Segunda-feira, 20 de abril de 2026
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Neste domingo (15/03), o longa O Agente Secreto disputa quatro estatuetas do Oscar. A produção, que chega a Los Angeles após uma longa trajetória de prêmios, despertou a curiosidade do telespectador pelo cenário, que não é mera escolha estética.

Opera Mundi revirou o acervo do Departamento de Ordem Social e Política (DOPS) em Pernambuco, o terceiro maior do Brasil, e descobriu que as locações do longa abrigaram o coração da espionagem durante a ditadura militar (1964-1985). A vigilância de pessoas consideradas subversivas recrudesceu durante a vigência do Ato Institucional nº 5 (AI-5), decreto de Artur Costa e Silva, o mais duro do período militar.

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Veja | Oscar impulsiona tour pelos cenários de ‘O Agente Secreto’ no Recife

Durante a trama, Marcelo, personagem de Wagner Moura, um professor universitário que busca refúgio em Recife após ser perseguido por um empresário com interesses em uma das suas pesquisas, vai até o prédio dos Correios enviar um telegrama. Essa é a forma que ele encontra para pedir ajuda a um amigo de Brasília, após descobrir que está jurado de morte.

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Nos arquivos do DOPS, esse prédio localizado na Avenida Guararapes, abrigou, em seu quarto andar, a reunião de criação do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Os Correios eram estratégicos para interceptar as correspondências.

Realizada em 10 de setembro de 1971, a reunião contou com as presenças de representantes da Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal e da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. A vice-diretora do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que, há mais de 30 anos, pesquisa sobre o DOPS, Marcília Gama explica que “após essa primeira reunião, as demais passaram a ser realizadas em locais sigilosos”.

O DOI-CODI funcionou como o principal centro de tortura do Regime Militar. O órgão representou o ápice da vigilância como ferramenta de repressão aos inimigos internos. A estruturação da polícia técnica, responsável por desenvolver o serviço, contou com o apoio dos Estados Unidos, que ofereceu “cursos no exterior, equipamentos, intercâmbios em idiomas”, diz um trecho da pesquisa “Informação, Repressão e Memória – A construção do Estado de exceção do Brasil no contexto do DOPS”, de autoria da pesquisadora Marcília Gama. Esse trecho baseia-se em um relatório do Secretário de Segurança Pública endereçado à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), em 1963, às vésperas do golpe civil-militar de 1964.

cena O Agente Secreto

Arquivo onde Marcelo busca informações sobre a mãe, idêntico aos do DOPS onde por décadas foram guardados prontuários das pessoas investigadas
CineScópio

Ao chegar em Recife, Marcelo passa a trabalhar como datilógrafo em um Instituto de Identificação, local onde são produzidas carteiras de identidade. Ele pede para trabalhar neste lugar com o intuito de encontrar informações sobre o paradeiro da sua mãe. Em uma cena ele chega a pedir para ver se um colega de trabalho consegue encontrar uma ficha dela.

Os arquivos que ele utiliza são idênticos aos que eram usados pelos agentes do DOPS. Na dinâmica de vigilância do Departamento, aquelas fichas de identificação continham um número de registro que dava acesso aos prontuários funcionais e individuais dos investigados. Os prontuários funcionais reúnem informações da vida pública do investigado, entre ligação com sindicatos, partidos, igrejas e grupos individuais. Quanto mais intensa for a vida pública e quanto maior o risco que ele ofereça ao regime, maior o prontuário.

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Gama explica que o fichário onde Marcelo busca vestígios da mãe chama-se Fichário Geral Onomástico Alfanumérico. “Aquela fichinha que Wagner Moura pega possui um número que dá acesso ao prontuário funcional ou individual”, detalha. Este tipo de fichário é uma espécie de organização arquivística que combina os métodos onomástico, que contém nomes das pessoas, empresas ou instituições e numérico, que são os números atribuídos à cada registro.

Chama atenção o volume e o nível de detalhamento das informações levantadas pelos entrevistados. Para se ter uma ideia, o prontuário do ex-deputado federal, membro do Partido Comunista e um dos fundadores das Ligas Camponesas, Gregório Bezerra, possui 468 páginas, que incluem a ficha do DOPS, relatos de prisões e recortes de jornal sobre diversos momentos da vida do político, além de uma vasta quantidade de documentos compõe esse prontuário. Gregório era considerado o inimigo número um da Ditadura.

Gregório Bezerra iniciou a sua luta por direitos trabalhistas, entre eles jornada de trabalho de oito horas e salário mínimo pagos em dia, em 1917, ainda na adolescência, após ter contato com o Partido Bolchevique em Recife. Por causa desses protestos foi condenado a sete anos de prisão.

Serviu ao Exército no Rio de Janeiro, mas desertou por incompatibilidade entre as suas crenças e a instituição. De volta ao Recife, adota o jornal Aliança Popular como um catecismo e filia-se ao Partido Comunista, após contato com Luís Carlos Prestes.

Gregorio Bezerra preso ditadura

Gregório Bezerra preso no Quartel de Casa Forte, em Recife, onde foi arrastado pelas ruas preso a um carro por cordas enroladas no pescoço
Acervo Iconografia

Em 1964, Bezerra foi eleito o deputado Federal Constituinte mais votado do Recife e o segundo mais votado de Pernambuco, contando com o apoio do Partido Comunista e do trabalho à frente das Ligas Camponesas.

