Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Ajudar o BRICS a cumprir sua vocação de plataforma para uma maior justiça global, acomodando as diferenças para favorecer a cooperação e com meios de se defender de ataques da velha ordem. Essas são sugestões da sociedade civil para fortalecer o Conselho Civil do bloco, debatidas na Cúpula Popular do BRICS nesta terça-feira (02/12).

Criado no ano passado após o encontro do bloco na cidade russa de Kazan, o Conselho Civil é composto por representantes de movimentos e entidades populares dos 21 países membros do BRICS. Entre 1 e 4 de dezembro, cerca de 150 destes se reúnem no Armazém da Utopia, Rio de Janeiro, para debater como ter maior incidência nas tomadas de decisão.

“A sociedade civil pode garantir que os investimentos do BRICS sejam socialmente responsáveis. O Conselho pode gerar pesquisas em questões de paz, governança e desenvolvimento, ajudar o BRICS a tomar decisões baseadas em dados reais, princípios científicos”, disse Ahmed Hussen, presidente do Conselho das Organizações da Sociedade Civil da Etiópia.

“O conselho deve pressionar o BRICS a tomar decisões ambientais ambiciosas para atingir a justiça climática. Pode-se fazer uma diplomacia de povo a povo, sem mediação de governos.”

O etíope ressalta que o bloco não pode cair na armadilha de se tornar “um clube geopolítico de elite”, mas estimular a cooperação em áreas como comércio, tecnologia, energia e segurança”.

Conselho Civil do BRICS defende que bloco seja plataforma para uma maior justiça global, acomodando as diferenças para favorecer a cooperação e com meios de se defender de ataques da velha ordem
X/MST Oficial

Ameaças vindas do Ocidente

Integrante do Conselho Civil pela Indonésia, Ah Maftuchan citou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e os Estados Unidos como “as maiores ameaças à segurança global, gerando a erosão das soberanias nacionais”.

“Guerras tarifárias, sanções econômicas, crises financeiras são geradas pelo Ocidente. O desequilíbrio tecnológico e a ausência de uma governança digital pioram o quadro, assim como a crise climática com desastres naturais e pandemias”, diz ele.

“Instituições globais são inadequadas para lidar com esses problemas, são desatualizadas, mal geridas e tem muito pouco impacto.”

Maftuchan defende que o Brics se torne alternativa para esse cenário, melhorando instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a ONU, além de criar outras entidades que sejam opção para o Sul Global.

“O BRICS não pode ser um fórum de alto nível, frequentado por autoridades importantes, mas de base”, defende.

Necessidade de defesa

O tema da segurança foi abordado pelo jornalista Breno Altman. O fundador de Opera Mundi disse que o BRICS, por mais que esteja cada vez mais fortalecido como alternativa do Sul Global, “não passou no teste de impedir o genocídio palestino“.

“A Venezuela é o novo teste, mesmo não integrando o BRICS, por causa de um veto absurdo do Brasil. Um ataque contra Caracas é agressão a todos e uma resposta contundente a essa ameaça ainda não foi dada pelo BRICS”, disse ele.

“Enquanto não for possível se contrapor à estratégia principal da velha ordem, que é a guerra, a agressão, esse bloco contra-hegemônico não será uma oposição verdadeira.”

“Honestamente, perdemos tempo discutindo institucionalidade e governança. O debate deveria ser sobre como construir um bloco capaz de resistir à agressão imperialista”, provocou.

Contraponto indiano

Representante da Índia, o general B K Sharma, diretor-geral do Instituto de Serviços Unificados do país, defendeu o respeito às diferenças como fundamental para o crescimento do BRICS.

“Ideologia e slogans não ajudam. Eles criam inimigos, não parceiros. Não precisamos ser parecidos para trabalharmos juntos, pensando em regimes políticos como democracia, monarquias e sistemas híbridos”, disse o militar.

“80% da humanidade recebe menos do que precisa e o BRICS pode ajudar a reverter isso. O BRICS pode ter voz dentro do FMI. Podemos por energia para melhorar essas instituições, não somos contra o Ocidente.”

“O mundo precisa de mais alternativas, não menos. O projeto do BRICS precisa conquistar maior legitimidade internacional”, concluiu.