Quatro anos após a rejeição das mulheres brasileiras à reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, o eleitorado feminino volta a ser um dos campos de disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), Camila Galetti avalia que as mulheres “não vão votar por uma ótica identitária, mas sim relacionado às condições que a família dela vai ter de sobrevivência”.
Segundo a especialista em comunicação política, o comportamento das eleitoras precisa ser analisado a partir das condições concretas de vida das famílias. As mulheres são maioria entre as pessoas que chefiam os lares brasileiros e, por isso, questões como renda, alimentação e custo de vida podem ter peso na formação das escolhas políticas.
A avaliação para Opera Mundi ocorre em meio a uma mudança registrada pela pesquisa Genial/Quaest: no levantamento divulgado na segunda-feira (28/09), Lula passou de 37% para 40% no primeiro turno das intenções de voto entre as mulheres. O senador, por sua vez, oscilou de 32% para 29%. Com isso, a diferença entre os dois candidatos é de 11 pontos percentuais.
Para a cientista social e professora da Universidade Federal do ABC, Maria Carlotto, a vantagem de Lula entre as mulheres continua significativa, já que permanece o “fenômeno de que a intenção de voto do Lula é muito maior entre as mulheres do que a de Flávio”.
A relação das mulheres com o sobrenome Bolsonaro também mudou em relação a 2022. Na avaliação de Galetti, Jair Bolsonaro carregava uma rejeição específica entre [o eleitorado feminino] por causa de declarações misóginas e da presença da violência política de gênero em sua trajetória como deputado e durante a campanha.
Por outro lado, Flávio chega à disputa de 2026 com uma imagem construída de maneira diferente. “Apesar de ter o nome Bolsonaro, ele não carrega também essa rejeição.” Segundo ela, o fato de o senador não reproduzir da mesma maneira a rejeição associada às falas misóginas do pai ajuda a explicar a diferença no comportamento feminino diante dos dois candidatos.
Carlotto também aponta diferenças entre a imagem de Flávio Bolsonaro e a do pai, mencionando que o atual candidato à Presidência “é menos identificado com a pauta armamentista do que era o pai. Então, isso o favorece”.
Além disso, a estratégia da campanha também envolve Michelle Bolsonaro como uma figura de aproximação com o eleitorado feminino. A ex-primeira-dama tem atuação no PL Mulher e possui uma relação especialmente forte com mulheres evangélicas, construída por meio de sua atuação política e de contatos com lideranças religiosas.
De acordo com Carlotto, Michelle teve um papel importante na estruturação dessa mobilização. “Ela fez um trabalho muito impressionante do ponto de vista institucional, de consolidar o PL Mulher em todos os estados da federação. Então, eles estão representados no Brasil inteiro. Ela tem uma enorme inserção no eleitorado evangélico, que é muito feminino.”
Os números mais recentes indicam que Michelle consegue ao menos minimizar parte da rejeição feminina a Flávio. Sua atuação envolve família, moralidade, religião e um projeto de país, elementos utilizados para apresentar o candidato da extrema direita como resposta a esse contexto.
“Ela vai disputando narrativas dentro do cenário político e também disputando significados. Nesse processo, a representação feminina se torna parte da própria disputa eleitoral, gerando cada vez mais uma representação feminina que está em disputa, o conceito de feminilidade, de política sobretudo”, afirmou Carlotto.

Vale ressaltar que a estratégia de mobilização feminina também aparece na campanha de Lula, com a presença mais frequente da primeira-dama Janja em eventos e discursos. A participação ganhou força após Lula reconhecer, em uma convenção do PT, que as mulheres haviam sido esquecidas e não tinham ocupado espaço de destaque nos discursos.
Entretanto, para Galetti, Michelle e Janja partem de estruturas diferentes para estabelecer essa conexão com as eleitoras. Enquanto a ex-primeira-dama possui uma trajetória de atuação junto a mulheres evangélicas organizadas, Janja fala a partir de uma posição institucional e para um público mais amplo.
A especialista avalia que a participação da primeira-dama pode criar outros vínculos com o eleitorado feminino, ainda que não reproduza a mesma conexão construída por Michelle com as mulheres evangélicas. “Eu acho que não tem uma conexão como a Michelle Bolsonaro tem com mulheres evangélicas, mas propõe outros tipos”, afirmou.
Já para Carlotto, Janja tem uma proximidade muito menor do que a de Michelle Bolsonaro, mas isso não significa que a primeira-dama “não cumpra um papel”. A diferença, segundo a especialista, também está na estrutura política de cada uma: “Michelle possui uma posição institucional dentro do PL, ou teve, até ela abrir mão. Ela é candidata, senadora. Então, ela tem uma militância institucionalizada, enquanto a Janja é uma figura pública”.
Além disso, Galetti relaciona o crescimento da presença de Janja na campanha às lacunas de representação feminina nas chapas, à violência política de gênero e aos casos de feminicídio. Para ela, o papel das primeiras-damas pode ser importante, mas as duas atuam a partir de espaços políticos distintos.
Além da disputa por representação, a percepção sobre a situação econômica aparece como outro elemento relevante para compreender o comportamento das eleitoras. Galetti cita o preço dos alimentos, o custo de vida e a economia doméstica como temas particularmente sensíveis. Para Carlotto, porém, o endividamento também ocupa um espaço importante nessa discussão.
Segundo sua avaliação, embora o governo Lula tenha adotado medidas relacionadas ao problema, elas seriam insuficientes para enfrentá-lo de forma estrutural. “Eu acho que o governo fez coisas, mas todas elas, nós já vimos apontando, são paliativos, não tem um programa substancial de ataque a essa questão do endividamento.”
Carlotto também chama atenção para a questão dos serviços públicos e avalia que a ausência de um compromisso mais explícito nessa área pode afetar a identificação da candidatura de Lula com as mulheres.
Para Galetti, o medo é um recurso político mobilizado nas disputas eleitorais e pode ser associado a problemas concretos do cotidiano. Segurança, preço dos alimentos e precarização do trabalho aparecem, segundo ela, como elementos utilizados na construção desse discurso. “O medo é um afeto que permeia toda a política e também é um recurso político muito mobilizado.”
A especialista cita como exemplo a utilização, em 2018, de temas como “kit gay”, “mamadeira de piroca” e “ideologia de gênero”. Na avaliação dela, o discurso da extrema direita pode reciclar o medo a partir de novos significados relacionados ao contexto econômico e social.
A violência contra a mulher também aparece entre os temas que podem influenciar a disputa até este domingo (04/10). Galetti afirma que os candidatos demonstraram pouca consistência ao serem questionados sobre o tema e aponta a ausência de planos de governo para enfrentá-lo.
Questões relacionadas à autonomia do corpo e aos direitos reprodutivos também entram na análise. O aborto, porém, não teria ocupado nesta eleição o mesmo espaço observado em disputas anteriores, segundo a avaliação da especialista.