‘Ditadura não acabou nas favelas’, afirmam diretoras de documentário sobre invasão da Maré
‘Cheiro de Diesel’ estreia nesta quinta (02) após 12 anos do episódio que evidenciou violações e traumas das ocupações militares no Rio de Janeiro
Na semana que se completam os 12 anos desde a invasão das Forças Armadas na Favela da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, e também os 62 anos do golpe militar, estreia nesta quinta-feira (02/04) o documentário Cheiro de Diesel. Dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, o longa, que venceu dois prêmios no Festival do Rio, chega ao cinema brasileiro com o objetivo de denunciar as violações de direitos humanos que seguem sendo cometidas pelo Estado em áreas periféricas.
“O grande recado é dizer que a ditadura não acabou nas favelas”, disse Martins, jornalista comunitária da Maré, a Opera Mundi. “Quando o exército invadiu a Maré há 12 anos, ele escolheu essa data. Não foi por acaso. Tudo neles é com muita inteligência. A tortura não foi porque eles são despreparados. Eles não alvejaram os carros porque eram despreparados. O exército tem uma inteligência e eles estão bem armados”.
O documentário se debruça sobre as ocupações de favelas e morros do Rio pelas Forças Armadas, por meio de decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLOs). Entre 2014 e 2015, e novamente entre 2017 e 2018, as comunidades locais vivenciaram uma rotina cercada de tanques de guerra nas ruas, de revistas arbitrárias, de invasões e de episódios de tortura.
E o motivo do título Cheiro de Diesel? No longa, o morador Vítor Santiago relata que teve o carro alvejado e foi baleado por dois tiros de fuzil disparados por um cabo do Exército em meio às operações. Em seguida, a vítima foi levada ao hospital dentro de um tanque. Santiago apenas se lembra do odor do combustível.
“Cheiro de Diesel remete ao cheiro que os 140 mil moradores da Maré sentiram durante um ano e três meses com a presença das Forças Armadas”, explicou a cineasta Neri. “A gente trabalha com o âmbito dos traumas, dos efeitos psicológicos e da sensorialidade. Como representar a militarização a partir dos aspectos psíquicos e sensoriais dessas memórias?”
Um dos depoimentos mais marcantes no documentário expõe um caso de tortura cometido contra moradores da Penha em uma “sala vermelha” dentro de um quartel do Exército. As diretoras destacam que a impunidade a esses crimes é fruto de uma estrutura jurídica que se mantém desde a ditadura militar.
“Em 2017, o então presidente Michel Temer aprovou uma lei que transferiu todos os crimes praticados pelas Forças Armadas para a justiça militar, inclusive os homicídios”, afirmou Neri. “O arcabouço jurídico atual permite que os crimes praticados por agentes das Forças Armadas sigam impunes, assim como foram na ditadura. Só que com o agravamento de que, a qualquer momento, a partir de um decreto presidencial, a gente pode ter uma nova GLO”.
Por sua vez, Martins reforçou que a censura imposta à imprensa comunitária, a única cobrindo as violações nas áreas periféricas durante as ocupações, é estratégica. “Eu só fui entender o que era autocensura quando comecei a narrar as violações do exército em 2014, quando ele invadiu a Maré. Quando o exército revistava minha casa, meu celular, meu computador. Isso é uma estratégia de militarização da vida e do território. De manter controlada a narrativa, a vida e a cultura”, disse.

Documentário ‘Cheiro de Diesel’ chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (02/04)
Divulgação/Sinny Assessoria e Comunicação
Libertação da Palestina é libertação do Sul Global
Cheiro de Diesel também conversa sobre o genocídio perpetrado pelo Estado de Israel nos territórios palestinos quando retrata a violência estatal e as ocupações nas favelas. Gizele Martins, que esteve na Palestina duas vezes, destacou uma conexão direta entre os dois cenários: os equipamentos bélicos utilizados nas operações no Rio são os mesmos que assassinam civis em Gaza.
“Os caveirões que circulam as favelas, os tanques, as munições, os helicópteros são israelenses. Assim como os palestinos conectam isso ao genocídio indígena na América Latina e ao genocídio negro no Brasil, a gente também se conecta em campanhas e em planejamentos de luta, e de sonho para uma nova democracia e pela libertação dos nossos povos”, afirmou Martins.
“Gaza é hoje o maior laboratório de morte do mundo. A libertação da Palestina é a libertação do Sul Global, das periferias do Sul Global, porque as armas que estão matando lá estão matando em todo o Sul Global”, acrescentou.
Visibilidade
A estreia de Cheiro de Diesel nesta quinta-feira reacende o debate sobre o papel das Forças Armadas no Brasil e sobre a herança do golpe militar. A data está inserida entre o aniversário do início da ditadura, em 1º de abril de 1964, e o marco da invasão da Maré, 5 de abril de 2014.
“A gente quer chamar a atenção para os 62 anos do golpe militar e os 12 anos da invasão da Maré, para que não se esqueça, para que não aconteça novamente, para que haja justiça e reparação para as vítimas das Forças Armadas na democracia”, enfatizou Natasha Neri.
Com o respaldo do Prêmio Especial do Júri e do prêmio de Melhor Documentário pelo Voto Popular no Festival do Rio, as diretoras afirmaram a Opera Mundi esperar que o filme alcance um público que, muitas vezes, tem seu acesso limitado à realidade das favelas devido à filtração da cobertura midiática hegemônica.
“A gente fez esse filme para dar visibilidade ao que acontece nas favelas, mas não é visto ou não quer ser visto pela maioria da população”, concluiu a cineasta.























