‘China realizou meu sonho de ser atriz’, diz brasileira protagonista de blockbuster chinês
Daniela Tassy está no filme ‘Terra à Deriva 2’, que chegou às salas do Brasil e promete mostrar nova fase de cinema de ficção científica do país asiático
Está em cartaz nas salas de cinema de todo o Brasil o filme Terra à Deriva 2, produção chinesa que promete ser uma das obras com a qual o país asiático pretende catapultar sua crescente indústria de filmes de ficção científica.
A obra, que estreou na última quinta-feira (20/08), traz uma novidade interessante: a presença de uma atriz brasileira Daniela Tassy em um dos papeis mais importantes da trama.
Vivendo na China há mais de dez anos, Tassy relata, em entrevista a Opera Mundi, como chegou ao país asiático para trabalhar como tradutora, e os caminhos que percorreu até ganhar a oportunidade de viver seu sonho de menina, de ser atriz.
A brasileira conta que um amigo conseguiu para ela um teste para fazer um papel menos na produção, de uma repórter de televisão. “A produção decidiu me dar a oportunidade de fazer o teste para um personagem maior, de uma astronauta. Foi assim que eu ganhei o papel da Emília Soares, a líder dos astronautas brasileiros que foram para uma missão na Lua”, recorda.
Tassy também fala sobre a experiência de viver na China e como a nação asiática, além da carreira de atriz, também permitiu a ela desenvolver sua própria empresa no ramo do turismo.
“Eu digo sempre, para aqueles que têm curiosidade, que só dá para entender estando aqui. Eu posso ficar aqui falando horas e horas, mas há muita coisa que só dá para entender estando aqui (…) e também brinco com meios amigos dizendo que ‘enquanto o tio Xi (Jinping, presidente da China) deixar, eu vou ficando’”, ironizou.
Leia abaixo a entrevista completa com a atriz e empreendedora brasileira Daniela Tassy:
Opera Mundi: como uma atriz que nasceu em Andradina, no interior de São Paulo, termina sendo uma estrela de uma grande produção cinematográfica chinesa? Como você chegou aí na China?
Daniela Tassy: é uma história longa, mas eu vou tentar resumir. Eu vim para a China para estudar um outro idioma, porque já sabia falar inglês e espanhol, e acreditava que deveria ter um idioma que fizesse a diferença no meu currículo para poder explorar esse mundo da tradução. Meu sonho de adolescência, quase de infância, era ser atriz, mas isso ficou para trás, porque me formei em Tradução, comecei a trabalhar, e quando cheguei à China essa oportunidade apareceu, a de realizar esse sonho de infância.
Antes, eu estudei dois anos de mandarim em Nanjing. Depois eu fui para Shanghai, também trabalhei como tradutora para alguns jogadores de futebol, até que tive a oportunidade de me mudar para Pequim, que é onde eu moro agora. Na verdade, foi em Shanghai que tive meu primeiro contato com o mercado cinematográfico aqui da China, conseguir entender a dinâmica de tudo que acontecia ali, dos seriados, dos filmes, de como fazer para me posicionar no mercado.
Comecei fazendo papéis pequenos, fiz um workshop sobre atuação em frente às câmeras, que foi muito enriquecedor, também criei laços com amigos internacionais, da Índia, dos Estados Unidos, e nós fizemos vários projetos juntos. Isso também me deu uma bagagem e a oportunidade de fazer outros trabalhos em produção audiovisual, inclusive trabalhos por trás das câmeras, como produtora, maquiadora, posição de luz e até direção.
A oportunidade de trabalhar no filme Terra à Deriva 2 veio através de um amigo. O nome dele é Sérgio, ele também é ator aqui na China, e conhece muito desse mundo dos filmes de ação. Ele me falou que havia um teste para fazer uma personagem menor, uma repórter, e que queriam uma atriz que falasse espanhol ou português. Nós gravamos em 2022, era uma época em que ainda vivíamos os resquícios da pandemia, então eu não pude ir até o lugar, fiz o teste de casa mesmo.
Então, a produção decidiu me dar a oportunidade de fazer o teste para um personagem maior, de uma astronauta. Foi assim que eu ganhei o papel da Emília Soares, a líder dos astronautas brasileiros que foram para uma missão na Lua.
Quem for no cinema assistir Terra à Deriva 2, o que essa pessoa deve esperar da personagem Emília Soares? Ela aparece no filme falando em português ou em chinês? O que você pode contar da personagem, sem dar spoiler?
