Domingo, 8 de fevereiro de 2026
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Em dois anos consecutivos, o cinema brasileiro está em destaque nos cenários nacional e internacional. O Agente Secreto, longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, registraram em suas obras marcas expressivas do audiovisual nacional, colocando em evidência o retrato da realidade social, a identidade e a diversidade, além da mistura de gêneros e da força do cinema autoral.

A Opera Mundi a professora Margarida Adamatti, pós-doutora pela Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), afirmou que o cinema brasileiro possui prestígio no exterior há décadas. Ela destaca que o filme Central Brasil, estrelado por Fernanda Montenegro, dirigido por Walter Salles, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 1999.

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Adamatti, que também é professora do Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da UFSCar, destaca outro filme importante: O Cangaceiro, vencedor do prêmio de aventura e da menção especial pela no Festival de Cannes de 1953, frequentemente considerado pela crítica mais relevante em termos de prestígio artístico, do que o próprio Oscar.

No entanto, a especialista ressalta que o Oscar funciona como um “reforço da imagem que o brasileiro tem de si”. Ela menciona uma crítica do historiador e crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, segundo a qual o brasileiro tende a ter uma imagem de si mesmo na tela: “ele não consegue se ver, e não se consegue se enxergar nos filmes, na condição de subdesenvolvimento, na miséria, no debate internacional entre etnias e classe sociais”.

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A jornalista e especialista em cinema acrescenta que, até pouco tempo atrás, muitos brasileiros reproduziam esse “slogan”, de que o filme nacional era ruim ou se mostravam assustados de olhar a qualidade das produções, reforçando a idéia equivocada de que o audiovisual brasileiro não teria técnica ou não merecia reconhecimento internacional, muitas vezes sem sequer conhecer a própria cinematografia nacional.

“É como uma síndrome de vira-lata que o brasileiro tem, de precisar ter esse reconhecimento internacional nos Estados Unidos para poder se sentir menos inferior. E essa distorção dessa imagem que o brasileiro costuma ter sobre o seu próprio cinema, vem contra a história e a tradição cinematográfica do Brasil. Técnica não nos falta há décadas”, afirmou Adamatti.

Cinema brasileiro e a política

Entre os temas mais debatidos nas redes sociais, está a percepção de um suposto esgotamento das narrativas sobre a ditadura militar no cinema brasileiros. Para Margarida Adamatti, no entanto, o tema da ditadura foi “muito abordado de maneira plural, ao longo da história, desde o período militar, pelo Cinema Novo, cinema marginal, pelo chamado ‘cinemão’, pelas produções dos anos 1980 e também pela televisão”.

“O tema nunca vai esgotar, porque o país carrega uma cicatriz aberta: a ausência de punição em torno da lei da Anistia. Além disso, ela alerta que o Brasil atravessa, e ainda enfrenta, um “período de revisionismo histórico extremamente perigoso”, comenta a especialista. 

Adamatti destaca que “durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023), houve uma perseguição ao campo cultural e aos artistas, marcada pelo esvaziamento do Ministério da Cultura, pelos cortes destinados ao cinema, pela perseguição a obras e artistas e pelo abandono da  Cinemateca Brasileira. Esse processo resultou em um incêndio que atingiu parte do acervo, justamente o relacionado à política cinematográfica”.

Vale ressaltar, que o cinema brasileiro possui um papel político fundamental de fazer a população “pensar sobre esses temas e fazer a opinião pública conhecer esse debate e possibilitar reflexões de mudanças e lentas ou estruturais na nossa própria sociedade”.

A professora ressalta a importância de discutir o “cerceamento da liberdade quanto tantos há tão pouco tempo ainda pedem intervenção militar, sendo que temos muitas histórias para contar”, especialmente na “na implementação de ditadura na América Latina pelos Estados Unidos, que são presentes no registros de e documentários, mas poderiam ser ficcionalizados. Então, seja na Operação Condor, na Operação Oban. Tudo isso é muito importante, trabalhar tudo isso para as novas gerações.

‘O Agente Secreto’ de Kleber Mendonça Filho fez história ao vencer em duas categorias no Globo de Ouro em 2026
Divulgação/Vitrine Filmes

Papel da Lei Rouanet

De acordo com Adamatti, para a produção do longa O Agente Secreto não foram utilizados fundos da Lei Rouanet, já que o propósito da lei é destinar verbas para curtas e médias metragens.

No entanto, Kleber Mendonça afirmou que o filme teve um custo de R$ 28 milhões de reais, e foi co-produzido na França, Alemanha e Holanda. Desse total, 7,4 milhões vieram do Fundo Setorial de Audiovisual, que funciona por meio da renúncia fiscal e prevê retorno ao Estado a partir da participação ativa na bilheteria, 

A especialista relembra que em 1934 , durante o governo de Getúlio Vargas, foi criado o chamado complemento nacional, que tornava obrigatória a exibição de cinejornais antes dos filmes principais, medida fundamental para a consolidação do cinema brasileiro.

Ela também traça um paralelo histórico com o governo de Fernando Collor de Mello, que encerrou a Embrafilme, empresa estatal responsável pela produção e distribuição cinematográfica em um contexto de crise econômica, provocando um grave desmonte do setor cultural, situação que guarda semelhanças com o ocorrido durante o governo Bolsonaro.

De acordo com a especialista, tanto a Lei Rouanet quanto o  Fundo Setorial do Audiovisual possuem capacidades econômicas de investir verbas do Condecine, telecomunicações, TV a cabo para a realização de obras audiovisuais que “refletem sobre a atual situação do nosso país”.

Além disso, a jornalista retrata que “embora a estética dos filmes do Walter Salles, Kleber Mendonça sejam diferentes, a gente tem uma continuidade desse olhar interessado na temática social, na temática da igualdade e na temática de uma identidade regional.