"Guerra contra as drogas" é um fracasso, diz diretora do Programa das Américas

Para Laura Carlsen, é preciso que outro modelo seja construído, com o apoio da participação cidadã

Giorgio Trucchi

O modelo de luta contra o tráfico de drogas e o crime organizado impulsionado pelos EUA na América Central não apenas fracassou ruidosamente, como também acarretou um aprofundamento da violência contra as populações locais e a remilitarização do território, evidenciando interesses ocultos que propõem monitorar e intervir nos processos emancipatórios e unitários dos países da região.

Partindo desta análise, a cientista política e diretora do Programa das Américas do CPI (Centro para a Política Internacional), Laura Carlsen, assegurou em conversa com Opera Mundi que a única maneira de combater e derrotar o tráfico é impulsionando um modelo que se construa de baixo, com a participação cidadã e a recomposição do tecido social, quebrado pelas políticas neoliberais das últimas duas décadas.

Opera Mundi: Quais são as características do modelo de combate ao narcotráfico impulsionado pelos EUA no México e agora exportado para a América Central?
Laura Carlsen: É um modelo baseado na militarização do território e no enfrentamento direto para a interdição e pelo confisco de drogas ilegais, assim como a prisão ou eliminação dos membros dos cartéis da droga. Isso, por definição, implica enfrentar a violência com mais violência e o resultado é o aumento progressivo dos mortos. Até o momento, se calcula que o combate contra o narcotráfico e o crime organizado no México tenha deixado um saldo de mais de 60 mil mortos.

OM: Qual é o balanço deste modelo?
LC: Tem sido um fracasso total. Tem gerado altíssimos índices de violência, não tem detido o fluxo de drogas ilícitas que entram nos EUA e até a prisão dos capos [chefes] da droga não tem servido para frear o 'negócio'. Pelo contrário, sua captura tem desatado uma guerra entre os cartéis para assumir o controle do território, gerando mais violência e morte.

OM: Houve alguma mudança com a administração do presidente Barack Obama?
LC: A  Iniciativa Mérida foi iniciada em outubro de 2007 como um plano de três anos. O que Obama fez foi expandi-lo, intensificá-lo e estendê-lo de forma indefinida. Pela primeira vez, os EUA se envolveram diretamente na gestão de aspectos que têm a ver com a segurança nacional do México. É uma mudança estrutural muito preocupante que agora está sendo projetada para a América Central por meio da CARSI (Iniciativa Regional de Segurança para a América Central). Um dos primeiros efeitos que estamos vendo é a remilitarização desses países e uma dinâmica de crescente violência contra a população e de violação de direitos humanos.

OM: Que interesse os EUA teriam em reproduzir um modelo que fracassou?
LC: O país não está disposto nem sequer a analisar o porquê deste fracasso e estão recebendo fortes críticas até dos governos da região. Para nós, essa atitude revela que, por trás da militarização, há interesses muito poderosos.

OM: De quais interesses estamos falando?
LC:  Em primeiro lugar, garantir os enormes lucros da 'indústria da guerra', que está radicada majoritariamente nos EUA. São bilhões de dólares que entram no país através da venda de armas e de equipamentos militares, do emprego de empresas de segurança privada, como a Blackwater, e a implementação de sistemas eletrônicos e de espionagem sobre a população.

Em segundo lugar, há um interesse geopolítico. Os EUA querem ter mais controle sobre as estratégias de segurança interna dos países centro-americanos, sobretudo agora que vários governos progressistas ou de esquerda se instalaram na América Latina, governos que já não compartilham das políticas neoliberais e impulsionam processos inovadores. Neste sentido, os EUA buscam fortalecer sua presença militar para enfrentar o que veem como uma ameaça contra sua hegemonia tradicional na região.

