Sábado, 10 de outubro de 2026
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A série de polêmicas envolvendo temas religiosos na reta final da campanha eleitoral para o primeiro turno das eleições presidências no Brasil é vista com preocupação pela educadora Aline Câmara, conhecida nas redes sociais como criadora do canal “Despertar”.

Pioneira no Brasil em pesquisas a respeito do trauma religioso, Aline afirma que o debate sobre o tema religioso nos últimos dias “é péssimo para a nossa democracia”, por que “transforma a eleição presidencial num enorme circo religioso enquanto questões muito mais graves ficam em segundo plano”. “Em vez de discutirmos corrupção, economia, educação, saúde e o projeto de país de cada candidato, ficamos discutindo quem representa melhor Jesus”.

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A Opera Mundi, a pesquisadora afirmou que alguns setores evangélicos estão organizados em torno a objetivos de ocupação da política como projeto institucional.

“Existe literatura acadêmica que acompanha há décadas a passagem do ‘crente não se mete em política’ para o ‘irmão vota em irmão’ e, em alguns grupos, para uma lógica de ocupar governos e instituições”, disse Câmara.

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A educadora menciona que existem pesquisas que descrevendo como algumas igrejas atuam “inclusive como organizações capazes de selecionar candidaturas, mobilizar fiéis e disputar a agenda pública”.

Risco de ‘evangelistão’

Segundo a educadora, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, cuja candidatura é apoiada por esses setores evangélicos com projeto de poder, criaria o “risco de o Brasil caminhar para aquilo que cunhamos ‘evangelistão’”.

“Esse cenário pode produzir um cenário que não é simplesmente o de um país governado por evangélicos, mas de um Estado progressivamente submetido a uma interpretação religiosa específica”, considera.

Câmara recorda que a chamada “teologia do domínio”, seguida por alguns setores evangélicos próximos a Flávio e à família Bolsonaro, defende abertamente a ocupação das principais esferas da sociedade, como política, educação, família, cultura, comunicação, para “submetê-las a uma visão cristã de mundo”.

“Pesquisadores já analisam essa teologia como uma chave importante pra compreender a aproximação entre grandes lideranças evangélicas e o bolsonarismo”, disse.

Para ela, “o problema é quando alguém acha que possui a verdade absoluta revelada por deus, porque se a sua regra vem de deus, negociar é um erro, discordar é um pecado, e o adversário político passa a ser tratado como inimigo moral ou espiritual”.

“Historicamente, quando religião e poder estatal se fundem, já conhecemos o padrão. Primeiro se restringe o pluralismo, depois direitos individuais começam a ser condicionados pela moral religiosa dominante. Mulheres, pessoas LGBT, minorias religiosas, dissidentes e não religiosos costumam sentir isso primeiro”, adiciona.

A pesquisadora lembra o exemplo do Irã, onde “instituições clericais não eleitas controlam partes decisivas do sistema político, restringem candidaturas, reprimem dissenso e subordinam direitos civis a normas religiosas”.

“Quando eu falo em risco de um ‘evangelistão’, eu não estou falando de igreja cheia ou de pessoas professando sua fé. Estou falando de pastor virando autoridade política, bíblia virando fundamento de legislação e uma doutrina religiosa tentando determinar como milhões de pessoas devem viver. Isso seria o fim da democracia, o fim da liberdade religiosa e da diversidade de caminhos”, adverte.

Flávio Bolsonaro e Silas Malafaia, um dos pastores mais ligados ao bolsonarismo
Instagram @silasmalafaia

Polêmica com Nossa Senhora Aparecida

A educadora afirma que “a história de que Flávio Bolsonaro retiraria o título de Nossa Senhora Aparecida é falsa”, e lamenta que “enquanto o país discute católico contra evangélico, santo, idolatria e quem é mais cristão, existe uma investigação extremamente séria envolvendo o Banco Master, corrupção, lavagem de dinheiro e o próprio Flávio Bolsonaro”.

Câmara também questiona “a quem interessa que a reta final de uma eleição seja dominada por uma guerra religiosa em vez de discutirmos aquilo que está documentado e sendo investigado?”.

“Isso também mostra nos mostra a força política da religião. Quando transformam identidade religiosa em identidade eleitoral, basta acionar símbolos, medo e pertencimento pra sequestrar a atenção pública”, pondera.

Para ela, os últimos dias da campanha “viraram um concurso de teologia, quando o que precisamos é de uma investigação pública sobre quem quer governar o país, quais interesses representa e o que está fazendo com o poder”.

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