Dica de leitura: Nicolelis faz ficção com crítica afiada sobre big techs e ‘bankgangsters’
Em ‘Nada Mais Será Como Antes’, seu primeiro romance, neurocientista fala de ciência, política, história e muda nossa forma de ver o Sol
Janeiro é mês de férias e uma das boas opções para fazer um “detox” das telas sem deixar de estar antenado com os temas da atualidade é um mergulho em Nada Mais Será Como Antes (Planeta, 2024), primeiro livro de ficção científica do neurocientista Miguel Nicolelis. O romance ensina ciência, política e história e traz uma crítica afiada contra o poder desmedido das big techs e do sistema financeiro.
O primeiro quarto do Século 21, que termina nesta quarta-feira (31/12), foi marcado por uma revolução tecnológica que transformou nossa forma de estar no mundo, tornando o antes possível somente nas páginas da ficção científica, uma realidade concreta e cotidiana.
O que poderia ser um salto civilizatório, no entanto, encontra-se capturado pela lógica das grandes corporações que não só permitem, como incentivam no novo ambiente de interação humana seja despejada uma carga de mentiras, negacionismo, revisionismo histórico, racismo, misoginia e teorias da conspiração.
O resultado disso é a emergência de lideranças autoritárias, sobretudo na maior potência mundial, que não à toa defendem, ferrenhamente, os interesses dessas mesmas corporações. Enquanto isso, o planeta se debate frente a escalada de uma economia ilógica e cada vez mais predatória.
É a partir deste cenário, às vésperas de 2026, que a ficção de Nicolelis, professor emérito da Universidade Duke (EUA), nos convida a imaginar o que seria (ou será) daqui a dez anos, caso esse verdadeiro ataque aos valores civilizatórios não encontre os freios necessários.
Escrito ao longo de cinco anos, incluindo todo o período da Covid-19, o romance costura teorias cientificas de ponta e grandes momentos da história da civilização humana, e nos presenteia com um repertório de referências literárias, artísticas, musicais e até gastronômicas, de um dos cientistas mais queridos do Brasil.
O resultado é uma crítica divertida e afiada da tragédia humana contemporânea, com tiradas, como a nomenclatura do poderoso BARI, o Banco para Acordos e Rapina Internacional, gerida por seus “bankgansters” e “overlords”.
O livro ganhará uma adaptação ao cinema, mas que não deve chegar às salas de cinema antes de 2027. É uma excelente dica de leitura para as férias já em 2026.

Nada Mais Será Como Antes é a primeira ficção científica de Miguel Nicolelis
Campus Party Brasil / Wikipedia Commons
Justiça de Aten
A ficção científica do professor Nicolelis certamente fará com que os leitores nunca mais vejam o Sol da mesma maneira. A trama ocorre em 2036, às vésperas de uma tempestade geomagnética decorrente de uma explosão da superfície solar. A inspiração vem de um fenômeno real, ocorrido em 1859, o chamado “Evento Carrington” e previsto de ocorrer novamente daqui a uma década.
Tornando “o soluço solar” ocorrido no passado muito mais potente e em escala planetária, a ficção acena para a total vulnerabilidade do ambiente virtual frente aos humores solares. O impacto ocorre em 1º. de fevereiro de 2036, quando “o Atlântico Norte mergulhou em um silêncio absoluto. Nenhum satélite, nenhum rádio, nenhuma transmissão restaram. O mundo digital, no qual bilhões dependiam para viver, simplesmente desapareceu”.
Em consequência, “a vida social on-line, que passara a dominar a rotina humana três décadas antes, foi simplesmente amputada sem anestesia, compaixão e remorso”. Nesse colapso súbito, acompanhamos a rotina de um dos Overlords, assim denominados os “bankgansgters” e bilionários da tecnologia, das armas e do petróleo, os “big4”.
Entre eles está Dr. Banker Terceiro, o diretor todo poderoso do BARI, que só acorda para a realidade debaixo de uma ducha gelada em sua mansão, em pleno inverno, de uma Suíça totalmente desprovida de eletricidade. São particularmente hilárias as páginas que descrevem o desespero deste 0,01%, incluindo o dono da META, visto alguns anos depois sem um tostão pelas ruas do Vale do Silício.
O narrador, ácido e comicamente opinativo, também dá o contexto do que pode acontecer na próxima década caso o descontrole absoluto da ganância – que gera dopamina nos poderosos, adverte o neurocientista – não encontre barreiras, como vemos ocorrer, por exemplo, nos ataques contínuos do presidente norte-americano Donald Trump a qualquer tentativa de regulamentação das grandes corporações tecnológicas.
Ao construir esse mundo, Nicolelis articula várias referências de episódios recentes – incluindo a crise financeira de 2008, a pandemia da Covid, a ascensão da extrema direita – a teorias científicas de ponta, explicadas em linguagem e formato da ficção científica.
