No inverno ensolarado de Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, “caminhou” em cima de um trio elétrico nesta sexta-feira (28/08) pelo bairro da Liberdade, ao lado do governador Jerônimo Rodrigues (PT), também candidato à reeleição. A campanha foi acompanhada pelos candidatos ao Senado e ex-governadores da Bahia Rui Costa (PT) e Jaques Wagner (PT), além da ministra da Cultura, Margareth Menezes. Foi o primeiro ato de campanha do petista na capital baiana nesta corrida eleitoral.
A escolha do trajeto não foi aleatória. O bairro popular da Liberdade, que está entre os de maior população negra da cidade, é um símbolo da cultura afro-baiana e uma região historicamente identificada com a base eleitoral do PT na capital. “É a primeira vez que um candidato à presidência faz campanha em um bairro e não nos grandes centros”, disse Lula aos jornalistas antes da caminhada. “Além de ser o bairro de Rui Costa”, brincou o presidente ao justificar a escolha pela região.
A caminhada começou por volta das 16h15, no Largo do Guarani, e seguiu até o Plano Inclinado, percorrendo cerca de 1,2 quilômetro em meio a apoiadores, comerciantes e curiosos que se aglomeraram ao longo do percurso com bandeiras, camisas, berimbaus e jingles ao som do pagode baiano, como a música “Lula e a Jerônimo têm o molho”, em referência a um hit do carnaval deste ano.
Na caminhada em Salvador, mulheres eram uma grande parte dos apoiadores. A jovem Tailane, que segurava um bebê no colo e tinha uma criança ao lado, acompanhava o ato. “Sigo Lula desde sempre”, disse. “Lula, me dá minha casa”, gritou, sorrindo, referindo-se ao programa habitacional do governo federal Minha Casa, Minha Vida.

28.08.2026 – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, durante caminhada Lula em Salvador – BA.
(Foto: Ricardo Stuckert)
A Liberdade também é o bairro natal do candidato ao Senado pelo PT e ex-governador baiano Rui Costa, que acompanhou o grupo lado a lado com Jaques Wagner, ex-ministro e atual senador, também candidato à reeleição e ex-líder do governo no Congresso, além de outros candidatos ao Legislativo estadual e federal e apoiadores do partido.
Se Jerônimo e Rui Costa não saíram do lado de Lula, Jaques Wagner teve uma postura mais discreta, se posicionando nos bastidores e em uma linha atrás do presidente, tanto durante a coletiva de imprensa como em cima do trio elétrico. A postura foi diferente da de Rui Costa, que se manteve ao lado de Lula, junto com Jerônimo.
Jaques Wagner foi governador da Bahia entre 2007 e 2014, período em que encerrou a hegemonia do grupo político liderado por Antônio Carlos Magalhães, o carlismo, no estado. O encontro entre Lula e Wagner ocorreu um dia depois de o presidente ser questionado, em sabatina do Jornal Nacional, sobre apoiar o senador, mesmo ele tendo o nome envolvido em investigação do caso Master.
Em relatório da investigação, a Polícia Federal aponta Wagner como um “suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais”. A apuração busca esclarecer se o senador recebeu pagamentos em troca de apoio a medidas no Congresso que teriam beneficiado a instituição financeira. Wagner, que nega qualquer irregularidade, tem o apoio convicto de Lula.
Em Salvador, o presidente também reclamou da condução da sabatina, dizendo que estava disposto a discutir projeto. “Eu me preparei para propostas concretas”, afirmou.
Apesar de não citar Wagner e apenas pedir voto a ele no final do evento, a reportagem de Opera Mundi registrou diversos momentos de cordialidade entre ambos, como quando Wagner levou uma garrafa de água ao presidente. O senador não deixava de prestar atenção em tudo que Lula dizia. Contudo, o ex-governador se manteve longe dos holofotes e discreto também no trio elétrico.

28.08.2026 – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante caminhada Lula em Salvador – BA.
(Foto: Ricardo Stuckert)
A postura foi diferente da de seu colega de partido. Jerônimo se mostrou bastante à vontade na caravana, que virou um mini-carnaval fora de época para os apoiadores petistas que acompanharam de perto cada movimento do trio. O candidato à reeleição pulou, cantou e dançou.
Aos baianos, Lula disse que quer que o Brasil se torne exportador de tecnologia. “Em mais um mandato vamos mostrar que o povo brasileiro não deve nada a ninguém”.
Em Salvador, Lula também falou sobre criar um espaço para idosos, que garanta dignidade para viver a velhice com tranquilidade. “Que ele possa dançar, jogar dama, fazer o que quiser. Com médicos e para que possa ter toda a tranquilidade.”
Lula também não ignorou a presença massiva de mulheres no ato e abordou a desigualdade e a violência de gênero.
No final, Lula pediu voto para ele e para a trinca baiana: Jerônimo, Costa e Wagner.
A imagem de Lula segue como peça central – e disputada – na corrida pelo governo baiano. No primeiro debate eleitoral, realizado no início de agosto, os dois principais candidatos, Jerônimo Rodrigues (PT), que tenta a reeleição, e ACM Neto (União Brasil), usaram o nome do presidente como capital político diante do eleitorado da Bahia, estado que deu a Lula mais de 70% dos votos no segundo turno de 2022.
A reportagem apurou que a campanha de ACM Neto tem buscado se aproximar do simbolismo lulista, ao mesmo tempo em que a oposição reforça um discurso antipetista associado ao candidato.
Adversários relembram declarações de ACM Neto feitas em 2005, nas quais ele teria afirmado que gostaria de “dar uma surra” em Lula, referindo-se ao escândalo do Mensalão. Em entrevistas recentes, Neto, ex-prefeito de Salvador (2013-2021), afirmou que sua fala foi radical e juvenil. “Foi uma fase. Eu tinha vinte e poucos anos. De lá para cá aprendi muito com a política e aprendi muito com a gestão de Salvador”, minimizou.
Jerônimo Rodrigues e ACM Neto seguem tecnicamente empatados na disputa pelo governo da Bahia, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quinta-feira (27), tanto em cenário de primeiro quanto de segundo turno – com ligeira vantagem de ACM Neto sobre o petista, que tem mais apoio na capital baiana, enquanto Jerônimo tem mais capilaridade no interior do estado.
Ainda segundo a mesma pesquisa, na Bahia, Lula tem 50% das intenções de voto, contra 17% de Flávio Bolsonaro.