Segunda-feira, 20 de abril de 2026
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O Brasil vai parar no próximo domingo (15/03) para torcer por O Agente Secreto na premiação mais popular do planeta. São quatro indicações ao Oscar para um filme que inova e faz arte, desnudando a violência da opressão civil-militar, sem pestanejar na valorização dos que resistiram à ditadura.

A presença brasileira, no entanto, vai além do filmaço de Kleber Mendonça. Neste ano, o Brasil também está bem representado no deslumbrante Sonhos de Trem, com a indicação de melhor fotografia para o paulistano – e corinthiano – Adolpho Veloso.

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Recentemente, Veloso recebeu das mãos de Wagner Moura o Independent Spirit Awards, a premiação mais importante do cinema independente. Ao entregar o prêmio, o ator baiano, que também concorre ao Oscar, exaltou o papel fundamental do diretor de fotografia na sétima arte.

“Cinema é antes de tudo ‘captura de imagens’”, disse Moura, ao salientar que um grande diretor de fotografia encontra “poesia nas sombras e violência na luz”, não apenas registrando o que vemos nas telas, mas moldando “a forma como vemos, sentimos e nos lembramos” do filme.

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“Ele sabe quando se mover e quando permanecer perfeitamente imóvel. Ele entende que cada quadro é uma escolha sobre distância, sobre cor, sobre o que podemos ver e o que permanece oculto logo além da borda do quadro”, disse Moura.

É exatamente o que Veloso faz em Sonhos de Trem. A natureza captada pelo brasileiro entra em cena como protagonista absoluta em um filme marcado pela introspecção, contenção dramática e economia de diálogos.

Adolpho Veloso disputa prêmio de melhor fotografia no Oscar
Divulgação

O filme

Baseado na novela de mesmo título do romancista Denis Johnson, Sonhos de Trem conta a história do lenhador Robert Granier, que vive dos trocados que recebe ao cortar árvores e construir linhas férreas durante a expansão ferroviária dos Estados Unidos, no começo do século 20.

Granier é interpretado por Joel Edgerton que, diante de um roteiro enxuto e introspectivo, constrói sua presença cênica por meio de silêncios, gestos e expressões, interagindo o tempo todo com a natureza – ora amena, ora agressiva – como um espelho amplificador da interioridade do personagem, em uma narrativa paciente desenvolvida pelo diretor Clint Bentley.

A simbiose é tamanha que é impossível delimitar se são as emoções do personagem que transbordam na paisagem ou se é a força da natureza que incide sobre o lenhador.

A emoção que predomina é a solidão, interrompida por momentos de felicidade e de profunda tristeza. Órfão e totalmente sozinho no mundo, Granier encontra paz ao construir uma família, em cenas luminosas e belíssimas.

A alegria do convívio familiar é continuamente interrompida pelas longas e exaustivas jornadas de trabalho. “Sinto que estou perdendo a vida dela inteira”, reclama o lenhador, referindo-se ao crescimento da filha.

Ao abordar a questão, o ator que interpreta Granier disse, em entrevista ao Guardian, “por mais privilegiado que eu seja, ainda não consigo conciliar minha vida profissional com a minha família”.

“Sou um trabalhador contratado e as crianças precisam estar na escola. E se elas não forem à escola, eu vou para a cadeia”, acrescentou.

A diferença com Granier, no entanto, é avassaladora. O cenário que ele vive é de brutal exploração do trabalho nas florestas norte-americanas. Uma a uma, as árvores vão sendo derrubadas em jornadas exaustivas, bem filmadas, em meio às explosões de violências, acidentes contínuos e esgotamento generalizado.

Quando a noite chega, a floresta ressurge à luz das fogueiras iluminado a solidão desses homens, a exaustão dos corpos, a impotência frente à exploração econômica. É o momento em que eles conversam e um universo compartilhado de exploração econômica vem à tona, com a promessa de afetos e reflexões sobre a vida.

Aqui tem spoiler

Nesta tensão crescente de carências, de despedidas e reencontros, Granier começa a refletir sobre a possibilidade de mudar de vida, mas ao tomar a decisão, ele se vê diante de uma tragédia descomunal. A floresta onde sua mulher e filha residem pega fogo e ambas desaparecem, quando ele retorna de mais uma jornada de trabalho.

A construção desse incêndio, se o Oscar for justo, dará o prêmio ao diretor de fotografia brasileiro. O paralelismo entre a paisagem e os sentimentos do personagem tem aqui o seu ápice: as chamas exprimem o desespero e o que vemos é a fragilidade de um corpo que avança até onde consegue em meio à mais completa devastação do cenário.

O filme passa a ser a reconstrução desse personagem, em uma construção cuidadosa ao mostrar que a esperança de retorno dessa mulher e dessa filha jamais o permitirá superar o trauma. Mas o tempo passa, outros elos se refazem e acompanhamos Granier em sua jornada de profunda resiliência diante dos ciclos da vida e da natureza.

Inteiramente filmado com luz natural em locações no Noroeste dos Estados Unidos, Sonhos de Trem poderá dar um prêmio inédito a Veloso, que já é o primeiro brasileiro a receber duas indicações – uma ao Oscar e outra ao BAFTA – como diretor de fotografia. “Que ano para o Brasil”, disse ele, ao receber o Spirit Awards.

“Estou muito feliz por representar o Brasil novamente, a América Latina e todos os imigrantes aqui”, afirmou, ao terminar seu breve discurso com um bordão que vem sendo sua marca e que esperamos ouvir no dia 15 de março: “vai Brasil, vai Corinthians”.