Com 'Galo na Neve', foliões brasileiros espantam frio de Quebec com frevo, maracatu e samba
Com temperaturas de até 40 graus negativos, centenas de foliões pernambucanos, que vivem no Canadá, revivem calor do carnaval brasileiro
Um grupo de pernambucanos que vive na província de Quebec, a 444 km de Ottawa, capital do Canadá, encontrou um jeito criativo de ainda conseguir curtir o carnaval brasileiro. Há 12 anos, eles saem às ruas com fantasias, embalados por samba, maracatu e muito frevo, dando vida ao Galo na Neve. O bloco, inspirado no Galo da Madrugada, reconhecido, desde 1994, pelo Guinness book como o maior bloco de carnaval do mundo, desfila no mesmo dia da aclamada agremiação pernambucana. Este ano, a folia está marcada para esta sexta-feira (13/02). Quem participa, garante que nem mesmo as temperaturas que variam entre 21 e 40 graus negativos desanimam os foliões.
O bloco surgiu do desejo de manter a tradição do legítimo carnaval pernambucano, com música, dança e comidas típicas que animam qualquer folião. A administradora Fabiana Marques, que é a atual presidente do Galo na Neve, vive em Quebec desde 2013. Chegou à cidade, por meio do Regular Skilled Worker Program (Programa Trabalhadores Qualificados), que recruta profissionais para suprir o déficit causado pelo envelhecimento da população nativa. No novo país, ela encontrou a segurança e qualidade de vida que tanto queria oferecer aos filhos, mas o Galo da Madrugada, bloco do coração, ficou relegado à memória afetiva.
Fabiana, que era bancária em Recife, esperava pelo Galo como quem espera pelo dia do aniversário. Ela e o marido uniram-se a um casal que os hospedou provisoriamente no Canadá para recriar um pedacinho do carnaval recifense na terra gelada. “E aí, Mariano [colega] disse: ‘se a gente não pode ir ao Brasil passar o carnaval, vamos fazer o nosso carnaval aqui. No primeiro ano foi uma brincadeira. Fizemos um estandarte em casa e saímos na rua com apenas quatro pessoas”, disse a Opera Mundi.
No ano seguinte, 2015, o público aumentou em mais de seis vezes. Teve feijoada, frevo, samba e maracatu. A adesão de um número cada vez maior de foliões fez com que os organizadores percebessem o potencial da festa, que representava uma celebração às raízes para os pernambucanos e a curiosidade dos canadenses e imigrantes que viviam em Quebec.

Quebrando toda rotina da gelada de Quebec, cortejo de pernambucanos ganha as ruas com centenas de foliões
Tiago Mendonça
Com o aumento do interesse do público, o bloco ganhou uma página no Instagram e a divulgação em diversos perfis de comunidades de brasileiros em Quebec, Montreal, Toronto e outras partes do Canadá. Ano após ano, o bloco foi aumentando. Após uma parada, em 2020 por causa da pandemia da covid-19, a agremiação retornou, em 2025, com um público de 600 participantes.
O dia do bloco cumpre a seguinte programação: desfile nas ruas, um cortejo que dura, em média, 2 km, com pessoas fantasiadas, samba, maracatu e frevo guiados pelo estandarte, e os shows em um espaço fechado, acompanhado de comidas típicas. “Tem feijoada, carne de sol, arrumadinho, brigadeiro, bolo de rolo. É uma experiência de um Dia do Brasil”, afirmou Fabiana.
Atrás de Ontário, Quebec é a segunda maior província do Canadá, com 1.282 subdivisões. Por lá tem carnaval, mas a programação é diferenciada das festas que costumam acontecer no Brasil. Nesta época, a cidade de Quebec recebe um parque de diversões e um desfile de carros coloridos e figuras fantasiadas que é contemplado pelo público das calçadas das ruas da cidade.
