Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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À medida que o sol se põe sobre o campo de refugiados Aman 1, em Gaza, as crianças se reúnem em torno de um cinema improvisado. Por duas horas, os escombros atrás da tela desaparecem de vista, e um filme traz de volta lembranças de uma vida antes da guerra.

A tela brilhava contra as ruínas cinzentas enquanto as crianças se acomodavam no chão. Algumas se sentavam na terra; outras encontravam um lugar entre as pilhas de escombros atrás do cinema improvisado. À medida que a luz do entardecer desaparecia sobre o campo, os rostos das crianças eram iluminados pelas imagens em movimento à sua frente.

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Por quase duas horas, a destruição ao redor pareceu desaparecer. Na tela, passava Ratatouille, a história animada de Remy, um rato que sonha em se tornar chef. Ao redor, cerca de 100 crianças riam, cantavam e assistiam atentamente.

Ao lado delas havia barracas, escombros e os restos de uma cidade cujas crianças passaram anos de suas vidas cercadas pela guerra de Israel contra o enclave palestino.

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Opera Mundi acompanhou a exibição aconteceu no campo Aman 1 (cujo nome, em árabe, significa segurança) como parte do projeto Little Wings Cinema, uma iniciativa da Fundação Masharawi que leva filmes e atividades de entretenimento a crianças deslocadas em toda a Faixa de Gaza.

A ideia é simples: criar um espaço temporário onde as crianças possam rir, desenhar, dançar e assistir a filmes. Mas, em Gaza, onde eletricidade, acesso à internet, telefones e espaços seguros para brincar se tornaram escassos por conta do cerco israelense, até mesmo algo tão comum como assistir a um filme se tornou uma forma de fuga.

exibição de filme infantil em Gaza
Projeto exibe filmes infantis em campos de refugiados no enclave palestino
Omar Ashtawy

“Esqueci a guerra”

Maria al-Yazji, de 12 anos, estava entre as crianças que assistiram ao filme naquela noite. “Fiquei feliz com a festa, as músicas, o desenho e o filme”, disse ela. O momento que mais a fez rir foi quando o rato fugiu. Seu personagem favorito foi Gusteau.

Mas o que ficou na memória dela não foi apenas a história na tela. “Enquanto assistia ao filme, senti como se estivesse de volta aos dias antes da guerra. Eu costumava assistir a desenhos animados em casa. Isso me lembrou de como a gente se sentava junto e assistia a filmes no telefone.”

Antes da guerra, assistir a um desenho animado podia ser uma parte comum da noite de uma criança. Hoje, em Gaza, isso pode exigir um evento organizado, um projetor, um gerador e uma equipe disposta a transportar o equipamento por um território devastado.

Maria participou de outra exibição no campo uma semana antes, quando assistiu a O Rei Leão. Ela esperava que houvesse mais. “Quero muito assistir a Cinderela se houver mais exibições de filmes”, disse ela.

“As crianças ficam felizes com esses filmes e exibições. Não temos celulares para assistir a filmes, e não há eletricidade.”

Uma infância reduzida à sobrevivência

Najah al-Shurafa, de 10 anos, também assistiu ao filme com atenção. Seu personagem favorito era o rato, que a fez rir. “Me senti feliz hoje enquanto assistia ao filme”, disse ela.

Era a primeira vez que ela assistia a um filme havia muito tempo. Apesar da destruição ao seu redor, disse que as crianças encontraram um lugar para se sentar juntas e assistir a algo. “Apesar da destruição, hoje nos divertimos e encontramos um lugar legal onde pudemos sentar e assistir a um filme.”

À reportagem, Najah disse que depois voltaria para sua barraca e dormiria.

Já Maslama al-Absi, de 11 anos, teve uma experiência semelhante. “Gostei do filme de hoje. Pintaram nossos rostos, nos divertimos e cantamos. Quando assisti ao filme, esqueci a guerra e a destruição. Fiquei absorto no filme e me lembrei um pouco dos velhos tempos, quando costumava assistir a filmes.”

Antes da guerra, explicou ele, sua família assistia a filmes no celular em casa. Mas, infelizmente, “agora não podemos assistir a filmes nas barracas porque não temos aparelhos nem internet”. Sua escolha para uma exibição futura? Tom e Jerry.

exibição de filme infantil em Gaza
Filme exibido no campo Aman 1 foi ‘Ratatouille’
Huda Shaik

Recriando um espaço para a infância

Para Asmaa Dababesh, artista visual que faz parte da equipe do Little Wings Cinema, as exibições significam muito mais do que entretenimento. “São uma tentativa de devolver às crianças um pouco da infância que lhes foi roubada.”

