O ex-consultor político argentino preso Fernando Andrés Cerimedo – assessor pessoal do presidente Rodrigo Paz, aliado do presidente Javier Milei e amigo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro –, havia dito à sua ex-companheira, a advogada Nadia Beller, que “lutaria” pelo senador e candidato à Presidência brasileira, Flávio Bolsonaro (PL), nas eleições de 2026. A informação foi dada por Beller – que foi baleada na frente de um hotel em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, no que se acusa Cerimedo de ter sido o mandante da tentativa de assassinato – à Folha de SP e publicada na quarta-feira (25/08).
De acordo com a advogada, houve uma ocasião em que ela havia perguntado ao seu ex-companheiro sobre as chances de Flávio ganhar as eleições presidenciais. “Ele me disse que estava difícil, mas que eles iriam lutar”, contou ao periódico brasileiro, acrescentando que “entendeu” que o ex-consultor iria auxiliar o filho de Jair. “Ele respondeu: vamos lutar”.
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o pleito de 2022, Cerimedo chegou a fazer transmissões de live e publicações alegando, sem provas, supostas fraudes eleitorais. A Polícia Federal (PF) também pôs o nome de Cerimedo na lista de figuras indiciadas no inquérito do golpe, mas não entrou na denúncia emitida pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Em julho deste ano, Cerimedo e Eduardo Bolsonaro participaram de uma live durante a qual ambos voltaram a atacar o sistema eleitoral brasileiro. À Folha, Beller disse que o ex-deputado federal é “um amigo muito querido” de seu ex-companheiro, e que haviam se encontrado nos Estados Unidos no mês de agosto. “Inclusive ele [Cerimedo] havia comentado que era possível que fossem juntos a Israel. O Fernando [Cerimedo] foi a Israel. Mas não me lembro de ter perguntado se o senhor Bolsonaro foi com ele”, relatou, apontando desconhecer o motivo pelo qual seu ex-companheiro tenha viajado ao país.
“Ele foi cumprir um compromisso, mas desconheço o motivo dessa reunião. Sei que esteve em Jerusalém, que circulou um pouco por lá, mas não comentou muito mais”, afirmou.
A advogada disse que Cerimedo tem um compromisso profissional na Bolívia, já que assessora o presidente de extrema direita Rodrigo Paz, mesmo sem um cargo oficial. “Pelo que entendi, no Peru pediram que ele participasse dessas eleições, mas ele só conseguiu ajudar um pouco no segundo turno, porque seu trabalho aqui na Bolívia o ocupava muito”, explicou.

Fernando Cerimedo é um influenciador conhecido por seu discurso de extrema direita, e por sua ligação próxima a figuras desse setor na América do Sul
Foto: X / @SilMercado
O Ministério Público da Bolívia acusou Fernando Cerimedo de ser o mandante da tentativa de assassinato de Nádia, a partir de mensagens encontradas em seu aparelho telefônico. Em 18 de agosto, a Justiça boliviana autorizou que ele fosse preso preventivamente por 180 dias.
Já em uma batida em propriedades ligadas ao ex-consultor, os investigadores relataram que ele possuía cerca de US$ 40 mil (R$ 206 mil) e uma minifazenda de robôs, uma estrutura tecnológica que reúne dispositivos digitais para disseminar e manipular conteúdos específicos nas redes sociais.
“O que ele tinha eram modems móveis que não eram usados para nada ilegal e, além disso, estavam em caixas”, escreveu Cerimedo em uma carta dirigida à sua advogada, negando que se trata de uma minifazenda de robôs.
No entanto, em 2023, ao jornal argentino La Nación, o ex-consultor admitiu o uso de contas automatizadas para influenciar os algoritmos das redes. “O serviço dos ‘trolls’ não é usado para fazer política, e sim para interferir nos algoritmos”, explicou, na ocasião. “Com os ‘trolls’, criamos essa relevância artificial. O algoritmo a detecta e conseguimos que mais pessoas vejam a postagem”.
Segundo Beller à Folha, o consultor tinha duas fazendas de robôs na Bolívia e outra maior, na capital argentina, Buenos Aires. Ele trabalhou na campanha de Milei em 2023.
“Eu nunca fui a esse lugar, mas ele me contou que era por meio de inteligência artificial que as contas eram sincronizadas em tempo real. Elas podiam até mesmo não repetir palavras, enviar mensagens diferentes, fazer publicações, comentários, inundar as redes sociais e segmentar de acordo com o público”, contou, destacando que se uma conta “incomoda alguém”, faziam várias denúncias até derrubá-la.
Segundo Nádia, o dispositivo foi aplicado em Honduras, no Chile, no Brasil, na Bolívia e na Argentina. No caso brasileiro, a estrutura foi usada em 2022 para favorecer Jair Bolsonaro.
O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) formalizou ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, um pedido para ampliar as investigações sobre Cerimedo, envolvido em apurações referentes à disseminação de mentiras contra o sistema eleitoral brasileiro.
Segundo Falcão, o ex-consultor argentino foi indiciado pela PF em 2024 por participar da organização criminosa que tentou enfraquecer a legitimidade do processo democrático brasileiro ao espalhar mentiras de fraude nas urnas eletrônicas nas eleições de 2022. Nesse sentido, não ficou claro na denúncia se Cerimedo tinha controle direto sobre essa operação ou se apenas propagava essa narrativa. Para o parlamentar, a apreensão dos aparelhos eletrônicos são fundamentais para preencher essa lacuna.
Entre as solicitações, Falcão requer a investigação sobre possível relação financeira de Cerimedo com partidos, candidatos ou intermediários ligados a campanhas eleitorais brasileiras, além do planejamento de uso da minifazenda de robôs para interferir no processo eleitoral brasileiro.
A Moraes, o deputado pediu a preservação de todos os equipamentos e documentos apreendidos de modo que possam ser analisados pela PF. Também pediu cooperação com as autoridades bolivianas para garantir a integridade e autenticidade das provas.