Diante da celebração mais contida, quando o cortejo de pernambucanos ganha as ruas, os canadenses ficam surpresos, disse o diretor do bloco Mauro Marques. “O cortejo é a parte que mais chama atenção do público pela alegria, as fantasias e pela música que ninguém conhece. No inverno, as pessoas estão acostumadas a ficar dentro das casas, no aquecimento, e de repente vem um grupo de 400 pessoas andando na rua e cantando. Aquilo para eles é uma coisa fora do normal”.
A contadora Andreia Medeiros chegou a Quebec em 2017 como estudante. Vive com os dois filhos e o marido. Ela conta que conheceu o Galo na Neve incentivada pelo pai, folião inveterado, que ao visitá-la se viu inconformado de perder o Galo da Madrugada. Foi através dele que ela conheceu o cortejo, estabelecendo uma relação de afeto.
Para Andreia, as atrações preferidas do bloco “são as comidinhas, as músicas e o frevo”. “Até O Conde e a banda Só brega tocaram. É realmente trazer as nossas raízes para a terra gelada”. O Conde Só Brega é um cantor de brega de Pernambuco que mantém a tradição do brega romântico no estado. Hoje, em Pernambuco, o tecnobrega é outra vertente que vem ganhando ênfase no estado.
A filha de Andreia nasceu no Canadá, por isso, não conhece a cultura brasileira. “A experiência que ela tem com a cultura de Pernambuco é do Galo na Neve, uma festa que vive o carnaval, em um único dia, de forma intensa, com pernambucanos. Quando tem circuito ao ar livre, é muito emocionante. Sou muito grata por ter o Galo na Neve. Na pandemia foi muito difícil, pois ficar vendo [os desfiles] pela televisão não é a mesma coisa”, disse.
Gustavo de Assis chegou ao Canadá com apenas cinco anos de idade. Veio com os pais, profissionais da área de tecnologia da informação que buscavam melhores propostas de emprego. Hoje, com 24 anos, graduando em administração, ele conheceu o Galo na Neve através da namorada pernambucana. Mesmo morando no Brasil, ele conta que só conheceu a cultura de Pernambuco no Canadá, por meio do bloco. “Quem diria que eu estaria em uma pequena cidade do Canadá, em um bloco de carnaval pernambucano, sendo que eu mal conheço a cultura do Brasil. Eu sou curitibano, mas vim muito cedo para o Canadá e mal conheço o carnaval do Brasil”.

Curiosos com a sonoridade e alegria dos brasileiros, canadenses saem às portas para acompanhar desfile
Tiago Mendonça
Trabalho intenso antes da folia
Realizar uma festa de carnaval em Quebec é duas vezes mais trabalhoso que no Brasil, segundo Mauro, diretor do Galo na Neve. São diversas tratativas com o governo local. É preciso comprovar que o espaço comporta o público previsto e se tem segurança. Deve-se obter autorização para botar o bloco nas ruas e respeitar a proibição de consumo de bebida alcoólica nas ruas. O consumo de bebida é permitido apenas no ambiente interno. “Você tem que ter um seguro para o caso de acontecer algum acidente, tudo tem que estar coberto por este seguro”, explica Mauro.
Para dar conta dessas questões burocráticas, que envolvem custos, os organizadores criaram uma instituição sem fins lucrativos e cobram um ingresso para quem for acompanhar a festa no ambiente interno. “As pessoas podem seguir o cortejo gratuitamente. Mas o acesso aos shows no ambiente fechado é por meio da compra de ingressos. Este recurso é usado para pagar os artistas locais, quase sempre, brasileiros. Apenas os Maracatus contam com a presença de alguns canadenses”.
Gustavo conta que, por ter vivido praticamente toda a vida no Canadá, possui mais amigos nativos do que brasileiros. O Galo na Neve, ainda segundo ele, lhe rendeu a oportunidade de perceber a importância de reviver as memórias afetivas ligadas ao Brasil e de reencontrar as raízes. “É muita sorte ter isso aqui. Faz bem até para a mente, pois aqui, no inverno, os dias escurecem rápido e o sol nasce tarde, faz bastante frio.
























