Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Uma retrospectiva ampla, rara e histórica de Jocelyne Saab, uma das principais vozes do cinema árabe, estreia em dezembro no catálogo da FILMICCA. A plataforma de streaming brasileira e independente encerra o ano com um destaque para a jornalista, documentarista e cronista das guerras que moldaram o Oriente Médio.

Saab nasceu no Líbano em 30 de abril de 1948, enquanto a Nakba se desenrolava no país vizinho, a Palestina. O termo Nakba em árabe significa “catástrofe” e é usado para designar o momento no qual 750 mil palestinos foram expulsos de seu território com a criação do Estado de Israel. Saab nasceu, portanto, em meio a um contexto político de mudanças estruturais na região e, sob influência do pai, cresceu imersa em uma ideologia pan-arabista que moldou sua relação com o cinema e com as lutas no Oriente Médio. A partir disso, criou filmes que revelam um olhar íntimo, político e profundamente humano sobre conflitos que marcaram o Líbano, a Palestina e o Norte da África.

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Mulheres Palestinas (Jocelyne Saab, 1974) <br> (Foto: Divulgação / Reprodução)

Mulheres Palestinas (Jocelyne Saab, 1974)
(Foto: Divulgação / Reprodução)

Nesse contexto, os acontecimentos políticos que se seguiram após a Nakba ganharam destaque em sua filmografia, desde seu primeiro curta-metragem, Mulheres Palestinas (1974), no qual busca ouvir as vítimas frequentemente esquecidas da guerra Israel-Palestina. O filme foi encomendado por uma emissora francesa, mas foi censurado ainda durante a montagem e nunca exibido. Para uma retrospectiva da diretora em Portugal, foi produzida uma cópia restaurada pelo centro de conservação da Cinemateca Portuguesa, que compõe agora a seleção da FILMICCA.

Sua relação com a luta Palestina se expressa também em O Navio do Exílio (1982), quando consegue uma rara entrevista com o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, ao acompanhá-lo em sua fuga rumo a um novo exílio na Grécia. Saab foi a única jornalista com câmera, entre homens e mulheres, autorizada a entrar no navio de Arafat.

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O líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, em O Navio do Exílio (Jocelyne Saab, 1982) <br> (Foto: Divulgação / Reprodução)

O líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, em O Navio do Exílio (Jocelyne Saab, 1982)
(Foto: Divulgação / Reprodução)

Nos anos 1970, Saab se tornou repórter de guerra no Oriente Médio – uma das raras mulheres neste campo dominantemente masculino – e se consolidou como uma jornalista talentosa e audaciosa. Com o início da guerra civil libanesa, a diretora realizou sua trilogia mais conhecida, Beirute, Nunca Mais (1976), Carta de Beirute (1978) e Beirute, Minha Cidade (1982). Nos três filmes, documenta os horrores da guerra, a destruição das casas – inclusive da sua própria, com 150 anos de história e memórias da família Saab –, as ruínas, a fome e os estragos emocionais e psicológicos. Nestes e em outros de seus trabalhos, transpõe uma carga poética para a narração e para as imagens, fissurando o tom jornalístico e criando assim um cinema autoral e único.

Jocelyne Saab produziu mais de 40 filmes, entre documentários e algumas ficções, que receberam diversos prêmios em festivais internacionais. A partir de dezembro, quinze de seus filmes estarão disponíveis na plataforma FILMICCA com cópias restauradas, uma oportunidade de conhecer parte da vasta filmografia da diretora, que revela uma voz singular na história do cinema árabe e do documentário.

Confira a lista completa de obras incluídas na retrospectiva Jocelyne Saab na FILMICCA:

Mulheres Palestinas / Les Femmes palestiniennes (Jocelyne Saab, Líbano, 1974)
Jocelyne Saab dá aqui voz às mulheres palestinas, vítimas frequentemente esquecidas da guerra Israel-Palestina.

A Frente da Recusa / Le front du refus (ou les commando-suicides) (Jocelyne Saab, Palestina, 1975)
Quando a paz se revela impossível, todos os meios se justificam na defesa de uma causa política. É isso que argumentam os comandos suicidas que atuam na fronteira que separa os territórios da Palestina do país que recusam a reconhecer como Israel. Jocelyne Saab foi a primeira jornalista a poder filmar esses jovens, com idades entre os 16 e os 20 anos, que treinam todos os dias numa base secreta subterrânea para se tornarem comandos suicidas.

Líbano no Meio da Tormenta / Le Liban dans la tourmente (Jocelyne Saab e Jörg Stocklin, Líbano, 1975)
Poucos meses após o ataque de 13 de abril de 1975, conhecido como Massacre do Ônibus, no qual civis palestinos foram mortos por milicianos das Falanges Libanesas, o saldo é trágico: seis mil mortos, vinte mil feridos, sequestros incessantes, uma capital semidestruída. Este filme traça as origens do conflito libanês, a percepção de uma sociedade que vai à guerra cantando. Um documento único sobre a Guerra Civil Libanesa. Para além da guerra religiosa, o retrato de uma realidade social e política que pouco mudou, mais de cinco décadas depois.

Retrato de um Mercenário Francês / Les Nouveaux croisés d’Orient (Jocelyne Saab e Jörg Stocklin, Líbano, 1975)
Retrato de um mercenário francês trabalhando na Líbia, contratado pelas Falanges Libanesas para treinar as milícias. A guerra deixa suas marcas e para alguns, que veem a morte como parte do trabalho, é uma vocação.

