Coreia unificada - A Finlândia do nordeste da Ásia

Em entrevista, Leonid Petrov fala sobre reaproximação entre Coreia do Sul e do Norte; para ele, unificação entre os dois países traria enormes implicações geopolíticas

John Harrison | Sputinik

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Algo incrível está acontecendo na Coreia. O Norte e o Sul estão experimentando um descongelamento nas relações e uma visita do Presidente da Coreia do Sul para a Coreia do Norte está em negociação. Este degelo tem enormes implicações geopolíticas.

O Dr. Leonid Petrov, membro visitante do Colégio da Ásia e do Pacífico, na Universidade Nacional Australiana em Camberra, discutiu a situação com o anfitrião John Harrison, em entrevista para o site Sputinik News.

O Oeste talvez tenha sido pego de surpresa pelo que está acontecendo agora na Coreia. O norte e o sul do país estão à beira da abertura de negociações diplomáticas, apesar da vontade dos EUA. Quando o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, propôs a retomada das negociações com a Coreia do Sul durante o ano-novo, Seul pareceu saltar para a oportunidade.

Dr. Petrov explica que o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, foi eleito com a promessa de melhorar as relações com o Norte, e isso ainda não aconteceu. Agora, depois de um congelamento de 10 anos, é possível que outra era da "política do sol" mais uma vez conduza a melhores relações.

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Para Petrov, unificação entre os dois países traria enormes implicações geopolíticas

"Antes disso, existiam zonas de cooperação, voos entre os dois países; os turistas podiam dirigir seus próprios carros para a Coreia do Norte para visitar seus entes queridos que não tinham visto", afirma Petrov.

Os coreanos, quer vivem no sul ou no norte estão, em geral, interessados ​​em melhorar as relações entre os dois países. Mas a unificação, segundo Petrov, traria suas próprias dificuldades. "Jovens e velhos vão dizer-lhe que a unificação do país é o seu sonho. Mas depende da próxima pergunta: você vai introduzir um imposto de unificação, irmãos e irmãs do sul trabalharão na Coreia do Norte, que paga metade dos seus salários? Então, eles podem dizer: vamos ter unificação no futuro, agora não. Os sul-coreanos veem a Coreia do Norte como um território que precisa ser liberado e emancipado.”

Pode-se, talvez, comparar a possível unificação das duas Coreias com a unificação da Alemanha Oriental e Ocidental. No entanto, Petrov diz que não seria uma comparação muito boa, porque os níveis salariais dos norte-coreanos são proporcionalmente muito inferiores aos do sul-coreanos. Os sul-coreanos são extremamente bem educados e competitivos em conhecimentos e habilidades comerciais e industriais, uma situação diferente da Coreia do Norte

"Norte e Sul podem falar sobre a unificação, mas apenas após um processo conjunto de colaboração e educação. É por isso que a tese do presidente Moon Jae-in é, em primeiro lugar, a reconciliação; em segundo, a integração econômica, e só então a unificação. A nuclearização, bem, isso é algo que faz com que toda a história seja muito complexa, porque a Coreia do Norte não está se preparando para se desnuclearizar ", afirma Petrov.

Os norte-americanos veem sua presença na Coreia do Sul como tendo proporcionado estabilidade para o país. “Isso fará com que eles queiram permanecer na região?”, pergunta John Harrison. Sobre o assunto, Petrov responde que toda a ideia da presença norte-americana na Coreia do Sul baseia-se no sentimento anticomunista. "É muito ideológico e político: esta é, em essência, uma mentalidade da guerra fria, que reúne políticos de direita dos EUA e de Seul. Para eles, é importante ficar juntos, porque a China e a Rússia estão ao lado e os norte-americanos querem estar presentes”, afirma.

Segundo ele, “a Coreia do Sul oferece a oportunidade para as tropas norte-americanas estarem estacionadas no Pacífico Sul. Uma retirada norte-americana prejudicaria toda a tese de uma fraternidade americano-coreana construída sobre o anticomunismo ".

Desde que chegou ao poder, o presidente dos EUA, Donald Trump, questiona as contribuições de Seul para a aliança. Trump abriu renegociações de amplo acordo e de livre comércio entre os EUA e a Coreia do Sul e ameaçou colocar em curso uma ação militar direta contra a Coreia do Norte, pela qual o Seul suportaria a maior parte do risco.

Dr. Petrov diz que a Coreia do Sul é o poder que se beneficiará das inconsistências de Trump na política externa. "A Coreia do Sul terá acesso a matérias-primas e minerais que a Coreia do Norte agora vende para a China. A Coreia do Sul será muito mais forte. É por isso que o Japão é tão paranoico quanto a reconciliação. Todos estão contra a ideia de reconciliação”, diz.

No entanto, segundo ele, para a Rússia “é muito importante vender suas matérias-primas e conhecimentos para uma Coreia unificada. Agora, a Coreia do Norte é um buraco negro em uma região em rápido crescimento. Para a Rússia, faz muito mais sentido apoiar a unificação, porque isso abrirá as portas para exportar oportunidades na Coreia do Sul”.

“Eu acho que é uma situação de ‘ganha-ganha-ganha’ para Moscou, Pyongyang e Seul, que podem ver o processo de reconciliação reiniciado, talvez à custa da aliança sul-coreano-americana. Os norte-americanos não querem ver uma Coreia unificada ao lado de Vladivostok, o lar da frota russa do Pacífico. Para a Rússia e a China, é importante ver a Coreia como uma espécie de Finlândia do Leste Asiático. Um país que não é alinhado, mas é próspero; que é pacífico, mas vigilante, e que é uma potência econômica ", diz Petrov.

Existe ainda a possibilidade de que o atual descongelamento entre as duas Coreias possa levar a uma maior probabilidade de guerra, porque os EUA podem sentir que precisa salvaguardar sua aliança enquanto ela pode.

No entanto, Petrov explica que isso é improvável devido à proximidade dos grandes centros de disseminação populacional entre os dois países. "O que o presidente Trump estava falando no ano passado, sobre o fogo e a fúria, sobre uma armada nuclear, acabou por ser uma conversa vazia. Ele não enviou uma armada nuclear às margens da Coreia do Norte porque o litoral da Coreia do Norte não é longe do litoral russo e da frota do pacífico russo”.

“Os Estados Unidos vão comprometer seus próprios ativos navais e aéreos e as vidas de centenas de milhares de cidadãos norte-americanos que vivem, trabalham e estudam na Coreia do Sul, porque se a guerra começar haverá uma enorme perda de vidas humanas, uma enorme contaminação nuclear de toda a região e um desastre econômico para todos os envolvidos”, afirma.

Segundo Petrov, “a Coreia do Sul não toleraria qualquer ação imprudente. O presidente Moon Jae-in deixou bem claro para o Trump que não haverá guerra sem o seu consentimento, que não haverá guerra contra a Coreia do Norte sem a permissão específica do governo sul-coreano, e que o governo da Coreia do Sul não é suicida”.

Publicada originalmente em Sputinik News

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