Segunda-feira, 8 de junho de 2026
APOIE
Menu

Premiado como melhor filme no festival É Tudo Verdade e destaque no circuito internacional de documentários, Copan chega aos cinemas nesta quinta-feira (28/05) com uma imersão no emblemático edifício projetado por Oscar Niemeyer.

No filme, o prédio símbolo da cidade de São Paulo é apresentado por um olhar observacional que adentra suas entranhas, como um raio-x que nada esconde. Com um acesso raro aos seus bastidores, a diretora Carine Wallauer cria um retrato bastante particular do maior condomínio residencial da América Latina, no qual viveu por sete anos. A partir dessa sua relação íntima com o espaço, Wallauer traz para a película a experiência sensorial de morar no prédio. “O meu objetivo principal com o Copan era trazer aspectos mais emocionais, sensíveis, subjetivos e oníricos do prédio. Aquilo que a gente sente como morador, como trabalhador lá dentro. […] esse prédio funciona como um organismo vivo. Ele pulsa, você põe a mão e sente uma vibração. Eu quis trazer isso para a experiência fílmica”, conta a diretora em entrevista exclusiva para Opera Mundi.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!
Funcionário toca o hino nacional no violino. <br> (Foto: divulgação)

Funcionário toca o hino nacional no violino.
(Foto: divulgação)

No filme, este espaço físico é permeado por tensões políticas, expressas no microcosmos da eleição de síndico e no âmbito maior da eleição presidencial. Nesse contexto, as disputas de poder se espelham e geram embates recorrentes no cotidiano dos moradores e funcionários, consequência de polarizações bem demarcadas no espaço coletivo.

Mais lidas

“Eu vi que seria uma boa oportunidade de falar sobre como a democracia se dá, como a política se dá dentro de um uma estrutura de condomínio e de país. Como a nossa participação e o modo como a gente se coloca politicamente no mundo interferem no modo como a gente fala com o vizinho. O resultado dessa eleição me afeta diretamente, pois moro naquele prédio. Mas a eleição presidencial também me afeta, porque moro nesse país.”, afirma a diretora.

Confira abaixo a entrevista completa com Carine Wallauer.

Cartaz de Copan. <br> (Foto: divulgação)

Cartaz de Copan.
(Foto: divulgação)

No filme você fala que você morou no Copan durante sete anos, mas de onde surgiu seu interesse pelo prédio?

Eu sou do Rio Grande do Sul, de uma cidade de médio porte, chamada Novo Hamburgo. Venho de uma família da classe trabalhadora do serviço. Minha mãe era empregada doméstica. Meu pai faleceu recentemente, mas ele sempre trabalhou com serviço também. Eu trabalhei em shopping muitos anos e foi quando eu pedi demissão e vim visitar uma amiga aqui em São Paulo que eu conheci o Copan.

Então eu não venho de um lugar onde a gente discute arquitetura em casa. Não discutia arte, então não tinha esse repertório. O Copan me chamou a atenção pela sua magnitude mesmo. Eu estava andando na rua, olhei para esse prédio e pensei “o que é isso”? Mexeu comigo. E uns dois ou três meses depois eu consegui um trabalho em São Paulo, me mudei para a cidade e fui morar no Copan. Isso foi em 2017.

Eu já morava no Copan há dois anos quando essa ideia de fazer um filme começou a se desenvolver em mim. Então eu já tinha boas relações estabelecidas no prédio. Como eu me mudei sozinha, sem minha família, e não tinha uma rede formada de amigos em São Paulo ainda, essas pessoas ficaram muito próximas de mim, especialmente os funcionários do prédio, que eram as pessoas que eu via todos os dias.

Então esse acesso também facilitou bastante a criação de confiança que esse documentário, com esse perfil intimista, precisa. Fiquei cinco anos filmando essas pessoas, o que demanda uma proximidade que já vinha sendo construída antes de eu pensar em fazer um filme.

A sua intimidade não é só com as pessoas, mas também com o prédio. Alguns espaços que você mostra são bastante restritos e só temos acesso por meio do filme, como os apartamentos, áreas dos funcionários e até a assembleia de condomínio. Como você conseguiu esses acessos? Quais foram as dificuldades nesse processo? Teve algum espaço físico ou simbólico que você não conseguiu entrar?

Tudo que eu imaginei de acesso eu consegui e ainda além. Houve realmente uma confiança muito grande por parte do Seu Afonso, que foi síndico do prédio por décadas, até falecer, agora em dezembro. E confiança também dos funcionários, especialmente. A gente acabou estabelecendo uma relação tão forte que muitas coisas foram acontecendo por conta deles, por informações que eles me traziam.