Antes da guerra, explicou ela, as crianças em Gaza tinham rotinas comuns, familiares às crianças de outros lugares: acordar, assistir à televisão, usar o celular, jogar e ir ao cinema ou a espaços culturais.

Gaza tinha cinemas e espaços de exibição. As crianças podiam segurar um celular, jogar ou assistir a um desenho animado sem que isso fosse considerado um evento especial.

A guerra de Israel destruiu grande parte da infraestrutura que sustentava essa vida cotidiana. As crianças que vivem em campos de refugiados agora enfrentam uma rotina diferente.

Seus dias são marcados pela busca por água, pela ajuda às famílias e pela necessidade de lidar com questões básicas de sobrevivência.

“A infância delas nos campos está atualmente reduzida”, disse Dababesh. A ideia do Little Wings Cinema surgiu ao testemunhar essa realidade.

“Vimos crianças sentadas em barracas sem eletricidade, sem tela e nem mesmo brinquedos para brincar. Vimos o medo em seus olhos e nos perguntamos: por que não organizamos esses encontros para as crianças e exibimos um filme divertido para que possam rir e esquecer um pouco da dor que viveram durante a guerra?”, disse.

O projeto é voltado para crianças de três a 12 anos e não possui um local fixo. Em vez disso, a equipe viaja para campos de refugiados por toda a Faixa de Gaza. Antes de cada exibição, os organizadores conversam com os administradores do campo e perguntam às crianças o que elas querem assistir. No Aman 1, elas escolheram “Ratatouille”.

O filme é apenas uma parte do evento. A equipe pinta o rosto das crianças, organiza canções e atividades interativas e inclui a dança palestina dabke, em um esforço para criar uma atmosfera festiva antes do início da exibição.

O objetivo é transportar as crianças, mesmo que temporariamente, da destruição para um espaço de imaginação.

Cinema sob cerco

Organizar um cinema em Gaza é, por si só, uma operação logística árdua. Yafa al-Masharawi, coordenadora de projetos da Fundação Masharawi em Gaza, disse que a equipe enfrentou grandes dificuldades para obter e manter projetores e equipamentos de som.

Alguns equipamentos tiveram que ser comprados a preços altos por causa do bloqueio, enquanto outros foram reparados e mantidos com o que estava disponível localmente. Além disso, há a questão da eletricidade.

Gaza não conta com um fornecimento seguro de eletricidade, o que obriga os organizadores a depender de geradores e energia solar. A escassez de combustível pode interromper as exibições, enquanto o transporte de equipamentos de um local para outro acrescenta mais uma dificuldade.

A segurança é uma preocupação ainda maior. Já houve ocasiões em que as exibições tiveram que ser canceladas devido a ataques nas proximidades. Em outras, a equipe já estava no local quando ocorreram os ataques.

Al-Masharawi relembrou uma exibição perto de Yarmouk e um evento anterior no Centro Cultural Rashad al-Shawa, onde ocorreu um ataque nas proximidades.

O clima cria outro obstáculo. Durante o inverno, há poucos locais adequados para realizar exibições ao ar livre, enquanto a chuva pode dificultar a acomodação das crianças e colocar em risco equipamentos caros.

A equipe, portanto, precisa considerar diversas questões antes de cada evento: o local é seguro o suficiente para as crianças? Há espaço suficiente para elas se sentarem? O equipamento pode ser transportado até lá? Haverá energia suficiente para operar o projetor? Um gerador móvel pode resolver o último problema. Os outros são mais difíceis.

Apesar desses desafios, as exibições continuam. A equipe afirma que seus eventos são realizados regularmente e que espera alcançar crianças em todo o norte e sul de Gaza.

Para Dababesh, as reações das crianças ao final de cada exibição são a prova de que o projeto alcançou algo. “Elas correm atrás de nós e dizem: ‘não, fiquem. Queremos outro filme. Quando vocês vão voltar para nos mostrar outro filme?’”

Para ela, essa reação é tão importante quanto a exibição em si. “É a prova de que deixamos um impacto nas crianças.”

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