Bolívia: Opositor que pede renúncia de Morales não consegue sair do aeroporto e deixa La Paz

Luis Fernando Camacho havia ido entregar "carta de renúncia" para que Morales assinasse, depois de ter dado "ultimato" de 48 horas; com aeroporto cercado por manifestantes, voltou para Santa Cruz de La Sierra sob proteção da polícia

Atualizada às 10h48

O líder opositor Luis Fernando Camacho, que, no sábado (02/11) havia dado um “prazo” de 48 horas para que o presidente Evo Morales renunciasse, chegou ao aeroporto de El Alto, próximo a La Paz, na madrugada desta terça (05/11). Ele decidiu ir à capital boliviana para “entregar pessoalmente” uma “carta de renúncia” ao mandatário, mas foi impedido por manifestantes pró-Morales de deixar o aeroporto. Por volta das 9h40 de Brasília (8h40 em La Paz), Camacho retornou a Santa Cruz de la Sierra.

Segundo o ministro de Governo, Carlos Romero, Camacho foi trasladado a Santa Cruz em um voo charter de emergência, com apoio da polícia. “Nos comprometemos com o resguardo à integridade física das pessoas que chegaram de Santa Cruz, cumprimos e o voo charter chegará à cidade de Santa Cruz absolutamente são e salvo”, afirmou.


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De acordo com o jornal La Razón, o comandante da polícia do aeroporto, coronel Franz Celis Mercado, avisou à vigília que estava do lado de fora do edifício que Camacho havia retornado a Santa Cruz. "Comunico-lhes que, há cinco minutos, decolou um avião com o senhor Camacho rumo a Santa Cruz. Eu, como comandante de El Alto, não posso mentir a vocês", disse.

Camacho, presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz de La Sierra, chegou a dizer (e divulgar imagens) de que teria saído do aeroporto. Duas horas depois, no entanto, voltou atrás, e disse que “efetivamente” seguia no local e acusou o diretor do edifício, Ibert Aguilar, de convocar uma “horda masista” (em referência aos apoiadores do MAS, partido de Morales). Por fim, deixou a cidade.

Entre os manifestantes que estavam fora do aeroporto El Alto, estão mineiros bolivianos e outros setores da sociedade civil. Após o anúncio de Mercado, uma comissão entrou no aeroporto e verificou que Camacho não estava mais local.

Movimentação

A movimentação de Camacho se iniciou no final de semana, quando deu um “ultimato” a Morales e pediu intervenção militar para removê-lo do cargo. No mesmo discurso, no entanto, afirmou que o presidente “não renunciaria” e que, por isso, iria a La Paz na quarta. O “prazo” dado pelo opositor “venceu” na segunda à noite. Além da saída de Morales, ele defende que uma nova eleição seja realizada sem a presença até de Carlos Mesa, segundo colocado no último pleito.

Nesta segunda, as Forças Armadas da Bolívia pediram o fim da violência” e disse que “velarão pela manutenção da democracia”. “Exortamos nossos compatriotas para que se cesse a violência e que se prime a racionalidade e o diálogo acima de qualquer diferença, preservando sobretudo a paz e a convivência entre irmãos”, afirmaram, em comunicado.

No domingo (03/11), Morales denunciou uma tentativa de golpe de Estado por parte de Camacho. “O povo estava confundido. [Diziam] Tinha fraude. Agora, o que dizem? Fora, Evo. Já não é um tema de fraude, é um tema de golpe. O povo também dará sua palavra. Os grandes patriotas, repito novamente, o verdadeiro patriota, o que faz a pátria, são os que fazem respeitar seus recursos naturais e não os que privatizaram antes”, disse.

ABI
Camacho retornou a Santa Cruz depois de ser impedido de deixar aeroporto de La Paz

Tensão

A movimentação da oposição começou após os candidatos derrotados por Morales - Camacho não é nenhum deles, pois nem chegou a concorrer - afirmarem que que não iriam reconhecer o resultado, a não ser que fosse realizado um segundo turno. O grupo, que se intitula “Coordenadoria de Defesa da Democracia”, diz “exigir a convocação imediata do segundo turno eleitoral, administrado de maneira idônea, independente e imparcial”.

Com 100% das urnas apuradas, o presidente obteve 47,08% dos votos, contra 36,51% do candidato de oposição, Carlos Mesa. Em terceiro lugar, ficou Chi Hyun Chung, de extrema-direita, com 8,78% dos votos, seguido por Óscar Ortiz, com 4,24%. O restante dos candidatos somou menos de 4%.

Na Bolívia, não é necessário obter 50% + 1 dos votos para se vencer no primeiro turno. Se o líder obtiver mais de 40% e tiver uma diferença de ao menos dez pontos percentuais em relação ao segundo colocado, a eleição termina. A diferença entre Morales e Mesa terminou em 10,57 p.p. - 648.439 votos.

Os oposicionistas alegam que, quando a contagem rápida de votos, um sistema conhecido como TREP, foi suspensa no domingo (20/10), apontava-se para um segundo turno. Faltavam, então, muitos votos das regiões rurais - onde o presidente tem boa parte de sua força eleitoral.

Na segunda (21/10) à noite, os números voltaram a ser divulgados, mas já com 95,23% apurados. Nesta altura, Morales já havia obtido mais de 10 pontos percentuais de diferença em relação a Mesa - 46,86% contra 36,72% - e garantia uma vitória no primeiro turno.

A partir deste momento, a oposição começou a acusar o órgão eleitoral e o governo de fraude. A recusa de Mesa em aceitar os números resultou em violência em pelos menos nove cidades bolivianas ainda na segunda.

Em Potosí, fogo foi ateado ao edifício do Tribunal Eleitoral Departamental. Também foram incendiados escritórios da apuração eleitoral em Sucre e Tarija.

Segundo relatos do jornal La Razón, duas pessoas pularam do segundo andar do edifício do TED, para fugir das chamas. Elas não teriam sido atendidas pelos apoiadores de Mesa que incendiaram o local.

No dia 30 de outubro, o governo boliviano anunciou que a OEA (Organização dos Estados Americanos) iria fazer uma auditoria nas urnas. No entanto, Mesa afirmou que não aceita a auditoria "nos termos do governo", pois, segundo o político, os acordos costurados entre a Bolívia e a OEA não "atenderam às condições" do partido Comunidade Cidadã.

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