‘Pecadores’ usa vampiros como metáfora do racismo que devora a liberdade e a cultura dos negros nos EUA
Concorrendo ao Oscar ao lado de ‘O Agente Secreto’, filme retrata comunidade negra do Mississipi nos anos 1930, anos após a Grande Depressão
A década de 1930 em Mississippi, nos Estados Unidos, foi marcada pela Grande Depressão, enquanto o estado lutava economicamente, dependendo fortemente da agricultura de algodão e sofrendo com segregação racial severa. Esses tópicos estão representados no filme Pecadores (ou Sinners, em inglês), um thriller que mistura, de forma muito autêntica, todos esses elementos políticos em uma trama também recheada de vampiros e uma pitada de musical.
Roteirizada e dirigida por Ryan Coogler – que dirigiu o também político Judas e o Messias Negro (2021) –, a história se desenvolve em um dia e noite na cidade rural de Clarksdale, mostrando um retrato singularmente histórico dessa comunidade com meeiros, cantores de blues, fazendeiros racistas e um certo romance.
O filme é protagonizado por Michael B. Jordan, que interpreta papéis: os gêmeos Smoke e Stack, que cresceram em Clarksdale mas partiram para lutar na frente alemã durante a Primeira Guerra Mundial, e que, ao voltarem aos Estados Unidos, acabaram em Chicago, onde trabalharam para Al Capone e aprimoraram suas habilidades no submundo.
A parceria entre Jordan e Coogler, não é nova, e pode ser vista também em Pantera Negra (2018), na franquia Creed, iniciada em 2015, e em Fruitvale Station (2013).
Os gêmeos SmokeStack passam uma tarde inteira organizando a inauguração do bar (que acontece naquela mesma noite), e, à medida que mais pessoas se juntam a eles, o espectador se envolve com a comunidade.
Cada gêmeo deixou uma mulher para trás, e isso contribui para a complexidade do filme. Mary (Hailee Steinfeld) foi amada e abandonada por Stack, e embora ele não diga isso em voz alta, fica claro que o que o levou a terminar o relacionamento foi a impossibilidade – em sua mente – de sustentá-lo em um mundo racista. Já Smoke abandonou Annie (Wunmi Mosaku), a curandeira local, com quem teve uma filha que morreu quando ele estava longe de sua terra natal.
O filme não faz questão de diferenciar tanto a caracterização dupla de Jordan, de maneira nada óbvia: Smoke usa um boné azul, já Stack possui dentes com ouro. Enquanto trocam cigarros, ambos apresentam a mesma beleza, sotaque e cavanhaque. Já a personalidade, ao desenrolar da obra, torna-se evidente, com destaque para a frieza de Smoke, por exemplo. Jordan tem uma interpretação bastante desenvolvida para os seus gêmeos, sutil, mas profunda.
Apesar de ser um thriller, a direção de Coogler sai do chamado terror convencional, isso porque o pano de fundo social da comunidade negra estadunidense, a criminalidade e a opressão são retratados de maneira envolvente, um retrato pessoal dos Estados Unidos nos anos 30 do século passado, que, acrescido ao pacto com o diabo, leva a metáfora do vampiro ao extremo.
Metáforas de vampiros são quase sempre eróticas – como em The Shiver of the Vampires (1971), de Jean Rollin, ou no clássico Bram Stoker’s Dracula (1992), de Francis Ford Coppola. Apesar da sensualidade presente em Pecadores, os vampiros são apresentados como extensões da cultura branca racista que tenta se apropriar, sugar a cultura negra e domesticá-la, enquanto mata seus criadores e (no caso do filme) arruina sua festa.
Os três vampiros aparecem no bar, mas, de acordo com o protocolo vampírico, precisam ser convidados para entrar. Smoke e Stack são muito desconfiados para se curvarem a esses penetras. No entanto, conseguem se infiltrar ao manipular um antigo relacionamento.
Nesse contexto, em que a comunidade busca vivenciar sua autonomia e soberania ao curtir sua cultura no bar, a metáfora do vampiro torna-se implícita: além de prometer a vida eterna, eles sugarão essa liberdade. Tudo isso enquanto os protagonistas estão presos e lutam por suas vidas. A música que seria a liberdade para essa comunidade é usada manipuladamente pelos vampiros que querem destruir o que construíram.
Atenção: contém spoilers!
Um dos pontos altos da obra é a cena em que os vampiros, liderados por Remmick (Jack O’Connell), dançam sapateado irlandês e tocam violinos (a essa altura, já existem vampiros negros mordidos que fazem parte do culto), e a mensagem é clara aos humanos que estão tentando vivenciar sua liberdade sem ser transformados: “abandone sua liberdade e junte-se a nós!”. A fotografia casa perfeitamente com a trilha sonora, fazendo o telespectador se sentir parte da cena.
Em certo momento, Coogler encena um longo e sinuoso plano-sequência pela pista de dança, e vemos um folião que parece ter saído diretamente do palco de um show do Parliament/Funkadelic, seguido por um dançarino de break, um DJ de hip-hop e outras figuras musicais anacrônicas.
Pecadores se tornou, este ano, o recordista em indicações ao Oscar, ao ser lembrado em 16 categorias. Essa façanha o colocou com o principal favorito da disputa neste ano.
Em três dessas catogorias, a obra de Ryan Coogler concorrerá diretamente com o brasileiro O Agente Secreto: nas disputas por Melhor Filme, Melhor Elenco e Melhor Ator – na qual foram indicados Michael B. Jordan e Wagner Moura.
























