Segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
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As quatro indicações de O Agente Secreto ao Oscar 2026 impulsionaram a curiosidade dos brasileiros em conhecer os cenários onde o filme foi gravado. A trama, que se passa no Recife, capital de Pernambuco, em 1977, envolve espaços emblemáticos na história do estado e do Brasil. Na manhã de sábado (24/01), o Tour Secreto Analógico reuniu recifenses e turistas de diversos locais para desbravar os lugares apresentados na trama estrelada por Wagner Moura, em seu primeiro longa em português desde que foi morar em Los Angeles (EUA), em 2017.

O trajeto teve início na Avenida Rio Branco, no bairro do Recife, onde os 40 participantes conheceram a fachada do jornal Folha de Pernambuco. No local, foi gravada a cena em que a edição do periódico traz a notícia da “Perna Cabeluda” encontrada na barriga de um tubarão. Essa lenda urbana trata-se de uma perna decepada à qual são atribuídos ataques a casais no Parque 13 de Maio, no centro do Recife, nos anos 1970.

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A localização central e a pouca iluminação favoreciam o uso do parque, que mede cerca de 6,9 hectares, como ponto de encontros amorosos de casais e de membros da comunidade hoje conhecida como LGBTQIAPN+. O historiador e guia do passeio, Everaldo Júnior, explica que “boa parte desses encontros era interrompida por agentes da ditadura militar (1964-1985), que faziam rondas e registravam ‘ocorrências’. Muitos desses casos eram noticiados nas rádios e jornais locais como espancamentos misteriosos, provocados pela ‘Perna Cabeluda’”.

Acompanhados por uma caixa de som móvel, que entoava a trilha sonora do longa, o cortejo cruzou a Ponte Buarque de Macedo rumo ao Mate Brasília, lanchonete de 1984. Instalada na Rua Alarico Bezerra, no bairro de Santo Antônio, a loja representa a tradição que se impõe em meio às ruínas nas quais muitos dos prédios centrais estão se transformando. O local cumpre papel central na trama, pois serve de esconderijo para Vilmar, personagem de Kayoni Venancio, após a primeira tentativa frustrada de executar Armando.

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A médica Beatriz Arruda nasceu em Recife e, durante 30 dos seus 38 anos de vida, frequentou muitos dos espaços que compõem o cenário do filme, mas não conhece a história por trás deles. “Eu conheço os Correios. Minha mãe é arquiteta e trabalhou na restauração do Ginásio Pernambucano, mas eu não conheço a história desses espaços. A minha maior curiosidade é entrar na sala de projeção do São Luiz”, disse ela, que confessa estar empolgada após o filme despertar um “sentimento de pertencimento sobre o Recife”.

Cinema São Luis em Recife

Cinema São Luiz é uma das paradas do ‘Tour Secreto Analógico’
Ewerton Ribeiro

A próxima parada foi o prédio dos Correios, inaugurado em 1950, localizado na Avenida Guararapes. No longa, o espaço é usado para mostrar o momento em que Armando envia um telegrama com um número de contato para se comunicar com um amigo de Brasília. Diferentemente da ficção, durante o regime militar, familiares de perseguidos políticos evitavam usar os Correios, por saberem que muitas dessas correspondências eram interceptadas por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

“Havia integrantes do regime dentro dos Correios. Há cartas de famílias de perseguidos e exilados políticos que nunca foram entregues aos familiares”, afirmou o guia e historiador.

Pesquisadora e professora da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Carolina Ferraz, que tem parentes vítimas da ditadura militar, afirma que, diante da vigilância constante dos Correios por parte do Dops, personalidades como o político brasileiro assassinado pelos militares Rubens Paiva “eram muito importantes, pois ajudavam as famílias fazendo com que as cartas chegassem trazendo notícias”.

Ao atravessar a Ponte Princesa Isabel, o tour seguiu pelas ruas da Aurora e da União, áreas que abrigam espaços onde a maior parte do longa foi rodada. Construído em 1825, o Ginásio Pernambucano é a escola pública mais antiga em funcionamento no Brasil. O prédio foi usado como repartição pública onde Armando, que assume o nome de Marcelo, passou a trabalhar ao se esconder no Recife. É na sala do Museu Luis Jacques Brunet que o personagem de Wagner Moura assume uma das máquinas de datilografia em seu trabalho provisório.

O local recebeu um arquivo recriado para ilustrar como as fichas de identificação das pessoas monitoradas pelo Dops eram armazenadas. É nesse espaço que o personagem busca informações sobre a mãe. Estudantes ilustres passaram pelo Ginásio Pernambucano, a exemplo dos escritores Ariano Suassuna, Clarice Lispector e Castro Alves.

Agenda de tours está fechada até fim de fevereiro e deve se intensificar após cerimônia do Oscar
Ewerton Ribeiro

O professor e doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Arthur Lira, disse que o diretor do longa, Kleber Mendonça Filho, possui a característica de “explorar a cartografia da cidade para falar sobre espaço e memória na ditadura militar de uma forma que foge do lugar-comum”.

Ele acredita que esse traço é herança da mãe do diretor, a historiadora Josceline Jucá, que “fazia um trabalho com a história oral, de resgate da memória, e a história institucional, destacada em uma tese do Instituto Joaquim Nabuco, que mais tarde se tornou a Fundação Joaquim Nabuco”.

Segundo Lira, a escolha dos quarteirões que abrigam as ruas da Aurora e da União não foi por acaso. Além do Dops, o espaço abrigou o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), onde torturas eram executadas, o que levou à criação do monumento Tortura Nunca Mais nas imediações. “Mesmo esse monumento não aparecendo no filme, ele simboliza o que significa a escolha do quarteirão para realizar as imagens”, disse.

Elisa Gonçalves mora no bairro Maria da Graça, no Rio de Janeiro, mas tem avós no Recife. Ela conta que eventualmente frequentava os espaços de locação do longa, mas não sabia o significado deles na história do Recife e do Brasil. “Eu andei por esses lugares, mas não conheço a história. Ao assistir ao filme, veio essa curiosidade”. A jovem conciliou a visita aos avós com o tour para realizar o desejo de mergulhar no cenário do longa.

O destino final do tour é o Cinema São Luiz, uma construção de 1952 que combina referências da arquitetura neoclássica e art déco e abriga cenas decisivas do longa.

Organizador do tour, o crítico de cinema e agente turístico Roberto Tavares disse que a agenda está fechada até o fim de fevereiro e deve se intensificar após a cerimônia do Oscar. “Esse roteiro será definitivo na agenda turística do Recife, sendo um marco para a história da cidade, que vê a população cada vez mais interessada em conhecer a história e resgatar a sua memória”, afirmou.