OM: Também há um grande interesse pelos recursos destes países...
LC: É outro dos pontos diretamente ligados à militarização e que tem seu precedente na Colômbia, onde, sob o pretexto de combater o tráfico, enviaram mais de cinco milhões de pessoas. E o mais absurdo é que agora o Departamento de Estado norte-americano está apresentando a Colômbia como um exemplo de segurança e um modelo que se deve exportar em todo o continente latino-americano. No México, por exemplo, por meio da Iniciativa Mérida, os EUA militarizaram o TLCAN (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) para preservar seus interesses comerciais e proteger o investimento norte-americano em recursos naturais. Por fim, se trata disso: uma militarização que não apenas protege o investimento estrangeiro, como fomenta um processo de deslocamento e despovoamento de regiões onde há riquezas naturais.

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OM: Em vários países da América Central, os protestos sociais contra a exploração de recursos naturais está sendo criminalizados. A senhora compartilha desta preocupação?
LC: Não há dúvidas de que os protestos sociais estão sendo reprimidos, sobretudo nos países do Triângulo Norte. Há uma criminalização acompanhada pela repressão daquelas organizações que lutam contra a mineração, os megaprojetos hidroelétricos e turísticos, a expansão da monocultura em grande escala. Devemos aprofundar a análise e a pesquisa para ter elementos suficientes que nos ajudem a prever para onde essa repressão aponta.

OM: Que papel a DEA (Drug Enforcement Administration) tem e qual é o fluxo de dinheiro que financia a luta contra o narcotráfico na América Central?
LC: Investigamos o movimento de dinheiro que vai para a luta contra o tráfico de drogas, mas tem sido muito difícil devido à falta de transparência. Em alguns países, como Honduras e Guatemala, os agentes da DEA estão autorizados a andar armados e a disparar contra civis, o que é um absurdo e representa uma violação absoluta da soberania nacional e dos direitos humanos internacionais. Além disso, documentamos o sofrimento que a criminalização das manifestações causa e, em particular, o impacto disso sobre as mulheres. Lamentavelmente, esta situação se choca com o total desinteresse mostrado pelo Departamento de Estado norte-americano.

OM: Quais são os impactos desta política sobre as mulheres?
LC: Há índices muito elevados de abuso, tortura e violência sexual. As mulheres com frequência lideram a defesa de suas comunidades e as manifestações sociais diante do processo de militarização e de exploração dos recursos naturais. No caso de Honduras, esta situação coincide com o aumento da violência que surgiu depois do golpe de Estado e que cresceu com o atual regime de Porfírio Lobo.

Também é preciso destacar a repressão iniciada contra os oposicionistas ao golpe e o uso de uma suposta luta contra o narcotráfico para reprimir a oposição política. E tudo isso em meio a uma total impunidade. Em Honduras, os casos que chegam à sentença judicial são menos de 2% e as denúncias de corrupção nas instituições estão na ordem do dia.

Igualmente, na Guatemala, a situação é muito preocupante. As comunidades, que ainda têm na memória os horrores da campanha militar genocida dos anos 80, estão vendo como seus territórios voltam a ser militarizados e sua população, reprimida.

OM: Como combater, então, o tráfico de drogas e o crime organizado?
LC: Não há uma resposta apenas, nem um modelo certo, mas sabemos que a militarização não é a resposta. É importante que este outro modelo se construa de baixo, com a participação cidadã e com uma perspectiva de segurança que tenha como primeiro objetivo a segurança da pessoa, de sua vida.

Além disso, é preciso se focar na recuperação do tecido social, que tem sido destruído pelas políticas neoliberais. É necessário recompô-lo com programas sociais que criem emprego, garantam o desenvolvimento econômico, a saúde, a educação, o respeito aos direitos humanos. É preciso voltar a começar a construir uma sociedade forte, para que se possa resistir às infiltrações do crime organizado, ao recrutamento de jovens e à extorsão.

Além disso, é preciso pressionar as forças políticas para que haja um sistema de justiça a serviço da população, acabando com a impunidade e a corrupção.

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