Os Filhos da Guerra / Les Enfants de la Guerre (Jocelyne Saab, Líbano/França, 1976)
Poucos dias após um massacre em uma comunidade perto de Beirute, a diretora Jocelyne Saab encontra as crianças sobreviventes. Ela se aproxima delas oferecendo-lhes giz de cera para desenhar. Um vínculo se cria entre elas. As crianças permitem que Saab filme suas brincadeiras violentas: elas repetem as cenas de horror que viram se desenrolar diante de seus olhos…

Beirute, Nunca Mais / Beyrouth, jamais plus (Jocelyne Saab, Líbano, 1976)
1976 marca o início do calvário de Beirute. Com o olhar de uma criança, a cineasta Jocelyne Saab acompanha durante seis meses a destruição diária dos muros da cidade. Todas as manhãs, entre 6h e 10h, ela percorre Beirute enquanto as milícias de ambos os lados descansam após a noite de combates.

Por Algumas Vidas / Pour quelques vies (Jocelyne Saab, Líbano, 1976)
Retrato de Raymond Eddé, candidato às eleições presidenciais no Líbano e fervoroso opositor da guerra religiosa. Durante os conflitos de 1975 e 1976, ele e sua equipe buscaram ativamente por pessoas mortas na guerra, fossem elas cristãs, drusas ou muçulmanas.

História de uma Aldeia Sitiada / Histoire d’un village assiégé (Jocelyne Saab, Líbano, 1976)
O cessar-fogo declarado em 21 de Outubro de 1976 deu aos Fedayin, militantes palestinos contra a ocupação israelense, a oportunidade de reclamar esta área, território do Fatah até ser abandonado em 1970, da milícia de direita. Mas os sírios e os israelenses se juntaram para neutralizar essa “força autónoma” palestina e impuseram um cerco a duas aldeias fronteiriças libanesas, Hanine e Kfarchouba, antes de atacá-las.

O Saara não está à venda / Le Sahara n’est pas à vendre (Jocelyne Saab, Argélia/Marrocos/Líbano, 1977)
Este filme, filmado no coração do deserto, retrata o conflito entre argelinos e marroquinos em El Aioun, e a resistência saariana da Frente Polisário. Uma história sem fim que continua sendo um dos motivos do conflito entre a Argélia e Marrocos.

Egito: A Cidade dos Mortos / Égypte: La Cité des morts (Jocelyne Saab, França/Egito, 1978)
O cessar-fogo declarado em 21 de Outubro de 1976 deu aos Fedayin, militantes palestinos contra a ocupação israelense, a oportunidade de reclamar esta área, território do Fatah até ser abandonado em 1970, da milícia de direita. Mas os sírios e os israelenses se juntaram para neutralizar essa “força autónoma” palestina e impuseram um cerco a duas aldeias fronteiriças libanesas, Hanine e Kfarchouba, antes de atacá-las.

Carta de Beirute / Lettre de Beyrouth (Jocelyne Saab, Líbano/França, 1978)
A cineasta Jocelyne Saab retorna a Beirute durante um dos períodos de calmaria, três anos após o início da guerra civil, impulsionada pelo desejo de voltar. Ela se depara com os estragos físicos, emocionais e psicológicos da guerra, aterrorizada e triste, sem conseguir encontrar seu lugar na cidade. Nessa busca, ela se comunica com pessoas comuns, amigos, vizinhos, pessoas que viajam de ônibus pelas zonas leste e oeste da cidade. Para cadenciar sua jornada e o desenrolar dramático do filme, Saab utiliza a estrutura de uma carta lida em voz off, escrita pela poeta mundialmente renomada Etel Adnan.

Irã, Utopia em Movimento / Iran, l’utopie en marche (Jocelyne Saab, Irã/França, 1980)
A revolução iraniana leva à queda do Xá e à instauração da República Islâmica. Evitando os aspectos mais sensacionalistas das notícias, este filme questiona a sociedade iraniana como um todo, buscando compreender o significado dessa onda de mudanças para o mundo muçulmano.

Beirute, Minha Cidade / Beyrouth, ma ville (Jocelyne Saab, Líbano, 1982)
Em julho de 1982, o exército israelense sitiou Beirute. Quatro dias antes, Jocelyne Saab viu sua casa queimar e 150 anos de existência familiar virarem fumaça. Ela então se refugia em questionamentos: quando tudo isso começou? Como o povo de Beirute viveu o cerco? Cada lugar se torna uma história e cada nome, uma lembrança.

O Navio do Exílio / Le bateau de l’exil (Jocelyne Saab, Líbano/França, 1982)
Após viver clandestinamente em Beirute para escapar das forças israelenses, o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, deixou o Líbano a bordo do Atlantis rumo a um novo exílio na Grécia e, posteriormente, em Túnis, na Tunísia. Ele fala sobre seu destino e o futuro da OLP. A diretora Jocelyne Saab foi a única jornalista com câmera, entre homens e mulheres, autorizada a entrar no navio.

Os libaneses, reféns de sua cidade / Les Libanais, otages de leur ville (Jocelyne Saab, Líbano/Palestina, 1987)
Jocelyne Saab filma a cidade de Beirute destruída pelos bombardeamentos israelenses, mostrando a extensão da destruição e o sofrimento das vítimas.

(*) Graduada em Audiovisual pela ECA-USP, Nayla Guerra é produtora cultural na Cinemateca Brasileira e organizadora do coletivo Cine Sapatão. É autora do livro “Entre apagamentos e resistências” (Editora Alameda, 2023) e diretora do filme “Ferro’s Bar” (2023).