Pouco mais de 158 milhões de brasileiros estão habilitados para ir às urnas neste domingo (04/10) para decidir os rumos do país nos próximos quatro anos, em eleições gerais que definirão o próximo presidente da República, a conformação do Congresso Nacional, das assembleias legislativas e os governadores de 26 estados e do Distrito Federal.
No caso da disputa presidencial, o cenário mostra uma forte polarização entre as duas principais candidaturas: a do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca sua reeleição para um quarto mandato, o segundo consecutivo; e a do senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023).
O atual mandatário disputa a eleição presidencial brasileira pela sétima vez, após derrotas em 1989, 1994 e 1998; e vitórias em 2002, 2006 e 2022.
Lula promete que, em um eventual quarto período no Palácio do Planalto, promoverá a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, acabando com a escala 6×1, sem redução de salários. Também defende a criação de um modelo especial para regulação dos trabalhos mediados por plataformas digitais.
Outro ponto importante da plataforma petista é a “defesa da soberania energética e mineral”, com exploração do Pré-sal, da Margem Equatorial e dos minerais críticos – as chamadas “terras raras”.
A candidatura de Lula também propõe uma reforma do Poder Judiciário, especialmente do Supremo Tribunal Federal (STF); um reforço do trabalho diplomático visando a ampliação dos destinos das exportações brasileiras, para evitar pressões estrangeiras à economia; e regulação de plataformas digitais estrangeiras que atuam no Brasil.
Por sua vez, o senador Flávio Bolsonaro chegou à disputa após ser indicado pelo pai para ser o candidato do PL à Presidência, diante da impossibilidade do próprio ex-mandatário, que foi condenado pela Justiça por liderar uma tentativa de golpe de Estado, razão pela qual se encontra inelegível e em prisão domiciliar.
Na coletiva para anunciar a decisão do ex-mandatário, o próprio Flávio enfatizou que sua candidatura terá como uma de suas prioridades um decreto de anistia para libertar o pai e outros condenados pela trama golpista levada a cabo entre o segundo semestre de 2022 e janeiro de 2023.
A candidatura bolsonarista também promete criar um novo modelo trabalhista baseada no pagamento por hora trabalhada, suspensão por um ano da entrada em vigor da reforma tributária aprovada pelo atual governo, retomar o Programa Nacional de Desestatização impulsionado pelo governo de Bolsonaro, investir R$ 900 bilhões em rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias, entre outras medidas.
Flávio também promete um maior alinhamento com países governados atualmente pela extrema direita, especialmente os Estados Unidos de Donald Trump, mas também a Argentina de Javier Milei.
Nesse sentido, uma das medidas já anunciadas pelo candidato é que, se eleito, o Brasil ingressará no programa Escudo das Américas, criado por Washington para submeter países da América Latina a uma política se Segurança conjunta a partir de diretrizes estabelecidas pelas autoridades norte-americanas.
As eleições brasileiras acontecem sob um “nível de crítico de pressão dos Estados Unidos”, segundo relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) enviado ao Palácio do Planalto em agosto passado.
Uma das primeiras ações nesse sentido foi a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) em suas listas de “terroristas globais especialmente designados” (SDGT, pela sigla em inglês), e de “organizações terroristas estrangeiras” (FTO, pela sigla em inglês), medida tomada dias depois de uma visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca.
Em seguida, no dia 2 de junho, a Casa Branca anunciou o retorno da política de tarifas contra os produtos brasileiros, que haviam sido amenizadas no final de 2025, mas que voltaram à tona em meados de junho, com uma taxação de 25% como punição pelo Brasil utilizar o sistema de pagamento Pix, ferramenta gratuita que os Estados Unidos consideram como uma “concorrência desleal” com suas empresas de cartão de crédito.
No dia seguinte, foi aplicada uma nota tarifa, de 12,5%, relacionada à importação de mercadorias supostamente produzidas com trabalho forçado – situação que o país contestou na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Na ocasião, o presidente Lula questionou as tarifas aplicadas pelo governo de Donald Trump e acusou a família Bolsonaro de “sabotar o Brasil por interesses meramente eleitorais”. Ademais, prometeu que o governo brasileiro trabalhará para ampliar as relações comerciais com outros parceiros para encontrar novos compradores aos produtos taxados pelos Estados Unidos.
Além das tarifas, o governo dos Estados Unidos manifestou posição a respeito da disputa entre Lula e Flávio em uma carta do secretário de Estado, Marco Rubio, também em junho, na qual o chefe da diplomacia norte-americana afirma celebrar a iniciativa do político brasileiro de extrema direita de oferecer uma equipe de transição aos Estados Unidos, caso seja eleito.
Na reta final da campanha deste primeiro turno, uma nova medida dos Estados Unidos causou polêmica: nesta sexta-feira (02/10), o país suspendeu o atendimento presencial na Embaixada em Brasília e nos consulados norte-americanos em todo o Brasil, alegando questões de segurança, mas não detalhando quais ameaças motivaram a decisão – a medida foi adotada também pela Austrália, enquanto países como Canadá, Reino Unido e Alemanha emitiram alertas de segurança.
Outra ação dos Estados Unidos para interferir no pleito seria o financiamento de organizações que atuam no Brasil em campanhas de hostilidade ao Supremo Tribunal Federal (STF) e outras instituições.