Quando o Partido Comunista foi declarado ilegal, teve o mandato cassado e passou a atuar fortalecendo as Ligas Camponesas. Este movimento reuniu trabalhadores rurais em torno de reivindicações pela reforma agrária, direitos trabalhistas e contra o latifúndio.

Foi preso na Usina Pedrosa e levado para o bairro de Casa Forte, ficando sob custódia do coronel do Exército e Comandante da Companhia de Motomecanização da 7ª Região Militar, Darcy Ursmar Villocq, que foi Secretário de Segurança Pública de Pernambuco, durante o Governo de Nilo Coelho, em 1969.

No local, Bezerra sofreu tortura severa. Segundo consta em seu prontuário, ele teve três cordas amarradas ao pescoço e foi arrastado pelas ruas do bairro de Casa Forte, enquanto populares o agrediram com pedras e paus. Graças aos clamores de religiosas a tortura foi interrompida. Ele foi libertado, ao lado de outros 13 presos políticos, como moeda de troca por um embaixador dos Estados Unidos, sequestrado por opositores ao golpe de 64.

Gregório ficou exilado até 1979, quando recebeu a anistia e retornou ao Recife. Faleceu em São Paulo, em 1983.

Jurandir Bezerra Filho, neto de Gregório Bezerra, busca preservar e divulgar a memória do avô, preso político do regime militar

Jurandir Bezerra Filho, neto de Gregório Bezerra, acaba de doar um acervo de 600 documentos do avô ao Memorial da Democracia de Pernambuco. “Eu não poderia deixar que as traças destruíssem o legado daquele”, resume. O gesto é mais um dentre muitos na tentativa de resgatar e preservar a memória do avô, relegado ao status de “militante comunista”.

Ele quer que o avô seja lembrado pela luta aqui [Recife], no Rio de Janeiro, pelas vezes que foi preso, espancado, mas não baixou a cabeça e não cedeu às acusações dos torturadores”, defende.  O medo diante da iminência de uma abordagem dos agentes do Dops marcou a infância de Jurandir. Ele relembra que, de forma repentina, era levado para Panelas, cidade onde o avô nasceu, e ficava dias até as ameaças de batidas e abordagens se dissiparem.

Uma das cenas de O Agente Secreto que mais lhe marcou foi o momento em que o pistoleiro Vilmar vai à repartição para eliminar Marcelo. “Aquela arma na cintura, o medo, o risco de morte, tudo isso aquilo me lembrou a época do meu avô”, explica.

Para Jurandir, o cinema é um caminho para recuperar a memória dos presos políticos. “Eu acredito que faltam muitos documentários, séries, sobre a história dos grandes lutadores da democracia, aqueles que sofreram, que morreram, que foram torturados, assassinados covardemente [pela Ditadura]”, conclui.

Cinema São Luiz foi monitorado pelo Dops e teve sessões escoltadas por policiais para reprimir manifestações dos ‘vermelhos’
Arquivo Público de Pernambuco

Sessão sob escolta policial no São Luiz

O cinema São Luiz, inaugurado em 1952, é uma das poucas salas de rua ainda em funcionamento no Recife, é outro cenário relevante do longa O Agente Secreto. Na trama, funciona como local de trabalho do sogro de Marcelo (Wagner Moura), o senhor Alexandre, projecionista. É em um apartamento no primeiro andar do cinema que o protagonista revela como se desenvolveu a desavença com o empresário Ghirotti.

O São Luiz também foi monitorado pelo DOPS. Encontramos um prontuário com ofícios, recortes de jornal, documentos e petições especiais direcionadas à delegacia responsável por censurar obras consideradas ameaças ao Regime Militar. O delegado auxiliar Estácio Cardoso, solicita, por meio de ofício encontrado em meio aos arquivos, “policiamento interno reforçado no Cine São Luiz, durante a exibição do filme Raposa do Deserto’’. O intuito do ofício endereçado à delegacia de Vigilância Geral e Costumes é “evitar possíveis demonstrações por parte de elementos vermelhos [comunistas]”, diz o texto.

Em outro trecho do prontuário, é possível ver ofícios de prestação de contas da grade de programação com os filmes exibidos a cada mês. Vale lembrar que essas produções também passavam por uma análise do Serviço de Censura de Diversões Públicas, que autorizava ou vetava as exibições. Isso revela o rigor da censura ao cinema à época.

Coordenador do Acervo Digital do Dops no Arquivo Público de Pernambuco, Marcos Dornelas, preserva documentos que contam uma história ainda pouco conhecida do público

Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, Marighella, sempre que uma produção cinematográfica é lançada provoca debates sobre as memórias perdidas com a Lei da Anistia da Ditadura Militar. O Acervo do DOPS em Pernambuco é um manancial de memórias, de informações sobre pessoas de notoriedade ou não que foram atravessadas pelos tempos de chumbo.

Na imensa lista de documentos é possível, por exemplo, saber quais as bandeiras que levaram Gregório Bezerra a organizar protestos ainda em 1917. Ele lutava por Jornada trabalhista de 8 horas, salário mínimo pago em dia, direitos que, em 1934, foram institucionalizados na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), iniciativa que levou o público a glorificar Getúlio Vargas, enquanto Gregório ficou reduzido a um “militante comunista”.

O coordenador do Acervo Digital do Arquivo Público de Pernambuco, Marcos Dornelas, considera que “preservar e popularizar as informações deste acervo é importante para resgatar e contar a verdadeira história de muitos mortos, desaparecidos e presos políticos, injustiçados pela Ditadura Militar”, observa.