Terça-feira, 3 de março de 2026
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Em cartaz nos cinemas brasileiros desde a semana passada, o longa-metragem tunisiano A voz de Hind Rajab expõe os dilemas e impasses do trabalho humanitário em meio ao genocídio em Gaza. O filme é a reconstituição encenada de um episódio real ocorrido há dois anos, em janeiro de 2024, quando Hind Rajab, uma menina de apenas seis anos, telefona para a ONG Crescente Vermelho pedindo socorro. Escondida em um carro, cercada por tanques israelenses que atiravam continuamente, Hind estava rodeada pelos corpos de seis de seus familiares mortos no local.

O filme mescla documentário e ficção, reencenando com precisão os fatos ocorridos e utilizando a gravação de áudio real realizada no começo de 2024, na qual escutamos a voz de Hind Rajab. A consciência de ouvir a voz verdadeira da criança no telefone, junto às encenações de um elenco que consegue incorporar com precisão toda a força do drama, têm um efeito emocional dilacerante.

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Ao longo de uma hora e meia, o espectador acompanha a angústia da equipe de ajuda humanitária, que tenta tranquilizar a criança enquanto negocia com diferentes instâncias a autorização para a passagem da ambulância de resgate, parada a apenas oito minutos do local. Com o passar do tempo do filme e com o prolongamento na resolução do caso, a câmera se aproxima cada vez mais dos rostos dos personagens, com enquadramentos tortos e uma lente que desfoca o fundo e destaca a expressão dos atores. Estes recursos expressivos da imagem, aliados a um abafamento subjetivo do som, transmitem aos espectadores a sensação de sufocamento e desespero vivenciada pelos personagens. A linguagem acentua então a indignação e incredulidade frente à situação de completa desumanização em Gaza, que não poupa nem mesmo uma criança totalmente indefesa e vulnerável.

Cena de 'A voz de Hind Rajab'. (Foto: Reprodução)

Cena de ‘A voz de Hind Rajab’.
(Foto: Reprodução)

Segundo a diretora, Kaouther Ben Hania, “(…) havia a questão do que mostrar e do que não mostrar. Muitas pessoas sugeriam que era preciso mostrar a Hind no carro, os tanques, os disparos, porque seria um filme de guerra. Para mim, isso estava fora de questão. A questão ética era não filmar a morte daquela criança, mas filmar o seu apelo à vida.”

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Essa história real poderia ser contada de muitas maneiras. Aqui, opta-se por focar na luta dos trabalhadores da ajuda humanitária para salvar uma vida e, sobretudo, na luta da pequena menina por sobreviver. Para escapar da espetacularização da violência e da banalização de imagens de brutalidade desgastadas e exauridas na mídia e nas redes sociais, Ben Hania faz de protagonista o último vestígio de vida de Hind Rajab: a sua voz. Ao priorizar o som, o filme abre espaço para que o espectador imagine a cena e construa suas próprias imagens: a menina sozinha desesperada, os cadáveres no carro, os sons de tiro que se aproximavam.

“Não mostrar uma gota de sangue, mas ainda assim fazer um filme impactante. Porque é contado do ponto de vista de quem tenta salvar vidas. Queria mostrar o sistema da violência – que não é apenas um sistema de tiros, mas um sistema de leis impostas pela ocupação. Em muitos países, uma ambulância chega em oito minutos. Lá, não. Pode demorar uma hora, duas, três horas. E pessoas morrem não por negligência, mas porque a ambulância é impedida de chegar.”, acrescenta a diretora, em entrevista para o portal C7nema.

De fato, mesmo sem mostrar uma gota de sangue, o impacto de A voz de Hind Rajab é tamanho que se tornou o filme mais aplaudido da história do Festival de Veneza, onde fez sua estreia mundial no segundo semestre de 2025, sendo ovacionado por um público de pé por 23 minutos. Na ocasião, conquistou o Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri, e concorre agora ao Oscar de Melhor Filme Internacional, recolocando a Palestina em evidência na maior premiação da indústria cinematográfica após a vitória de Sem chão (No other land) ano passado, na categoria de Melhor Documentário.

À produção se juntaram produtores de peso, como Brad Pitt, Spike Lee, Michael Moore, Alfonso Cuarón e Joaquin Phoenix, que decidiram reunir esforços após assistirem um corte do longa. Apesar do apoio de grandes nomes de Hollywood, o filme vem sofrendo uma série de boicotes e desafios para distribuição nos Estados Unidos – um fato inédito para uma obra premiada em um dos maiores festivais do mundo. A este cenário somam-se ameaças direcionadas à equipe: “Meus produtores, incluindo os conhecidos nomes americanos Brad Pitt e Joaquin Phoenix, tiveram suas caixas de entrada inundadas com milhares e milhares de mensagens intimidadoras”, afirmou Ben Hania, em entrevista para a agência de notícias AFP.

Essas retaliações são consequência e evidência do poder do filme em impactar a opinião pública. Ben Hania apresenta uma obra de grande potencial catártico, que revela a falência das organizações e dos métodos de resgate face à limpeza étnica em curso. Não havia autoridade capaz de salvar Hind Rajab. Em dois anos de guerra, 64 mil crianças – incluindo ao menos mil bebês – foram mortas ou feridas, segundo dados da Unicef. Ninguém é poupado em um genocídio; é o fim de qualquer humanidade.

(*) Nayla Guerra é Mestranda em História Econômica (FFLCH-USP), especialista em Gestão Cultural (Senac-SP) e graduada em Audiovisual (ECA-USP). É produtora cultural na Cinemateca Brasileira e organizadora do Cine Sapatão. É autora do livro “Entre apagamentos e resistências” e diretora do filme “Ferro’s Bar”.