Segundo reportagem publicada nesta quarta-feira (30/09) pelo jornal britânico The Guardian, o Departamento de Estado norte-americano chegou a criar um projeto para tocar essa iniciativa, batizado de “Combatendo o lawfare e a censura no Brasil” (Countering Lawfare and Censorship in Brazil), que recebeu cerca de US$ 1 milhão (R$ 5,2 milhões) para que entidades da sociedade civil defendam o que Washington classifica de “excesso judicial” e “censura” praticados pelo STF.

Durante os meses de agosto e setembro, o STF enfrentou uma das maiores crises internas de sua história, envolvendo principalmente dois dos seus ministros: André Mendonça e Alexandre de Moraes.
O estopim da crise foram as decisões relacionadas às investigações da fraude financeira do Banco Master, que envolvem o pivô do esquema, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e seu envolvimento com os ministros Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Luiz Fux e Kássio Nunes Marques, todos eles flagrados em ligações, reuniões, conversas ou contratos com o empresário.
Em meio ao conflito, Mendonça tomou outra medida controversa: determinou o afastamento temporário do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, alegando suposta espionagem de agentes policiais ao seu escritório. A decisão foi revertida no dia seguinte por Dino, que ordenou a reintegração imediata de Rodrigues ao cargo.
No dia 15 de setembro, foi analisado um pedido de abertura de investigação contra Moraes por seus vínculos com Vorcaro. A votação foi paralisada após pedido de vistas do ministro Dino quando o placar era 4×3 contra a instalação do inquérito – ainda faltava o voto de Fachin, enquanto os ministros Toffoli e Nunes Marques se declararam impedidos.
Muitos analistas afirmam que a crise no STF favoreceu o bolsonarismo, devido a que o presidente Lula tem sua imagem vinculada à de Moraes após o magistrado ter sido o pivô da condenação de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, por liderar uma tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022.
O conflito no STF também serviu para tirar do noticiário outra polêmica que também envolve Vorcaro e o STF, que é o financiamento do filme Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Bolsonaro, que teria recebido cerca de R$ 134 milhões, segundo reportagem do The Intercept Brasil, que mostra indícios de possível esquema de lavagem de dinheiro na transação. A investigação do caso está nas mãos do ministro Mendonça.
Em meio à crise, o atual mandatário defendeu a abertura de todos os sigilos referentes ao caso do Banco Master e fez críticas ao ministro Alexandre de Moraes, além de lembrar que o magistrado não foi indicado por ele ao STF, e sim pelo ex-presidente Michel Temer (2016-2019).
Na última semana da campanha no primeiro turno surgiu um novo ponto de controvérsia na corte, a respeito de mensagens publicadas nas redes sociais vinculando Flávio Bolsonaro a setores evangélicos que defendem um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título simbólico de “padroeira do Brasil”.
No dia 24 de setembro, a jornalista Maria Cristina Fernandes relatou durante um programa da GloboNews que setores da Igreja Católica estariam rechaçando a candidatura de Flávio Bolsonaro devido a uma ligação do representante da extrema direita com grupos evangélicos que promovem um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título e Padroeira do Brasil.
A declaração fazia referência ao projeto de lei 2.623/2007, cujo texto defendia a alteração da Lei 6.802/1980 para substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Também propunha trocar a expressão “culto público e oficial” por “homenagem oficial”.
O texto é de 2007, assinado pelo então deputado federal Victório Galli Filho, atualmente membro do PP de Mato Grosso, mas que à época era parlamentar pelo PMDB (atual MDB).
O projeto de lei de Galli Filho – que também é pastor evangélico e foi assessor especial da Presidência durante o governo de Jair Bolsonaro – terminou arquivado em agosto de 2008, mas desatou uma nova frente de polêmica na campanha, após Flávio acusar a CNBB de permitir que bispos e padres espalhassem notícias falsas contra sua candidatura.
A controvérsia também teve episódios no STF e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após uma decisão do ministro André Mendonça, que, na qualidade de vice-presidente da corte eleitoral, determinou a exclusão das redes sociais de mais de mil links e postagens vinculando Nossa Senhora Aparecida e a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A medida foi derrubada dois dias depois no STF, pelo ministro Flávio Dino, que atendeu uma solicitação do humorista Antônio Tabet, que teve uma piada sobre o tema censurada pela decisão de Mendonça.
Na quarta-feira (30/09), em sessão do pleno do TSE, Mendonça mudou sua decisão para liberar apenas o comentário de Tabet da punição.
Em meio à controvérsia, setores evangélicos ligados a Flávio Bolsonaro passaram a distribuir material associando o presidente Lula ao demônio. O mandatário reagiu erguendo imagens de Nossa Senhora Aparecida em alguns dos seus últimos atos da campanha no primeiro turno.
Além de Lula e Flávio, o cargo no Palácio do Planalto também é almejado por outros 11 postulantes: Augusto Cury (Avante), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi Júnior (Democrata).
Também serão escolhidos neste domingo os governadores de 26 estados da União e do Distrito Federal, assim como os representantes das 27 assembleias legislativas em todo o Brasil.
No caso do Congresso Nacional, o pleito coloca em jogo todos os 514 assentos da Câmara dos Deputados e 54 cargos no Senado Federal – neste segundo caso, as vagas representam dois terços da câmara alta brasileira.