O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição em pleito previsto para outubro, concedeu uma entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, nesta quinta-feira (27/08), durante a qual abordou temas que incluem dívida pública, crise de estatais, o chamado “Caso Lulinha” e as investigações do ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner.
A sabatina foi marcada por um volume de questionamentos não voltados às propostas políticas para um eventual quarto mandato de Lula, mas sim referentes às investigações da Polícia Federal. Dado momento, o chefe de Estado brincou que estava se sentindo “no Ministério Público”.
Questionado sobre a fila de 1,3 milhão de pessoas à espera de benefícios do INSS, o presidente brasileiro antecipou que deve anunciar o fim da fila do INSS na semana que vem, em Brasília. “Eu, na semana que vem, vou anunciar que a fila zerou. A espera de 45 dias vai estar apenas em 200 mil pessoas, que é o normal”, afirmou, acrescentando acusações ao governo Bolsonaro pela lentidão no atendimento.
“Eles desmontaram o Brasil, desmontaram a Presidência. Nós chegamos a três milhões de pessoas na fila. E. nós vamos entregar agora a fila, terminada na Previdência Social”, criticou.
Questionado sobre a dívida pública, o mandatário destacou não se “preocupar” com ela. O motivo pelo qual, segundo o candidato, teria superado 80% do Produto Interno Bruto (PIB), destacando que decorre do aumento da taxa de juros de 14% ao ano. Segundo Lula, quando retornou à Presidência para seu terceiro mandato, o país havia herdado um déficit fiscal de 2,8% do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na entrevista, ele afirmou que o crescimento do PIB durante seus últimos anos de mandato, que consolidaram a taxa acima de 2% ao ano, derivou do pagamento da dívida. “Na medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair em relação ao PIB. 80% de dívida, em um país, não é muito. Olhe para os Estados Unidos, o Japão, a Itália. Sabe quanto é a dívida dos Estados Unidos? 120% do PIB”, explicou.
“Quando eu voltei agora, esse país estava destruído. O déficit era 2,8%. O último foi 0,8% e, agora, vai ser positivo. Nós vamos fazer superávit”, concluiu
“Eu comecei 2023 dizendo: se ao terminar o meu mandato, cada brasileiro estiver almoçando, tomando café, e jantando, eu terei realizado a obra da minha vida. E eu fiz mais que isso. Depois eu fiz o PAC, no segundo mandato. Depois eu fiz o PAC três nesse mandato”, comentou.
“O que quero para o próximo mandato? Quero fazer uma revolução tecnológica nesse país. Eu quero voltar a fazer com que esse país dispute com o mundo rico. Este país vai ter que ser dono dos minerais críticos de terras raras. Este país vai ter que apostar na inteligência artificial em língua portuguesa”, acrescentou.
De acordo com Lula, depois da China, o Brasil é possivelmente o país que possui mais minerais críticos e terras raras, mas que, “você percebe que está sendo vendido enquanto a gente não faz a regulação”.
Nesse sentido, o presidente informou ter pedido, esta semana, ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a aprovação de um projeto para a regulação das riquezas no Brasil. O candidato defendeu que as riquezas não devem ser retidas. De acordo com ele, “transformar e produzir” materiais como chips, baterias e celulares nacionalmente criaria “um passaporte para dar oportunidade para a juventude brasileira” para que possam ter uma vida própria.

Candidato à reeleição, presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva participou de sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo
Ricardo Stuckert
O presidente voltou a defender a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que visa reorganizar as competências da União, estados e municípios na área. Segundo Lula, a medida permitirá definir com clareza o papel de cada ente no combate à criminalidade.
Lula afirmou que negocia a proposta com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Alcolumbre. Ele sinalizou que, assim que a PEC for aprovada, criará o Ministério da Segurança Pública, pasta que, em sua avaliação, ajudará a coordenar as ações e evitar sobreposição de atribuições entre as esferas de poder.
Em breve comentário, assegurou o comprometimento de seu governo no combate ao crime organizado, ao mencionar o seu homólogo norte-americano Donald Trump, destacando tê-lo convidado a trabalhar de forma conjunta nas operações contra o narcotráfico. “Se os Estados Unidos quiserem, o Brasil está pronto e preparado”, disse.
Outro assunto levantado foi à respeito da crise dos Correios que, segundo os entrevistadores, acumulam quatro anos seguidos de prejuízo, em um rombo de R$ 15 bilhões. Na avaliação do presidente Lula, a estatal não deve ser privatizada, mas sim recuperada.
“Desde 1985, os Correios vivem em crise e aparece alguém que quer privatizar. O Correio é uma empresa muito importante para o Brasil, porque ela está em todos os municípios brasileiros”, disse, destacando ter colocado uma nova administração para resolver o déficit e modernizar a estatal.
“Não considero vender os Correios, não considero. Quero recuperar os Correios, sabe? E para ele prestar serviço de qualidade ao povo brasileiro. E ele pode fazer”, declarou, reiterando que a empresa sairá do déficit quando for reeleito para seu quarto mandato.
De acordo com o mandatário, os problemas também são atribuídos ao fato de que a empresa estatal não conseguiu se adaptar às transformações do mercado de entregas. “Obviamente que os Correios são vítimas de uma crise, que ele não se adaptou a um novo tempo. Não se adaptou, surgiu muita empresa de fazer entrega e o Correio ficou na mesmice”, frisou.
Na entrevista, o presidente reforçou que não utilizará o cargo “como outros fizeram” para proteger seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, citado pela mídia como “Lulinha”, alvo de investigações relacionados a três inquéritos abertos pela Polícia Federal (PF) que apuram um suposto tráfico de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com o governo federal. Segundo o candidato, caso haja irregularidades cometidas pelo seu filho, a punição deve ocorrer como a de qualquer cidadão.
Lula classificou as suspeitas sobre o filho como “ilações tiradas de telefonemas”, comparando a situação à sua própria experiência na Operação Lava Jato, classificando como a “maior mentira que contaram nesse país” para afastá-lo do pleito. “Eu coloquei minha cara. Eu poderia ter saído do Brasil. Queria provar que o Moro é mentiroso, Dallagnol é mentiroso. E a imprensa comprou essa mentira. A imprensa nunca me pediu desculpa por ter criado um monstro chamado Moro”, afirmou.
Já sobre as mensagens trocadas entre seu filho e a lobista Roberta Luchsinger, o candidato avaliou que os diálogos não configuram, por si só, evidência de crime, já que não há comprovação de desvio de recursos públicos. Ele também rebateu a informação de que teria oferecido um cargo à lobista, dizendo não conhecê-la.
Em relação ao ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, o presidente reconheceu que a conduta de manter contato com a lobista foi inadequada, mas reiterou que as mensagens não provam ilícitos. Nesse sentido, defendeu que as investigações avancem para apurar se houve efetiva liberação de dinheiro público.
Com relação sobre a manutenção de laços com o ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner, o presidente destacou que não há provas concretas para que acusem o parlamentar de ter ligações com o escândalo do Banco Master, que causou um prejuízo de R$ 60 bilhões.
“As pessoas são inocentes até que provem o contrário”, disse. “Eu tenho consciência de que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, ele vai pagar o preço do erro que cometeu”.
(*) Com informações de Brasil de Fato