Festival de Havana: ‘O Agente Secreto’ lidera premiação ao lado do cinema colombiano
Dirigido por Simón Mesa Soto, longa 'Um Poeta' venceu principal prêmio do evento; obra de Kleber Mendonça Filho conquistou cinco Corais
O cinema do Brasil e da Colômbia ocupou lugar de destaque na 46ª edição do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, ao conquistar os principais prêmios concedidos pelo júri e confirmar a solidez de ambas as cinematografias no panorama regional.
Os filmes O Agente Secreto, do cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, e Um Poeta, do colombiano Simón Mesa Soto, foram os grandes protagonistas da lista de vencedores. A cerimônia de premiação foi realizada no emblemático cinema Charles Chaplin, no bairro do Vedado, em Havana, e reuniu cineastas, críticos e representantes de instituições culturais de diversos países.
O Agente Secreto conquistou cinco Prêmios Coral, entre eles os de Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte, além de reconhecimentos em Montagem e Música Original. Ambientado na década de 1970, o filme narra o retorno de um professor universitário ao Recife para reencontrar seu filho mais novo, em pleno contexto da ditadura militar brasileira. Protagonizado por Wagner Moura, o longa tem recebido expressiva acolhida internacional e desponta como uma das produções mais relevantes do cinema latino-americano recente.
O Coral de Melhor Longa-Metragem de Ficção, principal prêmio do festival, foi concedido a Um Poeta, dirigido por Simón Mesa Soto. O filme é uma comédia dramática que acompanha a vida de Óscar Restrepo, interpretado por Ubeimar Ríos, um homem que, na juventude, foi considerado uma promessa da poesia, mas cuja vida adulta fica presa a uma rotina de “fracassos”, marcada pelo desencanto e pela frustração.
A atuação monumental de Ubeimar Ríos — que não é ator profissional, mas professor e poeta na vida real — foi reconhecida com o Coral de Melhor Atuação Masculina. Um Poeta recebeu ainda outros importantes prêmios, entre eles o Prêmio Dom Quixote da Federação Internacional de Cineclubes e o Prêmio SIGNIS, reafirmando seu impacto artístico e social.

O cinema do Brasil e da Colômbia ocupou lugar de destaque na 46ª edição do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana
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Na categoria Ópera Prima, o Coral foi concedido a O Olhar Misterioso do Flamingo, estreia em longa-metragem do cineasta chileno Diego Céspedes. O filme apresenta uma história comovente e dilacerante, ambientada na década de 1980, durante os primeiros anos da disseminação do HIV. O enredo acompanha Lidia, uma menina de onze anos que cresce em uma família queer rejeitada por seu entorno e expulsa para uma cidade mineradora, acusada de propagar “a peste”. Trata-se de uma narrativa sobre discriminação e violência social, mas também sobre amor, cuidado e resistência comunitária.
Na categoria de Melhor Documentário, o prêmio foi para O Príncipe de Nanawa, da cineasta argentina Clarisa Navas. A obra acompanha, ao longo de uma década, a vida de Ángel, um menino que cresce na fronteira entre a Argentina e o Paraguai, documentando sua passagem da infância para a adolescência. O júri também concedeu menções especiais a produções de Cuba, Panamá e Colômbia.
Entre os reconhecimentos especiais, o filme argentino Belén, dirigido por Dolores Fonzi e baseado na história real de uma mulher encarcerada após um aborto espontâneo, recebeu o Prêmio Glauber Rocha. A distinção, concedida pela Agência de Informação Latino-Americana Prensa Latina e criada em 1985, reconheceu, ao longo de quatro décadas, figuras e obras centrais do cinema latino-americano. Nesta edição, o prêmio contou, pela primeira vez, com a participação do Brasil de Fato.
Da mesma forma, o festival concedeu o Prêmio Coral de Honra ao ator mexicano Gael García Bernal, em reconhecimento à sua trajetória artística e à sua contribuição para o cinema latino-americano. Durante a cerimônia, García Bernal, que estudou cinema na Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, destacou o valor do festival como espaço de integração cultural e artística da região.
“Fico muito emocionado por estarmos realizando todas essas iniciativas para nos unirmos mais, estarmos mais próximos e falar de um cinema latino-americano que sempre manifestei como parte da minha vida artística e espiritual. Quero agradecer a toda Cuba, que tanto me deu. Muitas das coisas que recebi eu carrego em um segredo profundo, que sempre vem à tona”, declarou o ator.























