nos trabalhos anteriores, mas inova ao buscar um olhar para o luto na infância.

A história traz o encontro de duas meninas: Glória, que passa as férias no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira, e Sofia, uma menina que está convencida de que a piora na saúde da bisavó é causada pela internação no hospital. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. A partida se torna inevitável e, então, as meninas e suas mães seguem para um refúgio no interior do Goiás para passar os últimos dias de um verão inesquecível.

Cena de "A natureza das coisas invisíveis", de Rafaela Camelo. <br> (Foto: Divulgação)

Cena de “A natureza das coisas invisíveis”, de Rafaela Camelo.
(Foto: Divulgação)

Como em seus curtas, Rafaela opta neste longa por um elenco quase exclusivamente feminino que se une para se ajudar mutuamente. Em As miçangas (2023), codirigido por Emanuel Lavor, duas irmãs se abrigam em uma casa envolta pela natureza para realizarem um abordo. Também é no espaço rural que se forma uma forte comunidade de mulheres em A natureza das coisas invisíveis. Ao se deslocarem para este espaço, as personagens encontram apoio umas nas outras e aprofundam gradativamente seus laços de afeto.

Para tratar do luto, a obra adota o misticismo, com uma aura fantástica sutil, carregada de mistérios, que aos poucos vão sendo compreendidos pelas crianças e pelos espectadores. “O filme trabalha nessa chave: o mundo real acontecendo, mas com pequenos detalhes que têm algo de mágico, que sai do esperado”, afirma a diretora para Opera Mundi.

Rafaela traz a religiosidade para o enredo, mas também para a forma fílmica, abordando o tema em profundo respeito às crenças. “Se eu explicasse tudo, o filme perderia a magia, a abertura para a imaginação, especialmente das crianças, que usam a imaginação para dar sentido às suas experiências. Achava importante esse lugar da fantasia e da imaginação, não como um símbolo de inocência, mas como forma válida de buscar respostas e significados. E aí o filme se aproxima da religiosidade: histórias e espiritualidades também buscam dar significado a experiências intangíveis. As transições entre fantasia e religiosidade são fluidas”, acrescenta.

A diretora Rafaela Camelo. <br>(Foto: Emanuel Lavor / Divulgação)

A diretora Rafaela Camelo.
(Foto: Emanuel Lavor / Divulgação)

Leia a entrevista na íntegra

Esse longa traz vários diálogos com seus outros filmes. Vejo temas e modos de representação que se aprimoram de um filme para o outro e mostram uma filmografia que se consolida cada vez mais. Contudo, em A natureza das coisas invisíveis, você traz o tema da morte a partir de várias perspectivas. Há personagens que carregam tanto objetos físicos quanto simbólicos atrelados à morte: órgão, nomes, roupas. Como você também é roteirista do filme, queria te perguntar sobre a construção desse roteiro que explora a morte a partir de várias formas simbólicas e concretas.

O Natureza das coisas invisíveis é um filme que venho pensando desde 2018. Ele vem de um longo processo de desenvolvimento, e nas primeiras versões ele falava sobre a questão do luto e da finitude de maneira mais direta. Era uma história centrada na trajetória da Glória, falando sobre transplante, sobre esse certo desconforto que existe em você viver a partir de um órgão de uma pessoa que não está mais aqui. Mas quando fui me aprofundando na pesquisa e encontrando literatura e outros filmes que falam sobre o tema, percebi que esse ponto de vista já tinha sido tratado em várias outras obras. Aí tentei encontrar algo que fosse, de certa forma, novo em relação a essa questão do luto.

Uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi a personagem da Sofia, essa criança trans. Ela sempre existiu no roteiro, mas no início eu não tinha me dado conta de que ela também poderia representar um tipo de renascimento. Ela estava ali como uma possibilidade de representação de diversidade, mas pesquisando eu cheguei na história do “nome morto”. Aquele nome dado no momento do batismo, da certidão, que depois da transição é abandonado e passa a ser chamado de “nome morto”. E a partir daí fui tendo alguns insights e pensando que de fato existia ali um simbolismo com a morte.

Cena de "A natureza das coisas invisíveis", de Rafaela Camelo. <br> (Foto: Divulgação)

Cena de “A natureza das coisas invisíveis”, de Rafaela Camelo.
(Foto: Divulgação)

Também pesquisando sobre histórias de mães de crianças trans – tem um filme belíssimo da Coraci Ruiz que fala muito sobre maternidade trans [Limiar, 2020] – e um livro da Thamires Nunes sobre crianças trans [Minha Criança Trans?: Relato de uma mãe ao descobrir que o amor não tem gênero, 2020], comecei a perceber que existia um luto nessas famílias e nessa maternagem. Não no sentido da não-aceitação, mas no sentido da despedida de uma pessoa que não existe mais, abrindo espaço para uma outra.