No filme original, eu falo em português, e entra em cena uma tecnologia de tradução simultânea. A história mostra uma equipe internacional de astronautas, então eu como brasileira falo em português, o chinês fala em chinês, o russo fala em russo, o norte-americano em inglês e assim por diante. Cada um fala no seu idioma e todo mundo se entende porque tem essa tecnologia.
A personagem Emília Soares tem suas particularidades. Ela é mãe e astronauta, e lidera o grupo que parte em uma missão para a Lua. Não quero falar o que eles foram fazer na Lua, mas posso dizer que quem ver o filme vai encontrar uma mulher de muita garra e que toma decisões pensando em toda a humanidade, sem deixar de cumprir a missão a que foi incumbida.
Foi uma personagem que eu construí com muito carinho, porque sempre tive muita consciência da importância de ser uma figura que, mesmo na ficção, está representando o Brasil. Ela usa um traje espacial com a bandeirinha do Brasil, isso carrega uma responsabilidade.

A brasileira Daniela Tassy no papel da astronauta Emília Soares, no filme ‘Terra à Deriva 2’
Instagram / Daniela Tassy
O que o público brasileiro deve esperar do filme como um todo? É preciso ver Terra à Deriva 1 para poder ver Terra à Deriva 2?
Bom, chega a ser um spoiler o que eu vou dizer, mas na ordem cronológica da trama, os acontecimentos de Terra à Deriva 2 são anteriores aos do primeiro filme. Então quem quiser ir ao cinema vai entender a história mesmo sem ter visto Terra à Deriva (o primeiro filme, que está disponível na plataforma Netflix).
Além disso, a história principal está baseada num livro do Liu Cixin, que é um autor muito consagrado aqui na China e muito conhecido.
Posso garantir que Terra à Deriva 2 possui uma história com várias camadas, diferentes tramas acontecendo ao mesmo tempo. Ah, e os efeitos especiais vão deixar o público de queixo caído. Inclusive, quem já assistiu o primeiro filme, se prepare porque este filme é muito incrível (nota: o filme Terra à Deriva, o primeiro da série, foi lançado em 2019).
Que outros filmes e programas de televisão você fez na China? Como é a sua vida de atriz, tão longe do Brasil?
Eu fiz vários seriados, alguns poucos filmes e também alguns comerciais de televisão, sempre fazendo papeis de brasileira ou de alguém de outra nacionalidade, personagens latinas, por exemplo. Minha participação em Terra à Deriva 2 é a mais destacada, porque a Emília Soares, embora não seja a principal, é uma personagem muito importante para a trama.
Tem uma série que eu também gostei muito de fazer, na qual a minha personagem é a diretora de um hospital chinês num país africano, eu participo de poucos episódios, mas gostei muito de fazer. É uma série que está disponível no YouTube, talvez em outras plataformas, mas a série não tem um título em português. O título em inglês é Love Heals (“O Amor Cura”).
Como é a sua vida na China? Como é o estilo de vida das pessoas em um país socialista? É muito diferente do nosso mundo ocidental?
Olha, eu não sou a melhor pessoa para falar sobre a questão política, sobre ser um país socialista, posso falar sobre como é a minha vida aqui na China, que não é muito diferente da vida das pessoas no Brasil ou em outros países, no sentido de que eu faço compras da mesma forma, eu vou no shopping, onde há lojas de marcas internacionalmente famosas, mas não sei dizer se isso é compatível com socialismo, comunismo ou capitalismo.
Estou há onze anos na China e me sinto muito bem asi. Até brinco com meios amigos dizendo que “enquanto o tio Xi deixar, eu vou ficando”.
Em paralelo com a atuação, eu tenho a minha empresa, uma agência de turismo aqui. Tenho recebido muitos brasileiros que querem conhecer o país. É uma satisfação tão grande quando as pessoas que vêm aqui dizem que imaginavam uma China completamente diferente, geralmente superando as expectativas.
Então, eu digo sempre, para aqueles que têm curiosidade, que só dá para entender estando aqui. Eu posso ficar aqui falando horas e horas, mas há muita coisa que só dá para entender estando aqui.
Estou aqui há mais de uma década, é praticamente uma vida. Além de me dar oportunidades de trabalho, a China me deu a chance de desenvolver a minha empresa no ramo do turismo, de crescer e me estabelecer na vida, e também de realizar o meu sonho. Eu tinha um sonho de infância, de adolescência, que acabei concretizando aqui na China.






















