Livro faz justiça à figura semi-apagada de Nora Ney
Dossiê Nora Ney ilumina a militância de esquerda e a resistência feminina da cantora que vocalizou sambas-canções de fossa dos anos 1950 como “Ninguém Me Ama” e “Se Eu Morresse Amanhã”
A figura esmaecida de Nora Ney (1922-2003) ganha lustro novo no Dossiê Nora Ney – Uma Voz Poética e Política, 100 Anos, livro de ensaios organizado pelo músico e pesquisador Raphael Fernandes Lopes Farias em torno da cantora carioca que viveu seu auge artístico entre os anos de 1952 e 1959. Publicado pela editora Garota FM Books, da jornalista Chris Fuscaldo, o dossiê apresenta prumada feminista, representada principalmente no ensaio “Em busca de um novo lugar para a mulher: feminismo e quebra de padrões na trajetória de Nora Ney”, assinado pela jornalista Kamille Viola. A abordagem é mais que oportuna, já que Nora foi vítima de violência doméstica e tentativas de feminicídio (um termo desconhecido na década de 1950, mas utilizado com propriedade pelo texto de Kamille).
De quebra, o livro ilumina o lado político da identidade de Nora e também da de seu segundo marido, o também cantor carioca Jorge Goulart (1926-2012). Marginalizado pela ditadura de 1964, o casal integrou, logo após o golpe civil-militar, uma lista de profissionais demitidos da Rádio Nacional, ao lado de nomes como Dias Gomes, Mário Lago, Paulo Gracindo, Oduvaldo Vianna, Vanda Lacerda, Jorge Lacerda, Zezé Macedo e Jararaca (da dupla caipira com Ratinho).

Nora Ney apresentando-se com Ciro Monteiro e Clementina de Jesus em 1968.
(Foto: Fundo Correio da Manhã / Domínio Público)
Antes, em 1958, Jorge e Nora haviam integrado uma comitiva político-cultural brasileira às comunistas União Soviética e China, fazendo shows em diversas cidades dos dois países ao lado de Dolores Duran, Maria Helena Raposo e Conjunto Farroupilha. “Nora foi uma das primeiras artistas mulheres a se assumir publicamente como de esquerda, em uma época em que a presença feminina entre os formadores de opinião ainda era rarefeita”, escreve Kamille Viola, dimensionando o peso do posicionamento de Nora Ney sete décadas atrás.
O ativismo político apareceu muito raramente nas gravações dos dois cantores. Nora gravou “João da Silva ou O Falso Nacionalista”, de Billy Blanco, em O Povo Canta, um compacto duplo lançado pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes em meio ao amplamente sabotado governo de João Goulart (outras faixas do disco do CPC da UNE tinham títulos como “O Subdesenvolvido” e “Zé da Silva É um Homem Livre”). Jorge, no máximo, gravou uma música chamada “Linda Cubana” (“Cuba, Cuba, Cuba, Cuba livre/ não foi mole, não” e “juro pelas barbas do Fidel”), em 1961, e lançou um álbum de sambas-exaltação, Brasil em Ritmo de Samba (1956), dois anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, o maior inspirador de sambas-exaltação do naipe de “Aquarela do Brasil” (de Ary Barroso, 1939).
O boicote que varreu as duas carreiras a partir de 1964 devia-se, portanto, a fatores extra-musicais: a explícita militância de esquerda exercida pelos dois cantores, mesmo antes de se conhecerem e formarem um casal.
Bem distante de qualquer tipo de canção de protesto, Nora Ney passou (discretamente) à história como uma diva da dor-de-cotovelo, graças a um relicário de sambas-canções densos e soturnos, como “Ninguém Me Ama” (de Antonio Maria e Fernando Lobo, 1952), “Preconceito” (idem, 1953), “De Cigarro em Cigarro” (Luiz Bonfá, 1953), “Bar da Noite” (Bidu Reis e Haroldo Barbosa, 1953), “Se Eu Morresse Amanhã” (Antonio Maria, 1954), “Aves Daninhas” (Lupicinio Rodrigues, 1954), “Duas Lacraias” (João de Barro, 1954), “Solidão” e “Castigo” (Dolores Duran, 1958)…
Enquanto isso, Jorge Goulart, gravando discos desde 1945, alcançava sucesso popular em gêneros bem menos ensimesmados, como samba-exaltação, marchinha carnavalesca (“Cabeleira do Zezé”, de João Roberto Kelly e Roberto Faissal, 1963), samba de morro (“Mundo de Zinco”, de Wilson Baptista e Nássara, 1952, o clássico “A Voz do Morro”, de Zé Ketti, 1955) e eventualmente baião (“Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, em 1953).
