A religião se tornou um dos destaques na corrida eleitoral brasileira, marcando a reta final do primeiro turno presidencial no país a partir de um conflito entre católicos e evangélicos por conta de uma polêmica envolvendo a figura de Nossa Senhora Aparecida.
A partir do comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes durante um programa da GloboNews, no qual relatou que setores da Igreja Católica estariam rechaçando a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) devido a uma ligação do representante da extrema direita com grupos evangélicos que promovem um projeto para retirar da santa o título simbólico de padroeira do Brasil.
Para o padre Paulo Sérgio Bezerra, o posicionamento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no episódio é “coerente com o Evangelho”, isto é, citando o caminho que Jesus de Nazaré deixou para seus seguidores, como é descrito na Bíblia no versículo de João 10:10: “vim para que todos tenham vida e vida em abundância”.
“Em segundo lugar, a CNBB reafirma o alinhamento da sua posição em acordo com a Doutrina Social da Igreja que vem sendo um ‘pensamento dinâmico fiel ao evangelho’ no recente magistério dos Papas e do Concílio Vaticano II”, acrescenta o sacerdote da Paróquia Nossa Senhora do Carmo a Opera Mundi.
O padre considera que o candidato da extrema direita “revelou-se, como seu pai, alguém com personalidade autoritária, uma pessoa desqualificada para o cargo que pretende ocupar”, e alerta para o tom usado nos ataques à CNBB, que poderiam, segundo ele, ser usado também no trato com outras instituições democráticas.
Na segunda-feira (28/09), dia seguinte à declaração, Flávio participou de um comício ao lado do candidato à reeleição ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em campanha na capital paulista, onde ergueram uma Nossa Senhora Aparecida de crochê, ao invés de uma imagem.
Padre Paulo Bezerra classifica o gesto como “hipocrisia eleitoreira não convincente”. A ação, por sua vez, acontece após o senador do PL acusar a entidade religiosa de ter pessoas envolvidas na disseminação da informação de que, caso ele seja eleito em outubro, teria o plano de retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil.
“Os ataques iconoclastas à fé católica, se por um lado gera mais convicção religiosa entre os católicos, por outro provoca a inútil e perigosa intolerância religiosa num momento efervescente de polarizações”, disse. Para ele, sob o ponto de vista eleitoral, talvez tenha sido um “tiro no pé” do senador.
A pesquisa publicada nesta quinta-feira (01/10) pelo Datafolha mediu as consequências dessa série de episódios na corrida eleitoral. Nesta divulgação, a intenção de votos em Lula entre os católicos cresceu acima da margem de erro e alcançou os 50%, cinco pontos a mais que os 45% da pesquisa realizada na semana anterior.
Por sua vez, o senador de extrema direita oscilou para baixo, ficando com 32% entre os católicos, um ponto a menos que os 33% de sete dias antes nesse grupo que contempla cerca de 49% da população brasileira (segundo dados do IBGE).
No entanto, entre os evangélicos (29% da população, segundo o IBGE), Flávio aparece com 42%, enquanto Lula tem 26%.
Nesse mesmo cenário, o papa Leão 14 falou contra a instrumentalização do cristianismo por grupos políticos de extrema direita e defendeu que a Igreja atue para prevenir o extremismo.
“Vemos também algumas manifestações que combinam essas posições de extrema direita com um determinado tipo de religião. E não é apenas a minha opinião: tanto os líderes da Igreja Católica quanto os da Igreja Protestante na Alemanha já se pronunciaram a respeito, afirmando que isso não constitui uma expressão autêntica do cristianismo”, afirmou o pontífice.
Outro ponto relembrado pelo padre Paulo Bezerra relembra aconteceu em abril de 2023: o Papa Francisco afirmou em entrevista a um veículo de comunicação argentino que o único antídoto eficaz contra o avanço da extrema direita é a justiça social. “Segundo o papa, a extrema direita tem uma dinâmica centrípeta, ou seja, voltada para si mesma, e não abre espaço para reformas ou para o exterior”, pontua o pároco.
“O papa Leão, durante a viagem apostólica a Camarões, África, em 16 de abril de 2026, afirmou: ‘o mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos’. Ambos apresentam ao mundo o multilateralismo como caminho de paz. A geopolítica mundial tem uma referência objetiva, clara e luminosa na pregação desses papas”, conclui o padre.