O jornal britânico The Guardian afirmou em editorial publicado nesta quarta-feira (30/09) que o resultado das eleições presidenciais brasileiras terá consequências que ultrapassam as fronteiras do país, especialmente para a democracia e o enfrentamento da crise climática.
“Uma presidência de Bolsonaro seria ruim para as mulheres, os pobres e as minorias. A democracia provavelmente seria sua primeira vítima, em âmbito local. Mas o clima certamente seria outra – com consequências para todos nós”, diz o jornal.
Em editorial a quatro dias do primeiro turno no Brasil, o diário descreve a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro como extremamente apertada e lembra que o país, a maior democracia da América Latina, ainda carrega em sua história recente mais de duas décadas de ditadura militar.
O texto destaca que o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão justamente por uma trama golpista destinada a impedir a continuidade democrática, após sua derrota eleitoral. E chama a atenção para a continuidade do seu projeto político na candidatura do filho, a começar pelo próprio indulto.
Segundo o editorial, Flávio Bolsonaro tenta apresentar-se durante a campanha como uma versão menos agressiva e temperamental do pai, mas isso não representa uma moderação de suas posições políticas. O editorial também traz o envolvimento do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Na avaliação do Guardian, as denúncias alimentaram a percepção de que a corrupção atravessa diferentes setores da política brasileira e também fortaleceram a alegação da extrema direita, que o jornal classifica como infundada, de que Jair Bolsonaro teria sido vítima de uma perseguição judicial.
Outro ponto destacado é a posição da família Bolsonaro em relação às urnas eletrônicas. Embora Flávio tenha declarado que respeitará o resultado das eleições, o Guardian lembra que integrantes da família passaram anos questionando a confiabilidade do sistema eletrônico de votação brasileiro, considerado internacionalmente respeitado.

Diante deste quadro, “uma vitória apertada de Lula no primeiro turno provavelmente seria contestada”. Sobre o presidente brasileiros, o jornal observa que inicialmente analistas esperavam uma vitória, mas que a disputa se tornou mais equilibrada.
O jornal reconhece a amplitude dos programas sociais do governo Lula, mas aponta como dificuldades a desaceleração do crescimento econômico, a frustração histórica com o desempenho da economia brasileira em relação ao potencial do país e a violência, que permanece entre as principais preocupações dos eleitores.
É no meio ambiente, no entanto, que o editorial amplia o impacto das eleições para além das fronteiras nacionais. O jornal compara os indicadores ambientais dos governos de Jair Bolsonaro e Lula e lembra que o primeiro período registrou níveis históricos de desmatamento da Amazônia, avanço da exploração ilegal de recursos naturais e invasões de territórios indígenas. “Esses índices diminuíram drasticamente quando Lula retornou ao poder”, destaca.
A interferência dos Estados Unidos também é mencionada. The Guardian afirma que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia fortalecer o projeto do presidente norte-americano Donald Trump e do secretário de Estado, Marco Rubio, de aplicar a “Doutrina Donroe” na região.
O diário britânico considera “perturbadora” a interferência norte-americana na disputa brasileira e observa que algumas das medidas adotadas por Washington produziram efeito contrário ao pretendido, permitindo que Lula reforçasse a imagem de defensor da soberania nacional diante das pressões estrangeiras.