Nora Ney e a bossa nova
Precursora da bossa nova em seu canto macio e discreto, Nora foi arrastada pela correnteza da rixa entre seu compositor mais constante, o também jornalista Antonio Maria, e os bossa-novistas emergentes, que de modo geral execravam o mundo de fossa e negatividade exalado em declarações como “ninguém me ama, ninguém me quer/ ninguém me chama de meu amor” ou “se eu morresse amanhã de manhã/ minha falta ninguém sentiria/ do que eu fiz, do que eu fui/ ninguém se lembraria”.
A despeito disso, Nora Ney foi uma das primeiras intérpretes de Tom Jobim, que em 1953 chegou a reger a orquestra de acompanhamento da cantora em “O Morro” (dele e de Billy Blanco) e na fossa extrema “Dois Tristonhos” (de Lupicínio). Em 1954, Nora foi a lançadora de duas composições de um Tom Jobim pré-bossa nova, em pleno tom de samba-canção de fossa, “Solidão” (“sofro calada/ na solidão”) e a hoje esquecida “O Que Vai Ser de Mim”, em que ela proferia frases nada bossa-novistas como “já fiz reza, fiz macumba/ nada disso adiantou”. A adesão de Tom, João Gilberto e demais integrantes da novíssima geração à montanha, ao céu e ao mar incompatibilizou para sempre as turmas do samba-canção e da bossa nova. Uma exceção foi o jovem Carlos Lyra, um dos inventores da moderna canção de protesto ao liderar o CPC da UNE e o disquinho de que Nora participou.
Também essencialmente política, a contribuição maior do Dossiê Nora Ney reside nas várias interpretações sobre os significados da presença da cantora na música e na vida brasileira dos anos 1950 em diante. A fonoaudióloga e cantora Rita Gottardi van Opstal, por exemplo, descreve os papéis ocupados pela mulher no tempo de Nora Ney: “Na música, a mulher podia sofrer, amar, ser traída ou chorar, mas sempre com dignidade e pudor. O canto feminino, portanto, era emocional, mas sem excessos, e, embora houvesse vertentes distintas, sobretudo nos anos 1950, a voz era domesticada, no sentido de manter a mulher dentro de um papel socialmente aceito: o da ‘sofredora respeitável’, a que ama e perdoa”.
Para Rita, as diversas modalidades de censura e autocensura a que as mulheres estavam submetidas justificam, por exemplo, a interdição à livre expressão da sexualidade pelas cantoras mulheres: “O sensualismo era, muitas vezes, disfarçado sob uma camada de tristeza ou nostalgia, como nos boleros, nas canções de fossa ou nas letras de amores impossíveis”.
Tal sublimação ajuda a entender não só o canto de Nora, mas também as criações das primeiras mulheres que então se aventuravam não apenas a cantar, mas também a compor, casos de Dolores Duran e Maysa, ambas mortas precocemente, em 1959 e 1977. Razões para a fossa não faltavam. Em seu esclarecedor ensaio sobre as relações entre Nora e a imprensa, o historiador Danilo Saraiva menciona uma reportagem do início da ascensão da artista, onde se diz que ela tinha várias composições próprias, que “ela não se anima a apresentar nos programas, calculando que talvez não agradem”. Nenhuma composição de Nora Ney veio a público, nunca.
Mesmo sem coragem de se apresentar como autora, Nora fez um protesto quase silencioso contra esse estado de coisas: ao longo de seus anos de gravação, entre 1952 e 1992, inseriu no repertório uma série de canções que tinham assinaturas femininas. Entre as compositoras gravadas por Nora Ney, várias delas quase anônimas, encontram-se Bidu Reis (já em 1953), Zilda do Zé, Maria Pereira, Dolores Duran, Maysa, Marlene, Juanita Castillo, Linda Rodrigues, Dora Lopes, Rosinha de Valença, Gloria Gadelha, Sueli Costa.
