Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
APOIE
Menu

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que mantém uma relação “civilizada” e “respeitosa” com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas criticou as medidas adotadas por Washington contra o país, rejeitando qualquer ingerência externa nos assuntos brasileiros. “O Brasil não pode aceitar interferências de outros países em seus assuntos internos”, declarou à jornalista Mariana Godoy, durante sua entrevista à TV Record, neste domingo (23/08).

Durante a entrevista concedida em Brasília, no mesmo horário do primeiro debate eleitoral transmitido pelo Grupo Bandeirantes, o presidente brasileiro também comentou a diferença de sua relação com Trump e a atuação de integrantes do governo norte-americano. “Eu não sei se é o governo norte-americano, se é o Trump ou se é a assessoria do Trump. Eu, às vezes, tenho a impressão de que o Trump é bem melhor na relação política que a sua assessoria”, afirmou.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

Lula relatou ter conversado com o presidente norte-americano e contestado os argumentos utilizados pelos Estados Unidos para justificar o tarifaço contra o Brasil. “Eu disse ao presidente Trump que as bases sobre as quais eles tomaram as medidas que tomaram são mentirosas”, relatou.

“Nós temos os menores índices de desmatamento da história do Brasil e eu nasci na minha vida política combatendo o trabalho escravo, portanto eu não posso admitir que alguém diga que vai punir o Brasil por conta do trabalho escravo. Eu não posso fiscalizar os outros países”, acrescentou. Em sua avaliação, “no fundo”, as medidas de Trump visam atingir a China.

Mais lidas

‘Brasil não pode aceitar interferências de outros países em assuntos internos’, diz Lula
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Cooperação

Apesar das divergências, Lula disse que o Brasil está disposto a trabalhar junto com os Estados Unidos no combate ao crime organizado. “Aliás, eu entreguei um documento tudo escrito para ele”, afirmou. Também foi apresentada a Trump uma proposta de cooperação na exploração de minerais críticos e terras raras, mas o presidente brasileiro ressaltou que, desta vez, o Brasil pretende agregar valor aos recursos naturais em território nacional, em vez de simplesmente se limitar à exportação de matérias-primas.

“Disse para o Trump que nós estamos dispostos a trabalhar com ele na questão da exploração de matérias críticas e terras raras. Só que, desta vez, a gente não vai ser exportador de matéria-prima. Nós queremos transformar aqui dentro. Para produzir celular, para produzir bateria elétrica, para produzir chips. Nós não queremos ser exportador de matéria-prima”, complementou.

“Além disso, a gente quer ter um comércio muito, muito sério com os Estados Unidos”, afirmou Lula, ao ressaltar a importância histórica das relações entre Brasília e Washington. “Além de os Estados Unidos serem tecnologicamente importantes, economicamente importantes, militarmente importantes, nós temos 203 anos de relação diplomática. Somos as duas maiores democracias do hemisfério”, declarou.

Ele também contou ter dito a Trump: “nós somos dois homens de 80 anos de idade. Nós precisamos dar bom exemplo ao resto do mundo.”

Conflitos armados e tensões econômicas

Lula também abordou os conflitos globais. “É importante dizer para a sociedade brasileira: eu estou preocupado com os conflitos armados”, afirmou Lula. Ele destacou a existência de dois conflitos: “nós temos um conflito armado que envolve vários países, é a guerra na Rússia, é a guerra no Irã, é Israel que continua matando o povo palestino, ou seja, perspectiva de conflitos em muitos outros países; e temos ainda a guerra econômica, com o presidente dos Estados Unidos impondo tarifas ao bel-prazer a todo mundo”.

Segundo ele, os dois assuntos foram tratados também em conversas com os presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin. “Então, são dois temas sérios que eu conversei com o Xi Jinping, com o Trump e com o Putin.”

‘Saudade’ das antigas disputas eleitorais

Lula também criticou a deterioração do debate político no Brasil e disse sentir “saudade” das disputas eleitorais de décadas anteriores. O presidente brasileiro atribuiu parte da perda de qualidade da política à influência das redes sociais e criticou candidaturas construídas a partir da lógica de “lacrar” na internet.

Lula recordou sua primeira disputa pela Presidência, em 1989, quando enfrentou nomes como Ulysses Guimarães, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista (PDT). O presidente também disse sentir “saudade” de enfrentar adversários como Fernando Henrique Cardoso e José Serra.

Em sua avaliação, a internet contribuiu para uma mudança na qualidade do debate e na própria percepção sobre o que é necessário para disputar a Presidência da República. “Há pessoas que acreditam que podem concorrer como candidatos graças à internet. Há pessoas que acreditam que fazer piadas na internet ou causar sensação na internet lhe dá o direito de ser presidente da República. Ser presidente é outra coisa. Está tomando decisões sobre assuntos sérios”, afirmou.

“A Internet permite que criminosos se façam notar, às vezes com mais força do que pessoas honestas”, acrescentou. Apesar das críticas, Lula defendeu a participação política e a importância do voto, alertando para o risco de a rejeição generalizada à política deixar as decisões nas mãos de minorias que comparecem às urnas.

Questões internas

Durante a entrevista, Lula também comentou as investigações envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva. Ele disse que ninguém está acima da lei, defendendo que, caso sejam comprovadas irregularidades, os responsáveis deverão responder por seus atos.  “Todos nós somos obrigados a agir corretamente. Se alguém está agindo de forma equivocada, de forma errada, esse alguém tem que ser investigado. Não sou um presidente que tenta proibir investigação. Eu não ameaço mandar ministro embora. Investigue-se”, disse.

“Isso vale para o meu filho, vale para qualquer pessoa. Ninguém está impune se cometeu erro. Meu filho sabe que, se ele cometeu erro, ele vai ser julgado, vai ser punido ou inocentado. Ele tem que provar a inocência dele”, declarou.

Lula também defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública seja aprovada pelo Congresso Nacional. A criação da pasta deverá ser acompanhada de mais investimentos federais no setor e de uma atuação integrada entre União, estados e municípios.

“Nós temos que convencer os meus meninos da Fazenda, do Planejamento, de que vamos precisar de muito dinheiro para garantir um suporte de trabalhar aliado com governo do estado, com prefeituras, utilizando a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Polícia Penal, para que a gente possa, definitivamente, resolver o problema da segurança pública”, afirmou.

“É muito fácil a segurança pública chegar num bairro e matar 10, 15 pessoas, e está resolvido o problema. Não está resolvido. Porque o responsável por aqueles pobres estarem na bandidagem mora em apartamento de cobertura, ou mora em condomínio chique. Eles não aparecem”, acrescentou.

Na economia, ele destacou a queda do desemprego e da inflação, mas reconheceu que os juros elevados continuam pesando sobre as famílias brasileiras. Lula também abordou o fim da escala de trabalho 6×1, a luta do governo contra o feminicídio, entre outras medidas do seu terceiro mandato.