Quando entendi que a história da Sofia poderia trazer isso, comecei a enxergar mais as outras mortes do filme. Tem também a bisavó, que representa essa “morte biográfica”: ela está presente, mas quase não sendo mais ela mesma, com suas memórias. Busquei também no próprio filme uma maneira formal de nascer, morrer e renascer, como acontece na estrutura – especialmente a passagem brusca para o sítio, exatamente na metade do filme. Fui tentando abarcar esse tema a partir de diferentes pontos de vista.

E a escolha do elenco parece ser fundamental para contar essa história. A atuação do elenco mirim traz uma ambiguidade, uma construção aos poucos dessa história e desse luto. Não à toa, elas receberam o prêmio de Melhor Atuação no Festival Mix Brasil. Você também já trabalhou com elencos adolescentes nos seus outros filmes. A sua escolha de trazer esse tema da morte e do luto a partir da infância: como foi trabalhar esse tema com essas atrizes? De modo geral, como foi trabalhar com atrizes mirins?

Eu já tinha trabalhado com atrizes jovens e adolescentes, mas eram meninas de 14 anos e, depois, de 18 anos, que já estavam na universidade. Trabalhar com crianças é muito diferente. É desafiador, exige muita atenção. Tudo o que elas mostram a gente precisa traduzir para uma linguagem possível de se trabalhar em cena.

Mas elas me ensinaram muito. E recomendo a qualquer pessoa que vá trabalhar com crianças: não subestime a capacidade delas de entender a cena, de se preparar, de construir personagens. A partir do momento em que conseguimos nos comunicar, elas estavam realmente trabalhando como atrizes.

Tivemos dois meses e meio de preparação, nos conhecemos, elas conheceram a história. Foram conhecendo o filme à medida que avançávamos no roteiro. No set, tínhamos apenas alguns momentos breves de ensaio. Elas eram muito rápidas: bastava mostrar alguns gestos, alguns movimentos. Trabalhamos bastante com improvisação, até para tornar possível um set que exige sempre abstração – você está num ensaio, mas a cena é numa sala de aula, no hospital, no banheiro…

A forma de acessar isso com crianças é a brincadeira, o faz de conta. Em certos momentos fomos para o fantástico para explorar gestos possíveis, captar essa imaginação livre delas, para depois voltar e ajustar. Essa disposição delas de brincar está evidente no filme. Elas estavam realmente brincando, se divertindo.

Já que você falou sobre essa questão do misticismo, queria te perguntar sobre o vínculo com a religião no filme, que se expressa com um certo misticismo. Há uma aura fantástica sutil, como na cena do porco no banheiro, que tem um flerte com o realismo fantástico. Os mistérios vão se revelando aos poucos. Queria que você comentasse essas escolhas estéticas de introdução do mistério e da religiosidade na forma fílmica.

Esse é um filme que exige atenção e paciência do espectador. Precisa esperar que as coisas aconteçam. Um plano que é o coração dessa decisão é na primeira cena no banheiro, quando as meninas passam batom e saem e vemos aquela porta azul… aquele olhinho escondido… O filme trabalha nessa chave: o mundo real acontecendo, mas com pequenos detalhes que têm algo de mágico, que sai do esperado.

Também gosto de colocar o porco como um elemento que, embora tenha uma justificativa – relacionada a transplantes interespécies, por exemplo –, nunca é explicado completamente. Se eu explicasse tudo, o filme perderia a magia, a abertura para a imaginação, especialmente das crianças, que usam a imaginação para dar sentido às suas experiências.

Achava importante esse lugar da fantasia e da imaginação, não como um símbolo de inocência, mas como forma válida de buscar respostas e significados. E aí o filme se aproxima da religiosidade: histórias e espiritualidades também buscam dar significado a experiências intangíveis. As transições entre fantasia e religiosidade são fluidas.

Por um lado, o filme tem imaginação e fantástico; por outro, tem um traço documental, principalmente quando as personagens vão para o sítio. Como foi trabalhar com benzedeiras reais e construir esse flerte com o documentário?

Foi uma decisão bastante natural. Não cheguei a pensar em atrizes fazendo as benzedeiras. Sentia que, ao trazer essas mulheres – dona Ana Maria e Iara Miranda –, eu validava esse tom do filme: mágico, fantástico e também realista. E ter as benzedeiras reais era uma chance de captar as coisas de forma genuína, como acontecem. No próprio ofício de benzer, há esse lugar do ensino, do cuidado, da oralidade.

Os encontros com elas foram muito ricos. Na primeira conversa com as atrizes que fazem as mães, várias coisas surgiram e entraram no filme. Uma das minhas cenas favoritas – quando a Camila [Márdila] fala sobre ver espíritos – nasceu de uma conversa delas com as benzedeiras. As fronteiras se borravam: elas conversavam como benzedeiras, mulheres, personagens. Foi muito bonito.