A maior dificuldade que a gente teve foi, na verdade, em encontrar eleitores de Bolsonaro que aceitassem participar do filme naquela época, porque havia uma situação de polaridade, que inclusive o filme traz bastante. E eles sabiam que eu era uma pessoa de esquerda. Era um pouco mais difícil, mas também nunca foi um grande problema. A gente sempre encontra pessoas abertas a conversar. Eu tenho uma postura muito curiosa, muito empática e muito aberta. Então eu gosto de conversar, inclusive com pessoas que votam no Bolsonaro, para entender um pouco mais como essas dinâmicas se dão.

E também o filme se propõe a discutir isso de uma forma muito desprovida de hierarquia nesse sentido. Não coloca a esquerda como superior à direita. Eu acho que ele trata com respeito ambos os lados para a gente tentar chegar numa discussão produtiva.

O filme constrói algumas tensões, tanto em relação às eleições presidenciais, como em relação às eleições de síndico. As duas eleições aconteceram no mesmo momento? Esse paralelo entre elas estava colocado naquele contexto ou foi uma análise sua que apontou esse espelhamento?

Elas não aconteceram ao mesmo tempo. A eleição para síndico aconteceu em 2021 ou 2020, ainda no pico da pandemia, e ela me pegou de surpresa. Eu pude participar da assembleia, porque eu era moradora.

E, não sabendo o que ia acontecer, decidi filmar de qualquer forma, como possibilidade de uso. No documentário tem muito isso. Você filma para ver se rende; melhor ter do que não ter. Então filmei essa assembleia para eleição de síndico, que durou 9 horas. Foram 9 horas de muita tensão. A polícia veio. Foi um grande barraco. Foi uma coisa super tensa que eu nunca imaginaria. A minha imaginação de cineasta não ousaria ir tão longe quanto foi essa essa assembleia. Mas foi um momento muito interessante para entender melhor essa dinâmica de poder que se dá dentro do prédio.

Foram cinco anos que a gente ficou filmando, então, em determinado momento também aconteceu a eleição presidencial. Eu ouvia os funcionários, principalmente, dialogando muito sobre quem eles iam votar, via movimentações de pessoas pró Bolsonaro e pró Lula dentro do prédio, nos bares, nos restaurantes, tinham manifestações acontecendo…

E eu vi que seria uma boa oportunidade de falar sobre como a democracia se dá, com a política se dá dentro de um uma estrutura de condomínio e de país. Como a nossa participação e o modo como a gente se coloca politicamente no mundo interferem no modo como a gente fala com o vizinho. O resultado dessa eleição me afeta diretamente, pois moro naquele prédio. Mas a eleição presidencial também me afeta, porque moro nesse país. Então, como a gente engaja de formas diferentes. Esse foi o objetivo e um grande desafio de como balancear isso dentro da estrutura do filme.

Seu Afonso, síndico do prédio por mais de três décadas. <br> (Foto: divulgação)

Seu Afonso, síndico do prédio por mais de três décadas.
(Foto: divulgação)

E como você pensou essa estrutura na montagem, com cinco anos de material gravado? Eu vi uma outra entrevista sua que você comenta que você gravou entrevistas com as pessoas e que optou por não usá-las. Pode comentar essa decisão de não incluir as entrevistas e se você pensa em fazer outros usos desse material no futuro, talvez com outro filme, por exemplo?

Eu sempre soube que eu não usaria as entrevistas nesse filme por uma uma decisão de linguagem mesmo. O meu objetivo principal com o Copan era trazer aspectos mais emocionais, sensíveis, subjetivos e oníricos do prédio. Aquilo que a gente sente como morador, como trabalhador lá dentro. Então eu via a entrevista no lugar de um documentário mais clássico, mas mais formal, que não era meu objetivo com este projeto.

Eu imagino usar essas entrevistas em outro projeto. Eu gostaria muito de fazer uma instalação artística, algo em museu, que pudesse ser uma expansão, uma extensão do longa-metragem. E inclusive o filme tem circulado muito bem em museus e já foi apresentado em museus em Montreal, em Praga, em Bruxelas, e em breve no cinema da Bienal de São Paulo. Então o filme tem esse lugar de uma possibilidade de ampliação nesse lugar das artes.

Você falou sobre a reprodução das emoções e, de fato, ao longo do filme, isso fica muito evidente. Por exemplo, tem um zumbido bastante constante e alguns planos vazios que criam uma sensação quase fantasmagórica. Um prédio que tem uma circulação absurda de tantas pessoas você representa no filme com muitos planos vazios. Você pode comentar sobre o processo de construção estética dessas emoções na linguagem cinematográfica?