Suas referências? Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Kurt Vonneguto, “Perdidos no Espaço” e, naturalmente, “Jornada nas Estrelas” (Star Trek), outra forte recomendação de Opera Mundi após o livro, em particular, a Enterprise sob o comando do capitão Picard, embora o neurocientista cite a nave liderada pelo capitão Kirk, que conta em sua tripulação com o oficial de ciências, metade humano e metade vulcano, Dr. Spock.
Rumo a 2036
Como boa ficção científica, “Nada Mais Será Como Antes” parte da realidade, apontando as decisões políticas das últimas três décadas para construir um cenário onde quase 9 bilhões de seres humanos vivem em um regime de “opressão silenciosa” sob a batuta dos Overlords, embalada nas mentiras dos “evangelistas digitais” que difundem uma ideologia tecnológica fundamentalista.
Por meio de uma sofisticada máquina de propaganda, a humanidade perdeu a fé em sua capacidade decisória e a entregou aos “algoritmos digitais, criados para erradicar qualquer vestígio do livre-arbítrio”. Neste mundo, a automação reina e o desemprego chega atingir 80% da população em alguns países, substituindo trabalhadores por máquinas anunciadas como muito mais inteligentes e eficientes.
A democracia, o debate público e a construção coletiva da realidade “tornaram-se um artefato do passado”. Os governos já estão sob o controle do deus mercado e a capacidade de resistência acabou neutralizada por algoritmos que “se tornaram mais rápidos do que a própria capacidade humana de reflexão”, instaurando um poder invisível “que toma decisões em frações de segundo, muito antes de qualquer pessoa pudesse questioná-las”.
Nesse período de uma década, a segmentação em curso dos grupos humanos escala: as pessoas vivem “dentro de uma bolha cognitiva perfeita”, onde tudo o que é visto, ouvido ou sentido é “moldado para reforçar crenças pré-existentes”. O resultado é que “a verdade se fragmentou em milhares de narrativas conflitantes, e nenhuma delas precisava mais corresponder aos fatos”.
Preparado o terreno dessa verdadeira “penitência digital fundamentalista”, os Overlords planejam um novo passo para tomar de vez o livre-arbítrio e coibir qualquer possibilidade de resistência. Este plano, anunciado já no primeiro capítulo, por Banker Terceiro, será descoberto dias antes da tempestade solar derreter o mundo virtual, por um gênio da Matemática, o egípcio Omar Cicurel, e sua sobrinha não menos genial, a neurocientista Tosca Cohen.
Unidos pela Brainet
Juntos, Omar e Tosca tentarão impedir esse plano e é através de uma conversa calorosa, em linguagem afetiva, que o romance esmiúça complexas teorias científicas, analisa episódios geopolíticos e descreve grandes momentos históricos, enquanto o narrador torna ainda mais didáticas as informações.
Entre essas teorias está da Brainet, ou rede de cérebros, desenvolvida por Nicolelis, a partir dos seus estudos sobre a sincronização das atividades elétricas dos cérebros de humanos e animais, inclusive, intraespécie. Essa teoria está acessível nas obras “O Verdadeiro Criador de Tudo” (Planeta, 2020) e “Muito Além do Nosso Eu” (Planeta, nova edição em 2025).
Ao estudar o fenômeno empiricamente com animais e observando grupos humanos, ele observou não apenas que o cérebro humano é extremamente suscetível a se sincronizar com outros cérebros, como propôs uma forma de criar uma brainet, uma rede de cérebros, voltada à colaboração conjunta de grupos humanos em torno de tarefas cooperativas. Essa comunicação é realizada por meio da conexão entre mente e máquina (computador) e transmitida para usuários conectados neste sistema.
“Nada mais será como antes” nos permite compreender e visualizar as potencialidades dessa rede telepática. Tosca explica que a sincronização é um fenômeno natural e fundamental à sobrevivência da espécie. Cada agrupamento humano ou animal – de cardumes de peixes a um time de futebol – naturalmente cria essa rede compartilhada de cérebros, havendo múltiplas brainets conforme interesses comuns.
Na obra, Tosca, com a tecnologia de que dispõe este futuro, desenvolve um equipamento portátil capaz de medir e estimular essa interação, permitindo a criação de redes cerebrais com usuários conectados em um sistema computacional. Daí o interesse dos Overlords em roubar essa tecnologia para criar a sua própria rede, interferindo nas decisões financeiras dos grandes Bancos Centrais pelo mundo afora e de cada um dos habitantes do planeta.
Tosca e seu tio, no entanto, farão de tudo para impedir que isso aconteça. Neste processo, eles experimentarão a tecnologia e durante uma série de sonhos que, inexplicavelmente, passam a viver em comum, eles mergulham nas emoções humanas em diferentes momentos históricos, seja no Egito de Ramsés II, na Biblioteca de Alexandria, nas grandes guerras do Século 20.
Aos poucos, no entanto, eles percebem que esses sonhos parecem dirigidos e o mistério vai crescendo, capítulo após capítulo, levando-os a outra compreensão da tempestade solar e da destruição de toda a tecnologia contemporânea criada pela humanidade. A revelação ocorre no último capítulo que traz uma bela reflexão sobre a civilização humana.
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