Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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O atual conflito entre China e Japão expõe a política externa chinesa, que é reconhecida como pacífica, mas intensamente baseada na história e na construção da confiança entre os Estados. É o que avalia Melissa Cambuhy, coordenadora de Relações Institucionais e Governamentais no escritório regional da América Latina do China Media Group.

A Opera Mundi, a especialista em assuntos relacionados ao desenvolvimento nacional chinês afirmou que a relação entre os gigantes da Ásia ocupa um lugar sensível na diplomacia de Pequim, “pois a memória da ocupação japonesa atua como bússola da relação bilateral”. Ainda segundo ela, a China defende o princípio de “tomar a história como espelho e olhar para o futuro”, entendendo que apenas o reconhecimento histórico permitiria consolidar uma possível confiança bilateral. 

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No entanto, a postura adotada pelo Japão, considerada equívoca pela China, tem reforçado a desconfiança por parte de Pequim, o que dificulta uma normalização plena da relação entre as nações. Postura esta que “compromete e desestabiliza” a relação de ambos “de maneira permanente”, fazendo do passado um elemento estruturante e contínuo da rivalidade entre os países.

Desconfiança histórica

Segundo Cambuhy, a história, marcada pelo início da Primeira Guerra Sino-Japonesa entre 1894 e 1895 sob as tropas da ocupação do Japão imperialista, explica a desconfiança da China em relação ao seu vizinho. É com base nessa memória que Pequim estrutura sua política externa e interpreta as ações de Tóquio atualmente.

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“A postura do Japão em relação à China ao longo do Século 20 sempre foi ofensiva e expansionista, e mesmo após o fim da guerra, outros episódios anteriores e posteriores continuam a consolidar uma desconfiança que jamais foi superada”, afirma.

Por sua vez, a Segunda Guerra Sino-Japonesa, que ocorreu entre 1937 e 1945, representou o “ápice desse longo processo, em escala nacional e com números alarmantes de mortes”.  Somado a esse fato histórico, o Massacre de Nanjing expressou um grau de brutalidade da ocupação japonesa: o conflito resultou na morte de cerca de 300 mil pessoas, sendo “marcado por execuções, estupros coletivos e uso de campos de concentração para experimentos químicos e armamentistas”, segundo Cambuhy.

Ainda para a especialista, embora a guerra tenha sido o ápice da escalada expansionista japonesa, outros episódios anteriores também elevam a desconfiança chinesa. É o caso da disputa pelas ilhas Diaoyu Dao que, pertencente à China após o segundo conflito, não foram devolvidas pelo vizinho. 

“O Japão foi condenado a devolver territórios ocupados, mas até os dias atuais as ilhas ainda pertencem ao país”, sob argumento de que “não há disputa territorial na área e que a soberania japonesa é indiscutível”, afirma a especialista.

Além disso, em Tóquio, no santuário Yasukuni, até os dias de hoje “criminosos de guerra são reverenciados por civis e altas autoridades, o que demonstra como ainda não há reconhecimento da agressão japonesa”, enfatizou.

Presidente chinês Xi Jinping; primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi
Cabinet Secretariat, Cabinet Public Relations Office/The Presidential Press and Information Office

Aliança entre Japão e Estados Unidos

O Japão é historicamente um forte aliado dos Estados Unidos – principal nação concorrente da China – na região do Indo-Pacífico. De acordo com Cambuhy, “os próprios documentos estratégicos japoneses tratam a aliança Japão–EUA como “pedra angular” da segurança nacional do Japão”.

Ocasionalmente, a relação entre ambos é mantida por meio de declarações conjuntas que definem como eixo da “paz e prosperidade do Indo-Pacífico”, que segundo a especialista explica os “compromissos de defesa”.

Apesar da crise fomentada com Pequim, Tóquio segue, nesse sentido, mantendo uma parceria já consolidada e isso se expressa por meio das medidas adotadas em sua política externa e de segurança.

A especialista também menciona que, no governo de Donald Trump, em seu primeiro ano à frente da Casa Branca, houve uma intensificação das pressões norte-americanas por um alinhamento político com o Japão, “acompanhado da imposição de custos e responsabilidade por parte do governo sobre seus parceiros”.

Tal exigência vinda de Washington reforçou Tóquio a depositar maior peso na aliança, aumentando sua dependência ao Ocidente. As demandas norte-americanas falavam na elevação dos gastos em defesa para patamares superiores, chegando “acima do patamar de 2% do PIB que o Japão já vinha perseguindo”, conforme Cambuhy.

“O que vemos hoje é menos um ‘reposicionamento do zero’ e mais um aprofundamento e operacionalização da aliança”, disse.