A concentração de pessoas no Copan se dá muito no térreo. O térreo é muito agitado. É onde ficam as lojas, os restaurantes, esse espaço de circulação aberto a todos. Morar no Copan é uma experiência bastante silenciosa, contrariando as expectativas. Você não escuta muito os vizinhos, é um prédio muito limpo, muito organizado. Mas ele tem um uma poluição sonora constante, uma sujeirinha, um noise que está sempre ali, que é uma junção de muitos barulhos que vêm de outras partes e da estrutura do próprio prédio, que formam um som que é difícil nomear, mas que está sempre presente, e que eu tentei trazer para a película. Não há silêncio no Copan. Não há uma interferência tão grande de tumulto das pessoas, mas há um som que reverbera constantemente.

Numa das primeiras entrevistas que eu fiz com o senhor Afonso, que foi o síndico por 30 anos, ele me levou no térreo do prédio e ele encostou numa parede e falou “aqui é o coração do Copan”. Então ele também sentia como esse prédio funciona como um organismo vivo. Ele pulsa, você põe a mão e sente uma vibração.

Eu quis trazer isso para a experiência fílmica. Então é um filme documental, mas com um tratamento de pós-produção de ficção. A gente teve um design de som bastante bem realizado. A gente não só limpou as suas falas, como no documentário normalmente é feito, como também criamos atmosferas. Fizemos foley de muitas cenas, os sons foram todos recriados na pós-produção.

Eu, como diretora de fotografia, tive um cuidado estético grande nas escolhas que a gente fazia de como filmar, de como mostrar esse edifício na sua complexidade, de fugir um pouco da imagem clássica que é só fachada, de poder trazer aspectos mais profundos.

Eu tenho uma visão de mundo assim, de realidade, que é muito permeada pelo subjetivo, pelo sonho. Eu acho que tudo isso é verdade. Se eu sonho, se eu penso, se eu acredito, se eu idealizo seu desejo, isso tudo é verdade também. Isso também está acontecendo dentro de mim. Então eu achei importante trazer isso para o filme também.

Não só ser um retrato material, mas simbólico do prédio.

O Copan é bastante simbólico e é bastante presente no imaginário aqui em São Paulo. E o filme trata muito de um contexto político brasileiro. Mas o filme está circulando bastante, tanto no Brasil quanto fora, e está sendo bastante premiado. Como tem sido essa recepção do filme fora de São Paulo e fora do Brasil? Como as pessoas se conectam com ele?

Está sendo muito positivo. Eu viajei para várias sessões fora do Brasil com o apoio dos festivais e das embaixadas do Brasil fora. Tive a oportunidade de estar presente, discutir o filme depois das sessões com as pessoas desses lugares todos. E apesar de ser um filme sobre o Copan, ele expande as discussões que propõe.

Então a gente fala muito sobre democracia, dinâmicas de poder, classe social, sobre como ascender socialmente, como a pessoa que presta um serviço para você também tem subjetividade, também sonha e também cria. São aspectos da condição humana que vão ter uma correspondência em outras partes do mundo. Por exemplo, a crise democrática é um problema global. A democracia está sendo ameaçada por um constante crescimento da extrema direita, não só no Brasil.

Em muitos países, o tema da classe social também é uma questão, seja em maior ou menor escala, assim como as outras dinâmicas de poder. O machismo, por exemplo, vemos num prédio como o Copan, que não tem funcionárias, apenas homens trabalhando. E temos a figura desse líder autoritário, que faz o bem pela comunidade, mas com um certo custo. São temas que são recorrentes, mesmo que com uma roupagem um pouco diferente. Mas, com sensibilidade, você consegue fazer associações.

Então as exibições foram muito positivas, com salas cheias em todas as sessões fora do país, o que me deixou muito feliz. E não eram só brasileiros que estavam assistindo, tinham realmente pessoas locais que se interessavam, que tinham ouvido falar desse prédio, que conhecem o Niemeyer. O Brasil desperta um interesse muito grande fora daqui também. Está sendo muito positivo, estou muito feliz.

(*) Nayla Guerra é Mestranda em História Econômica (FFLCH-USP), especialista em Gestão Cultural (Senac-SP) e graduada em Audiovisual (ECA-USP). É produtora cultural na Cinemateca Brasileira e organizadora do Cine Sapatão. É autora do livro “Entre apagamentos e resistências” e diretora do filme “Ferro’s Bar”.