A imprensa contra Nora Ney
A reação contra a relativa autonomia e independência expressa na voz da cantora se manifestou em forma de campanhas contra seu comportamento, movidas via imprensa, em sucessivos relatos sensacionalistas de escândalos sobre o desquite litigioso do primeiro marido, infidelidade conjugal, distúrbios psíquicos, tentativas de suicídio e por aí afora. Ainda em 1953, enquanto cantava “Ninguém Me Ama” e “Preconceito”, Nora foi à Justiça e prestou queixa-crime contra o primeiro marido (militante comunista como ela) por tentativa de homicídio – ou melhor, feminicídio. A imprensa, via de regra, ficou a favor do ex-marido e contra Nora Ney.
Casada com Cleido Queiroz Maia por uma década, Nora viu a situação conjugal se deteriorar quando resolveu assumir a vocação artística, passando a fazer sucesso no rádio e em disco. Enquanto ela cantava “Onde Anda Você?” e “De Cigarro em Cigarro”, Cleido foi à revista Manchete acusar Nora de ser “má esposa e péssima mãe” e se queixar de que ela teria se tornado cantora por conselho médico, por viver “acabrunhada” e “nervosa”. Aos poucos, veículos como a Manchete foram deslocando Nora da condição de vítima para a de “vilã” de uma história folhetinesca. Kamille Viola, a propósito, lembra que a interdição ao trabalho feminino fora de casa valia para as classes médias (e altas), mas não atingia as mulheres negras e pobres, invariavelmente empregadas em trabalhos braçais domésticos.
Oficializado somente em 1992, quando Nora completava 70 anos, o casamento posterior com Jorge Goulart se caracterizou não mais por escândalos, mas por ostracismo e exílio. Se havia coberto fartamente a excursão soviética/chinesa de 1958, a imprensa nacional jamais noticiou os inúmeros shows que a dupla fez ao longo do anos 1960 em países da Europa (inclusive do Leste Europeu), do Oriente Médio e da África lusófona, nem os poucos e exóticos discos internacionais gravados pelo casal.
Dossiê Nora Ney, no entanto, oferece elementos para compreender que a vida da artista tampouco foi fácil ao lado do marido-cantor. De início, Jorge não se separou da esposa, alegando que aguardava a maioridade da filha do primeiro casamento. Nora, por seu turno, se submeteu a 14 abortos durante esse período. Assim narrou em 1995 Alcir Lenharo, biógrafo do casal: “No tempo dos ‘anos dourados’, admitiam-se relações extraconjugais conquanto ‘não afetassem a integridade’ da primeira [família]. O ônus dessas imposições pesou dramaticamente sobre a vida pessoal da cantora; por 14 vezes viu-se obrigada a recorrer ao aborto, já que, de comum acordo, não teriam filhos. Resolução a dois, é verdade, mas de evidentes sobrecargas físicas e psicológicas para a mulher”.
Um aspecto não abordado no livro, mas que revela algum grau a mais de sujeição a que Nora foi levada, é o diminuto repertório gravado por ela na década de 1970, inclusive num álbum dividido com Jorge Goulart, Jubileu de Prata (1977). Jorge então se acomodava em repertório carnavalesco e no ofício de puxador de samba da escola de samba Império Serrano. Nora, por sua vez, parece ter ido a reboque do companheiro, deixando o samba-canção em segundo plano (exceto num LP solo de regravações em 1972 e em algumas faixas de Jubileu de Prata) e passando a gravar um gênero com que jamais teve grande afinidade, exatamente o samba de carnaval.
Nora Ney e Jorge Goulart permaneceram juntos até a morte dela, em 2003, depois de um câncer na bexiga e de um AVC durante um show, em 1992, que a afastou definitivamente dos palcos e estúdios. A essa altura, Jorge já tinha sido forçado a deixar os palcos devido a um câncer na garganta e à perda total da voz de quem cantara “eu sou o samba/ a voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor”. Dossiê Nora Ney faz justiça à mulher que protagonizou essa história, uma guerrilheira no enfrentamento e combate a obstáculos que continuam a ecoar numa sociedade 104 anos depois do nascimento de Nora Ney.
(*) Pedro Alexandre Sanches é Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” (Boitempo, 2000) e “Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)” (Boitempo, 2004)
























