De tempos em tempos, teorias da conspiração de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria sido substituído por um sósia ou clone voltam a circular na internet, alimentadas por supostas mudanças na aparência, na voz e no comportamento do mandatário. Neste ano, fotografias e vídeos usados como “provas” também passaram a contar com o auxílio da inteligência artificial para ganhar alcance e viralizar.
Um levantamento do Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia (LABHD/UFBA), elaborado a partir da análise de cerca de 83 milhões de mensagens publicadas em grupos e canais públicos do Telegram entre 2015 e setembro de 2026, aponta que os boatos não surgiram de um único episódio. A narrativa incorporou elementos de outras teorias conspiratórias internacionais e passou por diferentes fases até ganhar uma versão mais definida no Brasil.
O alcance dessas teorias ganhou dimensão no país. Segundo pesquisa realizada em agosto pelo Instituto Meio/Ideia, 12,5% do eleitorado brasileiro acreditam que Lula foi substituído por um clone ou sósia. Entre os eleitores que dizem votar no senador Flávio Bolsonaro para presidente, a proporção chega a 20%.
De acordo com o levantamento, a teoria combina fatos reais com interpretações feitas a partir de imagens. Lula, por exemplo, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho em 1964 e passou por procedimentos médicos ao longo dos anos. Esses acontecimentos são reinterpretados pelas publicações como indícios de que existiriam diferentes versões do presidente.

Fotografias e vídeos são comparados e apresentados como supostas evidências, embora as diferenças apontadas nas publicações, por si só, não comprovem uma substituição.
Os dados do LABHD/UFBA indicam que uma das referências utilizadas pela narrativa brasileira são teorias internacionais sobre supostos clones de figuras políticas. Em 2021, por exemplo, circulavam no Telegram referências a um suposto clone do ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden. A primeira menção explícita a um “clone do Lula” encontrada na base analisada aparece em abril de 2022.
A narrativa ganhou forma nos meses seguintes e atingiu seu maior volume em novembro de 2022, após a eleição presidencial. Naquele período, foram registrados 508 conteúdos relacionados à teoria.
De acordo com o cientista social computacional e professor associado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Leonardo F. Nascimento, esse processo está relacionado à própria dinâmica das teorias conspiratórias.
Éeeeeeh gado acredita em “Teorias da Conspiração” Lula clone de Lula 1, 2, 3, 4 de tetr4! pic.twitter.com/yEDf5aDMwl
— Tito 🇪🇪🇦🇷🇧🇷 (@TitoGremistazo) August 2, 2026
“As pessoas acham que são capazes de descobrir a verdade sobre as coisas, que basta ter acesso ao Google, fazer uma investigação pessoal, e elas vão conseguir chegar a verdades que querem esconder”, disse a Opera Mundi.
Nascimento destacou que momentos de polarização política e instabilidade social também favorecem o surgimento e a circulação dessas narrativas.
Após a eleição de 2022, a narrativa passou a incorporar instituições e personagens da política brasileira. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) aparecem nas mensagens como supostos participantes de uma operação relacionada à substituição do presidente.
Segundo a análise apresentada pelo LABHD/UFBA, a teoria do suposto clone de Lula não permaneceu estática. Ao longo dos anos, novos elementos foram incorporados à narrativa, que passou a circular por diferentes comunidades do Telegram, incluindo grupos políticos, canais dedicados a mistérios e teorias da conspiração, comunidades antivacina e espaços nacionalistas.
A teoria também passou a envolver o ministro Alexandre de Moraes, a esposa de Lula, Janja, médicos e até uma suposta “máfia russa”. Segundo o levantamento, esses elementos foram incorporados à narrativa conforme novos acontecimentos políticos e sociais surgiam.
Para o especialista, o principal problema das teorias conspiratórias não está apenas na possibilidade de uma pessoa acreditar em uma narrativa específica, mas no ambiente de desconfiança que elas ajudam a produzir.

“O principal perigo dessas teorias da conspiração é manter, em termos sociais, um nível de tensão emocional e de desconfiança institucional generalizada.”
Nascimento disse que o impacto dessas narrativas vai além da crença em uma teoria específica, porque elas contribuem para criar um ambiente mais amplo de desconfiança em relação às instituições e às informações que circulam na sociedade. Em contextos de polarização política e instabilidade social, esse cenário pode dificultar o debate democrático e a integração social.
“Em ambientes onde há um alto nível de desconfiança e medo, em que as pessoas compartilham explicações esotéricas sobre o que está acontecendo na realidade, isso é extremamente problemático para a saúde de uma civilização”, afirmou